A preparar-se para levar o espetáculo ‘Depois do Medo’ à Altice Arena, no dia 14 de fevereiro, Bruno Nogueira esteve à conversa com Daniel Oliveira onde recordou a carreira, falou da família e lembrou a infância.

Ao abrir o coração para falar das filhas, o humorista confessou que é um “pai galinha”.

Recorde-se que Bruno é pai de uma menina, Luísa, fruto da relação com Beatriz Batarda. A atriz é ainda mãe de mais duas meninas, do casamento com Bernardo Sassetti, que morreu num acidente.

“Acho que isso também vem da minha mãe, mas é aquilo que me permite ser mais livre em termos profissionais é o facto de não ser a minha prioridade. A minha prioridade está nas miúdas e em casa. Sendo essa a prioridade tem vantagens e desvantagens. As vantagens é que não tarda nada levantam voo, vão à vida e tu ficas sem prioridades, a vantagem é que é a melhor coisa que pode existir”, destacou.

Para o comediante, “a grande herança” que pode deixar às filhas, “mais do que casas, carros, ou dinheiro” são as “memórias”. “Criares memórias naquelas crianças que elas possam transportar com elas e a educação porque vai-lhe servir para a vida toda. Na educação está incluída o gosto musical, gosto pelas coisas simples”, salientou.

Com uma grande e muito especial ligação com as filhas mais velhas, Bruno destacou também um presente único que recebe sempre das meninas. “Normalmente no meu aniversário fazem-me sempre chorar [com cartas]. Vou-me sempre a baixo pela lucidez com que escrevem sobre o passado delas, o presente e o que querem que seja o futuro e o papel que estou a ter. Isso é uma coisa que me desarma sempre. Embora estejas com as pessoas dia-a-dia, quando tu percebes que a mensagem está a chegar, a mim desarma-me sempre”, revelou.

Quando era mais novo, queria ser jornalista ou advogado, mas aos 18 anos decidiu que afinal não eram essas as suas profissões de eleição e acabou por seguir uma área diferente.

Aos 18 disse aos meus pais que gostava de ser ator. A minha mãe ficou muito preocupada, o meu pai foi quem reagiu menos bem, percebo hoje em dia porque nada faria prever. Um tipo tímido que não fala nada, não há nada que aponte para esse lado e, de repente, dizes que queres se ator… Porquê?”, disse.

“Sabia que tinha experimentado uma vez na escola fazer qualquer coisa em palco na presença de público e que isso me tinha preenchido um sítio que ainda não tinha isso lá. Agora, não fazia a mínima ideia que ia ser mesmo por ali. Foi um tiro no escuro”, destacou.

Bruno, diz, foi uma criança pacífica, “não deu muito trabalho aos pais nem nunca deu sustos a quem cuidava de si”. “Posso ter sido um bocado mimado, fruto mais da minha mãe que é muito boa a fazer isso, e porque fui um filho muito desejado pela minha irmã. Eu nasço porque a minha irmã queria muito ter um irmão, tenho 12 anos de diferença dela. E há um dia em que a minha mãe começa a fazer tratamentos de fertilidade porque, supostamente, já não podia ter filhos, e depois nasce esta beleza”, contou.

Da infância tem várias memórias felizes. “Lembro-me de coisas que revejo agora na minha filha mais nova que é o facto de, por exemplo, ouvir os parabéns a você e ficar profundamente deprimido. Ela hoje em dia ouve e começa a chorar. Eu percebo, estão à espera que ela tenha uma reação, está toda a gente a olhar para ela à espera que ela esteja feliz e isso causa-lhe ansiedade e eu percebo muito bem”, relata.

Em vários momentos da entrevista, o humorista mostrou-se rendido à paternidade. Além das filhas - pois considera-se pai das três, mesmo sendo apenas pai biológico da mais nova – o comediante falou ainda sobre os pais.

Passas a ser pai e passas também da posição de filho dos teus pais para protetor dos teus pais porque começas a perceber uma série de coisas. Já não estás só naquela postura arrogante de filho, deem-me amor… Passas a ser protetor e a cuidar dos teus pais e a perceber que eles também precisam porque estão numa idade em que já precisam dessa atenção”, realçou.

