Na Riviera Francesa, o azul do mar contrasta com o colorido da arte, com o verde da vegetação, a herança histórica e a deliciosa gastronomia. Aqui não há nada que falte, nem sequer os cumes cobertos de neve dos Alpes, que estão a apenas 40 quilómetros. A beleza sedutora e irresistível da Côte d’Azur conquista-me ainda antes de ter aterrado no aeroporto de Nice. Assim que o avião começa a baixar de altitude, o azul da água funde-se com o verde da vegetação e com o colorido das casas.

A sensação é a de que vamos aterrar em pleno mar, visto que a pista do aeroporto é um braço de terra conquistado ao mar Mediterrâneo. Lá do alto, a Riviera Francesa é um quadro gigante da paisagem gaulesa, que poderia ter sido pintado por um dos muitos pintores que aqui viveram, inspirados pela paisagem de sonho e pela alegria de viver que se cultiva nesta região. Foi assim no passado e continua assim no presente. Veja a galeria de imagens das principais atrações turísticas desta região.

Cosmopolita e tradicional

Cannes serviu de ponto de partida para esta viagem pelo sul de França. Conhecida mundialmente pelo festival de cinema, esta cidade deve a sua fama de distinto destino de férias a um inglês, Lord Henry Brougham, que se apaixonou pelo clima da região, depois de um surto de cólera o ter impedido de continuar viagem até à vizinha Itália. Outros aristocratas britânicos se seguiram, bem como famílias reais de toda a Europa e, depois destes, muitos mais vieram. As grandiosas mansões, os sumptuosos hotéis são prova disso.

A, até aí, pacata vila piscatória cresceu e hoje alberga 600 lojas (onde se incluem as melhores marcas de moda), 300 restaurantes e 120 hotéis. Para perceber essa transformação, entrei no Museu de la Castre para observar os quadros do antes e do depois e subir à torre e ver in loco esse crescimento, bem como os murais que celebram grande figuras do cinema, como Marilyn Monroe, Alain Delon e até cenas de filme que decoram muitos edifícios de Cannes.

Se a Croisette, a famosa marginal de Cannes que acompanha toda a praia, transparece luxo, a parte velha da cidade mostra a sua autenticidade e a alma provençal que teima em resistir ao cosmopolitismo do outro lado. Exemplo disso são as casas, as lojas de comércio tradicional, como a Ceneri que vende queijos de todos os sabores e tamanho ou a Ernest que faz o mesmo, mas com doçaria.

E depois há ainda o Mercado de Fortville, onde mandam os legumes e a fruta, que inebriam o ar e me põem a imaginar tudo o que podia cozinhar com eles. Para acalmar o apetite, resolvi provar la socca, uma especialidade da região, que se assemelha a uma panqueca feita com farinha de grão, cozida em forno de lenha e servida polvilhada de pimenta. Recomendo!

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A cidade que seduziu Picasso

Deixo, de seguida, Cannes para entrar no mundo de Picasso em Antibes Juan-les-Pins. O pintor espanhol passou três meses nesta cidade e as obras desse período estão expostas no Museu Picasso, também conhecido como Castelo Grimaldi. Compreendê-las é tudo menos difícil, pois Picasso pintou o que viu por estas paragens, a contagiante alegria de viver, o mar Mediterrâneo, os barcos à vela, a música e até os ouriços-do-mar. E há tudo isto em Antibes, uma cidade provençal banhada pelo Mediterrâneo que foi alvo da cobiça de vários povos e, por isso, foi destruída e reconstruída inúmeras vezes.

Segundo os locais, isso fez nascer uma cidade debaixo desta, um filão turístico ainda por explorar. O que está à vista, as casas de pedra com portadas coloridas, os mercados que se espalham pela cidade e me dão a provar mais um pouco dos sabores da Provença, a arte sacra nas igrejas, o verdejante Cap d’Antibes, não me deixa muito tempo para lamentar o facto de não se poder entrar no mundo subterrâneo. Mas, voltando a Picasso, dirigi-me à pequena vila Vallauris, onde o pintor viveu e chegou inclusive a casar, para visitar outro museu dedicado à sua obra.

O Museu Nacional Picasso alberga uma das suas mais importantes obras, «Guerra e Paz», pintada nas paredes e tetos da capela. No entanto, foi no Atelier Madoura, que redescobri a sua faceta menos conhecida, a de ceramista. Lá dentro, é fácil imaginar o artista espanhol a trabalhar (fez mais de 600 peças) com outros artesãos já que a parte da oficina está tal e qual como foi deixada. Nesta vila, tudo gira em torno da cerâmica. A tradição tem sido mantida e os jovens ceramistas mostram que ainda está bem viva, como é possível ver em várias lojas. Les Pentes Porcelaines é um bom exemplo disso.

Arte de rua num cenário medieval

Em Saint-Paul-de-Vence, uma vila medieval muralhada situada no topo de uma colina, mudei de guia para o não menos famoso Chagal que aqui viveu 19 anos e que aqui viria a morrer. O pintor russo é o nome mais sonante de uma terra de artistas. Porta sim porta não, há uma galeria, um ateliê e até as ruas são decoradas com obras de arte, tudo isto num raio de um quilómetro de diâmetro. Fora das muralhas, a Fundação Maeght e a Guy Pieters Gallery mantêm os parâmetros elevados.

