Quando chega o verão, a cidade fica ainda mais animada, por causa das muitas atividades que integram «Le Voyage à Nantes», uma iniciativa cultural que habitualmente decorre entre o início de julho e o fim de agosto. Mas quem tiver oportunidade de percorrer as suas ruas e ruelas noutras alturas também não fica dececionado. Nas últimas décadas, a terra onde nasceu o poeta e novelista Jules Verne, que em 1870 publicou o mítico «Vinte mil léguas submarinas», investiu nas artes e na cultura e posicionou-se como uma das novas coqueluches do turismo francês.

Aceitámos o convite da companhia de aviação lowcost Transavia e partimos à descoberta da cidade. Ao contrário de muitos destinos, não é preciso um mapa para descobrir as principais atrações turísticas de Nantes. Uma linha verde percorre as principais artérias da cidade, a sexta maior de França, traçando um percurso que pode ser feito na sua totalidade ou por troços. E não há obstáculo, grades, pedras ou pontes, que o interrompam.

Olha-se para o chão da Place Graslin, a praça onde ainda em outubro de 2013 existia uma rotunda, e lá está ela. Decidimos segui-la na companhia de uma guia local. Hoje, está vedada ao trânsito. Sobranceiro, o edifício do Teatro Graslin. Esta imponente construção do século XVIII está rodeada por prédios simétricos, uma tendência da época, impõe-se ao olhar. Um atalho permite chegar rapidamente à Île de Nantes, o novo pólo cultural da região.

Mas não é, para já, esse o nosso caminho. Seguimos pela Rua Crébillon, a famosa rua de lojas da cidade que até já inspirou a criação do verbo «crébillioner», que significa andar a ver montras na gíria de muitos habitantes locais. Reputada pelas suas lojas de moda e de alta joalharia, é uma artéria totalmente pedonal desde 2011. Ao longo da sua extensão de cerca de 240 metros, é impossível não reparar nos 12 pórticos de vidro criados pelo arquiteto Bérnard Barto.

Uma praça francesa com a estátua de uma grande figura histórica... portuguesa!

Vitrinas e lojas é o que não falta na Passagem Pommeraye, a versão local da famosa Galleria Vittorio Emanuele II de Milão. Só que, ao contrário da luxuosa superfície comercial italiana, esta reparte-se por três níveis, atingindo uma altura de nove metros. Nos últimos anos, a passagem que em tempos fazia a ligação entre a parte rica e a parte pobre da cidade, foi recuperada, mas manteve a sua traça original e as suas famosas estátuas. Em maio de 2015, as obras estavam já na sua reta final.

Deixamos as compras para depois e rumamos à Place Royale, onde uma deslumbrante fonte do século XIX com figuras e elementos que representam simbolicamente a urbe de Nantes, pede para ser admirada. Também desta praça desapareceram os carros nos últimos anos. Continuamos a andar e, de repente, estamos na Église de Saint Nicholas, a primeira igreja neogótica edificada em França. Mais uns passos e surge a Place du Commerce, onde surpreendentemente encontramos uma estátua do Infante D. Henrique.

A figura, que chegou a estar no Jardin des Tuilleries, em Paris, pretende homenagear a audácia de conquista dos portugueses no período dos descobrimentos. Muitos dos 50.000 estudantes que frequentam os estabelecimentos de ensino da cidade apenas o conhece como Henri, o navegador, ali imortalizado pelo escultor Franco de Souza. Mais à frente, na Île Feydeau, a casa onde nasceu Jules Verne, passa mais despercebida, apesar da placa que informa quem por lá passa.

Veja na página seguinte: O que (não) resta da antiga Veneza do oeste

O que (não) resta da antiga Veneza do oeste

No início do século XX, Nantes chegou a ser conhecida como a Veneza do oeste mas, para fazer frente ao crescente número de automóveis que começaram a circular pela cidade, as autoridades tiveram uma ideia que, na altura, lhes pareceu brilhante. Desviaram parte de um dos rios que a atravessam e preencheram o espaço que unia parte da margem a uma pequena ilha, criando uma nova alameda circulável. Os trabalhos iniciaram-se em 1926 e prolongaram-se durante 20 anos.

Ao fundo, vê-se a Tour Bretanhe, um dos edifícios mais altos de Nantes. É lá, no 32º andar, que se situa Le Nid. Um dos bares mais trendy da região, fica localizado no rooftop e deve o seu nome, o ninho, à sua decoração. A cabeça e o corpo de um pássaro, metade cegonha, metade garça-real, ocupam grande parte do espaço. Os bancos em forma de ovo, uma criação do designer Jean Jullien, conferem-lhe um ar ainda mais icónico. A vista panorâmica sobre a cidade é imperdível.

Mas isso só o comprovaremos mais tarde. Para já, seguimos para a Place du Bouffay, onde descobrimos mais uma igreja encantadora, a Église Sainte-Croix. Nas imediações, chegou a existir um castelo, entretanto transformado em prisão, mas desse tempo pouco ou nada resta. Ruas e ruelas sedutoras e serpenteantes levam-nos até ao Castelo dos Duques da Bretanha. Por fora, tem um verdadeiro ar de château mas, transposta a ponte levadiça, visto do pátio, é um verdadeiro palácio, perdendo o ar austero que se vê a partir do exterior.

Memórias do passado e criações para memória futura

Seguir a linha verde que atravessa a cidade de Nantes é ainda descobrir locais mágicos como o Jardin des Plantes e o Le Lieu Unique, uma antiga fábrica de bolachas convertida em espaço cultural, com lojas, um bar e um restaurante. As marcas no chão conduzem-nos também a monumentos imperdíveis, como a imponente Catedral de São Pedro e São Paulo (que alberga o túmulo dos duques da Bretanha) ou a coluna com a estátua de Luís XVI, uma das poucas que não foram destruídas pela fúria anti-monárquica da Revolução Francesa.

No período que se sucedeu à época das grandes descobertas portuguesas, chegaram ao porto de Lisboa mais de 338.000 escravos negros para serem vendidos, muitas vezes ao desbarato. Os portugueses iniciaram o negócio mas os franceses rapidamente os superaram. No porto de Nantes foram transaccionados, pelo menos, 550.000, como refere o Memorial da Abolição da Escravatura, inaugurado em 2012. Apesar dos protestos iniciais de muitos residentes locais, é uma das novas atrações turísticas da cidade.

Nenhuma bate, contudo, o Quartier da la Création, o vibrante bairro da criação. O encerramento dos estaleiros navais em 1997 libertou terrenos que começaram a ser aproveitados por arquitetos e designers locais para projetar edifícios modernos e futuristas, paredes-meias com instalações surpreendentes. É também aqui que se situam Les Machines de l’Île, um espaço museológico onde não faltam aves robotizadas, um carrocel de três andares repleto de monstros marinhos e o famoso elefante gigante articulado. Nunca ouviu falar dele? A linha verde leva-o lá...

Texto: Luis Batista Gonçalves com Jean-Dominique Billaud-Nautilus/LVAN (fotografia)

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