“Lembro-me que a minha mãe me contava, quando eu tinha para aí cinco anos, que um dia teve um ataque de choro comigo ao colo porque dizia: eu não quero que ele vá para a tropa. Aos cinco anos… E hoje em dia eu percebo isso. À partida elas não vão para a tropa, mas vão voar… É uma ideia difícil de encaixar, é uma aprendizagem”, destacou ainda.

Sem dúvida que as filhas são quem o comove mais, especialmente a mais nova. “A Luísa porque a tenho numa idade em que as outras não as tive… É um cliché, mas vê-la a descobrir o mundo pela primeira vez e a ver coisas que nós damos como garantidas, é uma coisa que ainda hoje me comove”, admitiu.

Tenho alguma dificuldade em estar a vivenciar um momento bom, em família principalmente, um momento de grande alegria e vê-lo no presente. Eu vejo sempre esses momentos daqui 20 anos eu a recordar esses momentos. Isso é uma coisa que me comove porque sei que aquele momento, apesar de ser maravilhoso, algumas das peças não vão estar com certeza. Essa certeza incomoda-me sempre, mas também o facto de isto ser daquelas coisas que tu vais dizer: há 20 anos as miúdas estavam aqui, estávamos neste jardim a brincar e agora têm a vida delas, ou estava aqui com o meu pai… Essa noção de não conseguir viver o presente e abstrair-me desse fantasma do futuro é uma coisa que me comove, mas que eu gostava de não sentir tanto. Gostava de desfrutar mais sem esse fantasma”, continuou.

Filho de pais separados, Bruno Nogueira realçou também a boa relação que os pais sempre tiveram e revela que passam o Natal juntos. “Isso é muito saudável. Lembro-me que quando vivia só com a minha mãe, chegava a casa muitas vezes e ia direto para o quarto ver televisão. Acho que uma boa lambada nessa altura… porque a minha mãe estava a passar por várias coisas, pela minha avó, pela separação do meu pai, pela minha irmã ter saído de casa… E este bananas ia-se fechar no quarto lá com os problemas dele… Não diria uma palmada, mas acho que a rédea devia ter sido mais curta em algumas situações porque não é uma coisa que se faça”, acrescentou.

A fase escolar também foi tema de conversa. Questionado por Daniel Oliveira sobre se sofria de bullying por causa da sua altura e magreza, Bruno respondeu: “Não era bullying. Hoje em dia o bullying é uma palavra que se usa com demasiada facilidade. Havia malta que gozava, sim… Não parece, mas eu estou mais gordo, mas na altura era muito magro, mesmo. Portanto, as minhas pernas não há uma descrição. Está para ser explicado como é que o meu corpo conseguia estar suportado em duas canas da Índia. […] As pessoas não acreditam, mas eu farto-me de comer só que tenho um metabolismo muito acelerado”.

Já com muitos trabalhos de sucesso, falou também sobre a sua passagem pelo ‘Levanta-te e Ri’, contando que nunca tinha feito stand-up de forma profissional antes do programa, a não ser uma vez no bar do Chapitô. “E a segunda ou terceira vez que faço é para um milhão ou dois de pessoas, com textos que nunca tinha testado. Os textos eram escritos e feitos pela primeira vez no ‘Levanta-te e Ri’ em direto. Tudo o que aconteceu a seguir, aquela bola de neve mediática e de sucesso foi uma coisa que eu nunca na vida previ, nunca”, partilhou.

Trabalho que o levou para a ‘fama’ e que depois dessa passagem começaram a surgir os mais variados convites, entre eles para integrar o elenco da novela ‘Floribella’, que recusou.

Eu percebo o convite, mas eu é que não encaixava. Houve vários [convites]. Acho que às vezes há uma coisa que acontece às direções de programas que é: querem tanto capitalizar uma pessoa que acabam por estragá-la. Eu tenho esta pessoa e as pessoas gostam desta pessoa. Só que esquecem-se que as pessoas gostam dessa pessoa a fazer uma coisa, não quer dizer que gostem dela a fazer, de repente, um programa de culinária [por exemplo]. Às vezes, quem está do meu lado, é tão tentador os contratos que acabas por te deixar levar e, de repente, estás a fazer uma coisa com a qual não te identificas”, acrescentou.

