Revista Saúda - Como descobriu o fado?

Aos sete anos tive hepatite. Fiquei em casa um mês. Só tinha três discos que não eram de fado. Um do Sinatra, outro do Aznavour e um disco dos Beatles que tinha "Don't Let me Down". Só que não podia ouvir aqueles três singles para sempre. Ao quarto dia, comecei a ouvir fado. E logo os fadistas mais puros, como o Marceneiro, o (Fernando) Maurício, o Carlos do Carmo e a Amália. Achei muito esquisito. Depois começou a entrar. Percebi então que podia cantar aqueles fados. Aos dez anos já sabia as músicas todas do fado tradicional.

RS - Depois foi a uma casa de fados e cantou o "Fado Isabel". Pedia-lhes para cantar?

Fazia birras para os meus pais me levarem às coletividades, porque eu gostava mesmo de cantar. Tinha aprendido os fados tradicionais e havia poetas populares a escreverem sobre a escola, a mãe e o pai. Eram quadras simples que contavam o meu quotidiano. Pegava nas quadras, sextilhas, quintilhas ou decassílabos e colocava nos fados tradicionais. Construía fados com aquelas letras.

RS - Até a Amália lhe achou graça...

Essa festa em que estou com a Amália e com o Carlos Conde foi uma homenagem ao (Alfredo) Marceneiro no Arreda, em Cascais, em 1978. Eu quis cantar para Amália. Tinha os meus dez anos.

RS - Quais são as melhores lembranças relacionadas com o fado?

As matinés nas coletividades em que cantava. E depois, aos 17 anos, quando comecei a cantar em casas de fado. Apanhei a antiga geração do fado, que me ensinou tudo. Desde guitarristas antigos como Carvalhinho e Fontes Rocha, a fadistas como Beatriz da Conceição, Maria da Fé e Amália. O Fernando Maurício e o Carlos do Carmo também deram muitas dicas.

RS - O fado era tido pelos jovens como música pirosa. Como é que lidava com isso?

Tinha uma certa vergonha de dizer que cantava fado. Quando ouvia fado baixava o som da rádio. Havia uma ideia muito errada do fado. As pessoas não conheciam o género no seu todo. O Zé Mário (Branco) diz que o que passava nas rádios eram as cantigas mais pirosas. A linguagem do Linhares Barbosa é muito boa. Assim como os poemas de David Mourão-Ferreira. As letras que Amália cantava, de Frederico Valério a (Alexandre) O'Neill, eram de muito bom gosto. A música que tem menos piroseira é o fado. O Zé Mário também achava isso. Só quando a Manuela de Freitas lhe mostrou o fado no seu todo é que percebeu que estava errado. Tem-me produzido os discos todos. Tem sido uma conquista.

RS - Por que fez questão de ir à tropa?

Foi a forma que arranjei de sair do sítio onde estava a trabalhar. O meu pai era chefe da construção naval no Alfeite e arranjou-me trabalho. Fui para lá trabalhar com 17 anos. Sentava-me a ouvir música e tanto ouvia fado como Rui Veloso. Tinha saído "Porto Sentido". Sabia que queria cantar. Quando surge a hipótese da tropa, foi a forma de sair dali. Quando fui em diligência para Alfama cantava todas as noites. A passagem pelos musicais de La Féria foi importante. Foi ali que ultrapassei o medo de cantar para um público maior. Foi lá também que Amália me ouviu e ligou para o David Ferreira numa noite de Natal. Em janeiro recebi o convite para gravar o primeiro disco. A dica da Amália acelerou o processo. A EMI acreditava no que queria gravar e eu até já tinha produtor: o José Mário Branco.

RS - É perfecionista. Essa caraterística não lhe causa angústia?

Sim. Mas tenho sempre aquela vontade de ser – uma coisa que nunca vou ser – perfeito. Quero evoluir cada vez mais e fazer melhor.

RS - Já ouve os seus discos?

Oiço quando estou a trabalhar. De vez em quando oiço um ou dois, para ir mudando os alinhamentos. Mas custa-me um bocadinho.

RS - E já gosta de se ouvir?

Não. Oiço sempre os defeitos. Há dois temas que gosto de me ouvir cantar, porque não há nada parecido. Estou a lembrar-me do “Lúbrica”. Às vezes vou lá buscá-lo porque gosto da letra. O José Mário Branco diz que quando o ouve cantar soa a autobiográfico.

RS - O Camané diz que sai de si. Em que ficamos?

A que soa não sei. Se estou em estúdio, nunca fico satisfeito. Se canto ao vivo, há possibilidade de melhorar, de ultrapassar-me no palco. É o que me interessa. Já aconteceu ouvir uma gravação de uma coisa que fiz no palco e também não gostar. E não me soa a nada a que me soam os grandes fadistas, porque sou eu. Cresci num meio de gente que idolatrava. Era muito difícil. Hoje já não sinto tanto esse peso, mas não consigo ter uma visão daquilo que faço como o José Mário Branco. Sinto o que o Zé Mário diz quando oiço Amália, Carlos do Carmo, Marceneiro, João Ferreira Rosa ou João Braga.

RS - Escolha um fado que conte a sua história ...

O "Triste Sorte", de João Ferreira Rosa. É dos fados que definem o que é ser fadista e a minha experiência do fado.

RS - Procura um registo emocional para cada fado?

Um dia estava a cantar o poema de Fernando Pessoa: "Deixei atrás os erros do que fui". E estava a cantar com sofrimento a mais, a dar-lhe uma dimensão que não tinha. O registo aprende-se. O registo emocional é a verdade. Sem fantasias. Não pode ser uma exibição.

RS - Acaba de receber o prémio Tenco, em Itália. O que o reconhecimento significa para si?

É um incentivo. Destaco o prémio Bordalo, os Globos de Ouro e o prémio do Blitz. Na altura não se falava de fado e era muito importante para mim chegar a outros públicos. Quanto ao prémio Tenco, é incrível a minha música chegar lá fora. Vou muito poucas vezes a Itália, e é bom ver que a minha música também chega a outros lugares.

RS - Que cuidados especiais tem consigo?

Deixei de fumar três vezes, mas já voltei. Tento fumar menos, bebo muita água e faço desporto. Este Verão, como tenho tido muito trabalho, não tenho tido tanto tempo para a ginástica.

RS - Tem algum tipo de restrições alimentares?

Não tenho tido. Gosto muito de comer bem. À noite não me atrevo a comer um cozido à portuguesa. Mas gosto muito de cozinha italiana.

RS - O que faz nos intervalos do fado?

Leio. Gosto de teatro e de cinema. Viajo imenso. Este ano vivi três meses nos EUA. No ano passado estive na Florida e há dois anos fiz a Califórnia toda de carro. As viagens descontraem de tal forma que depois, quando se regressa, volta-se com o entusiasmo necessário à criação de um novo projeto.​​

Texto de Maria João Veloso

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