Os jardins do Palácio de Peterhof nos arredores de São Petersburgo, o Jardim Villa d'Este de Tivoli em Itália (na imagem), o Jardim de Monet em Giverny, os jardins do Generalife em Granada na vizinha Espanha, o Jardim Keukenhof a poucos quilómetros de Amesterdão, o Jardim Majorelle em Marrocos e os jardins que rodeiam o Schloss Sanssouci, o palácio de verão dos reis da Prússia, são alguns dos jardins mais belos do mundo onde a água tem um papel preponderante.

O primeiro jardim de que há registo, no entanto, figura nos desenhos do túmulo de um alto funcionário da corte de Amenhotep III, perto de Tebas, no Antigo Egito. Nele podemos ver um tanque retangular com peixes, patos e nenúfares, com árvores em volta. Água e sombra eram fundamentais nestes primeiros jardins devido às características do clima daquela região do globo, muito quente e seco.

Na Antiguidade Clássica, a água era um elemento frequentemente utilizado e disso temos testemunho no Canopus e no Teatro Marítimo da Villa Adriana, em Tivoli, em Itália. Durante a Idade Média, a água assumiu um papel mais modesto e marcava uma presença discreta nos jardins de claustro, sob forma de tanque ou fonte. Temos vários exemplos dessa tendência em mosteiros e conventos portugueses.

Foi durante o Renascimento, em Itália, que a água passou a desempenhar um papel de uma tal importância que ia largamente para além da sua função prática ou decorativa, já que passou a ser o sujeito da espetacularidade dos jardins e da importância dos seus proprietários, sendo a Villa d’Este um verdadeiro compêndio da sua utilização. Após o Renascimento, já no Barroco, pela Europa fora, sucederam-se os exemplos de utilização da água em complexos jogos e enormes canais, que ainda hoje nos encantam.

Jardins deslumbrantes de inspiração naturalista

Entre os jardins que encantam e espantam quando os visitamos figuram os que rodeiam o Palácio de Versailles em França, os de Reggia di Caserta em Itália, os da Granja de San Ildefonso, os de Chatsworth ou ainda os de Peterhof, nos arredores de São Petersburgo, na Rússia. Com o advento do jardim naturalista inglês, no século XVIII, a água passou a assumir um papel mais tranquilo e natural, sobretudo nos enormes lagos artificiais, de que foi mestre Capability Brown.

Cá em Portugal, a utilização da água sempre foi frequente nos jardins, embora com menos exuberância, porque dela temos menos reservas. Quer para fins de utilização prática, como armazenamento para rega, quer por meros motivos decorativos, alguns dos nossos jardins encontram lugar entre os mais famosos da Europa pela beleza e originalidade dos seus lagos ou tanques de água.

O espelho de água da Quinta da Bacalhoa junto à Casa de Fresco, o canal de azulejos de Queluz e o Lago dos Cavaleiros de Fronteira são belíssimos exemplos lusitanos de utilização da água no jardim. Numa escala mais pequena, se formos a ver, todas as nossas quintas de recreio dispõem de um dispositivo de água. No século XVIII, Antoine Dézallier d’Argenville preconizava na sua obra «La théorie et la pratique du jardinagem», que «as fontes, depois das plantas, são o principal ornamento dos jardins».

Isto porque a água é um riquíssimo e singular elemento decorativo. Pode sugerir-nos a frescura e a tranquilidade, se a utilizarmos numa versão de água parada, em tanque, lago ou piscina e aproveitar o reflexo que nos oferece do que lhe está próximo. Mas, se for água em movimento, também podemos usufruir do seu som, seja ele de cascata, jato ou o discreto murmúrio de uma fonte.

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O poder de transformação da água num jardim

O espetáculo da água, parada ou em movimento, tem ainda a vantagem de variar ao longo do dia, consoante a luz que lhe incide e, ao longo do ano, ao sabor do humor das estações. A água dá vida a um jardim, anima-o e complementa a paisagem da cobertura vegetal sendo que, atualmente, graças a pequenas bombas elétricas, podemos utilizá-la em circuito fechado, sem desperdício ambiental.

Podemos usá-la sem ter que recorrer a nascentes naturais ou a aumentar a nossa fatura mensal. Finalmente, a água atrai múltiplos pássaros aos jardins, oferecendo-nos um espetáculo de vida e movimento, quer quando vão matar a sede, quer quando se vão refrescar. Olho para fora da janela e vejo o meu jardim esplendoroso, a acordar para a primavera num dia de inverno sem chuva. Deve ser por isso que me relembrei destes jardins que vale (muito) a pena visitar.

Texto: Vera Nobre da Costa com Luis Batista Gonçalves (edição internet)

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