Uma entrevista em que não faltou o seu caraterístico sentido de humor, tendo também sido destacado um dos momentos que mais o preenche: quando está a tratar do seu jardim, das suas árvores.

“Ali aquilo não tem nada a ver nem com a tua família, nem com a tua vida profissional, com o teu passado, nada. É um prazer imediato que dá frutos no futuro. […] É um lado muito terapêutico e ver resultados numa coisa que na vida nem sempre funciona”, salientou, referindo que esse gosto foi ‘herdado’ do pai.

E o que mais irrita Bruno Nogueira? “Pessoas que te faltam ao respeito achando que não estão a faltar. Quando se aproveitam da sua posição ou estatuto para te tratar como se tu fosses uma pessoa menor. Irrita-me quando na amizade tu sentes que aquela pessoa alguma maneira te está a trair mas que não tem coragem de te dizer. […] Às vezes sonsices quando as pessoas te tentam fazer passar por parvo e acham que tu não estás a notar. Também já pratiquei bastante sonsice na minha vida. Às vezes irrita-me reações que tenho com pessoas próximas a quente e irrita-me não ter tido a calma”, enumerou.

Durante a conversa, Bruno desabafou ainda que “o politicamente correto não é aquilo que as pessoas tentam fazer com que seja hoje em dia”.

O politicamente correto era bom, era para defender minorias e para que as minorias tivessem voz, fossem ouvidas, havia esse espaço que lhe era dado e bem. O que acontece hoje em dia é diferente. Há um grupo de pessoas que estão à procura em toda a tua vida e na vida das pessoas que te rodeiam e das pessoas que têm um espaço mais público frases que possam ser entendidas como ofensivas para elas e para uma comunidade em particular. Isso não tem nada a ver com o infringir o politicamente correto. Esses movimentos são tão estereotipados e querem tanto fazer com que tu penses só de uma maneira e que tu escrevas só de uma maneira que não tenhas espaço para brincar com um amigo teu que seja africano ou que seja gay, que, de repente, tu acabas por discriminar mais porque tens de fazer de conta que eles não existem. Estás com um amigo teu que é gay e se tu queres fazer piada com ele como farias se não tivesse uma câmara à frente, ou não tivesse ninguém a assistir, tu não podes fazer e tens de discriminar aquela pessoa precisamente por ela ser gay”, explicou, referindo-se de seguida aos limites do humor.

Para mim os limites do humor, que é a pior pergunta que se pode fazer, é aquilo que me faz rir. Aquilo que faz rir é o limite do humor. Se passa desse limite é trágico porque não faz nada”, continuou.

Seria desleal para as pessoas eu, - que sou uma pessoa que sempre fui ao encontro daquilo que penso - de repente, em função de um bem qualquer que se intitula maior começar a mudar o meu pensamento. A quem é que eu estaria a agradar? Sim, provavelmente as pessoas iam ficar mais confortáveis porque estar todas em casa a ver ou no teatro e não corriam o risco de eu dizer nada. Já viste o aborrecido que isso é. Acredito que até dê muito mais dinheiro porque há muito mais marcas que te chamam às vezes para fazeres coisas, mas o preço é um bocado alto demais para mim”, acrescentou.

E que tipo de humor é que não faz Bruno Nogueira rir? “Aquele que eu já prevejo o final. Aquele humor muito mastigado em que vais no principio e já percebes. Humor muito explicado também não me fascina. A coisa muito de caretas, de bigodes e de perucas, muito construída, nunca foi uma coisa que me deslumbrasse. Gosto das coisas que são discretas e que tu nem percebes que são humor”, confessou.

Entre os muitos trabalhos de sucesso que fez está o programa ‘Último a Sair’, transmitido na RTP. Formato que também foi destacado. “É capaz de ter sido dos momentos mais felizes da minha vida profissional. Apesar de haver pessoas que não entenderam logo ao principio o conceito, não percebiam o limite entre a verdade e a ficção, mesmo quem fazia, os protagonistas. Foi uma época mito feliz de escrita e de representação e porque nós estávamos, de facto, todos os dias naquela casa. Nós vivemos um bocadinho dentro de um reality show”, recordou.

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