A primeira é uma obra do arquitecto espanhol José Lluis Sert, que aproveitou a luz natural e lhe deu uma musicalidade própria, a água, aproveitada da chuva, que corre em várias fontes e lagos. Dentro e fora do espaço, há trabalhos de Chagal, Miró e Giacometti. As obras de arte que estão na rua impressionam forçosamente quem olha para elas. São raros os que com elas se cruzam sem as fotografar.

A segunda alberga surpreendentes exposições temporárias de arte contemporânea. Ao voltar para dentro das muralhas, deixei por momentos a arte e fui provar os vinhos gauleses na Petite Cave de Saint Paul e voltei a subir e descer as ruas da vila para conhecer as suas pitorescas lojinhas que fazem jus aos produtos da região, como é o caso da Jeanne en Provence, que me leva até aos aromas da vizinha Grasse, onde a perfumaria é histórica.

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A luz mágica de Nice

Nice, a encantadora capital da Côte d’Azur, ficou para último nesta viagem, mas isso não a relegou para segundo plano, bem pelo contrário. Sabem quando deixamos o que nos sabe melhor para comer no fim? A sensação com Nice é parecida. Sou conquistada a cada minuto pelo casario colorido da cidade velha, o azul suave do Mediterrâneo, a luz que brilha intensamente à semelhança de Lisboa, os espaços verdes e a alegria de viver que se sente quando se passeia pela Promenade des Anglais, que ladeia a praia. Estende-se por sete quilómetros e é o ponto de encontro dos habitantesda cidade.

Ninguém parece importar-se com o facto de na praia haver seixos em vez de areia. Nice é daquelas cidades para caminhar, embora também se possa alugar uma bicicleta ou usar o elétrico, cuja linha deixa ver um museu a céu aberto. Ao longo do seu percurso, existem obras de arte de 13 artistas contemporâneos, que, mais uma vez, revelam a importância que a arte tem por estas paragens.

A caminho da Colina do Castelo, entro na Maison Auer, mesmo em frente à ópera, um edifício de 1820, que é conhecida pelas frutas cristalizadas, pelas amêndoas de chocolate e pelos bombons, e perco-me na feira de antiguidades guiada por um especialista que me deu a conhecer o mundo das velharias. Nos outros dias, este mesmo espaço é ocupado por frutas, flores, legumes, chás e muito mais. E qualquer dia é bom para uma visita.

O charme eterno da Velha Nice

No cimo da coluna, vê-se a promenade de um lado e o porto do outro, ambos abraçados por elegantes edifícios. Os que mais me chamam a atenção são os do Vieux Nice, a parte mais antiga da cidade, pelos tons quentes e o estilo genovês. Afinal, a Itália está a 20 minutos de carro e a cidade integrou o ducado dos Saboias até meados do século XIX. Por aqui, os nomes das ruas estão em francês, mas também em niçardo, o dialeto local, as igrejas são barrocas e há inúmeras lojinhas, restaurantes, cafés, bares e geladarias em ruas labirínticas e estreitas.

Aconselho a entrar na JFB e na Les Delices de Candice para apreciar a joalharia, mas também na Falabrak Fabrick, uma loja e um café, onde se pode comer comida orgânica e o único local da cidade com um espaço feito especialmente para as crianças brincarem. Na geladaria Fenocchio, pare para provar os melhores gelados da cidade. Na Maison Bestagno, outra das minhas sugestões, desde 1850, só se vendem guarda-chuvas.

Nice também é isto, em cada porta há uma história magnífica pronta a ser contada pelos seus simpáticos habitantes, eles próprios uma mistura de várias origens e histórias. Saída da Velha Nice, entro no Museu de Arte Moderna e Contemporânea (MAMAC) que tem patente uma exposição do português Julião Sarmento. Mas este não é o único motivo da visita, pois além das excelentes mostras, o terraço proporciona outra das vistas da cidade.

É daqui de cima que se percebe bem a dimensão da Promenade du Paillon, um parque de 12 hectares bem no coração de Nice, que põe pequenos e graúdos a refrescarem-se por entre os seus repuxos e que desemboca na grandiosa Praça Massena. Nas redondezas do porto, ganham os antiquários e os ateliês de recuperação de velharias e é num deles, já a chegar à Praça Garibaldi, onde os habitantes de Nice vêm tomar o aperitivo ao fim da tarde, que encontro um dos objetos mais curiosos desta viagem... varinhas de condão!

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As varinhas de condão que encantam os visitantes

No Atelier Bonaparte, fazem-se varinhas de condão e é a elas que o proprietário atribui tudo de bom do que lhe acontece. Será por isso que Nice encanta quem por aqui passa? Talvez… Eu, pelo menos, senti a magia da cidade mal aqui cheguei e vou-me embora sob encantamento.

O que escondem as Ilhas Lerins

A apenas 15 minutos de barco de Cannes, Sainte Marguerite, uma das Ilhas Lérin, vive envolta na lenda do homem da máscara de ferro, que não é apenas uma personagem de Alexandre Dumas e cuja identidade continua envolta em mistério. Apesar de ser pequena, esta ilha é uma reserva natural e é fabulosa para fazer caminhadas, com a vantagem de, em simultâneo, se poder observar uma exposição, a L'And Art.

A ideia partiu da britânica Sally Ducrow, que convidou vários artistas a fazerem obras de arte exclusivamente com matéria-prima da ilha. Há árvores azuis que parecem estar a dançar, estendais de roupa feita de madeira e muito mais porque para a imaginação de um artista não há limites.

Texto: Rita Caetano