O arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles, que já foi distinguido pela Federação Internacional dos Arquitetos Paisagistas com o prémio Sir Geoffrey Jellicoe, é uma figura incontornável no que se refere à integração paisagística e à sensibilização ambiental. Segundo a associação portuguesa do setor, este prémio reconhece e consagra «a obra e as contribuições ao longo da vida que tenham tido um impacto incomparável e duradoiro no bem-estar da sociedade e do ambiente e na promoção da profissão de arquitetura Paisagista». O seu percurso não deixa margem para dúvidas.

Gonçalo Ribeiro Telles foi sempre uma pessoa à frente do seu tempo, um visionário muito preocupado com a paisagem e com o planeamento do ordenamento do território. Da sua extensa e muito rica carreira profissional podemos destacar trabalhos de grande relevância como o estabelecimento da Reserva Agrícola Nacional (RAN) e da Reserva Ecológica Nacional (REN), os jardins da sede da Fundação Calouste Gulbenkian, o Jardim Amália Rodrigues no alto do Parque Eduardo VII e o plano verde que integra uma estrutura ecológica para a cidade de Lisboa.

Também foi político, professor catedrático e é considerado, por muitos, o pai do projeto do corredor verde de Lisboa, que liga a Avenida da Liberdade a Monsanto, passando pelo Parque Eduardo VII e pelo Jardim Amália Rodrigues e que, como muitos projetos em Portugal, demorou bastante mais do que o inicialmente estimado a ser dado como terminado. Ficou concluído apenas em dezembro de 2012, cerca de 30 anos depois de ser idealizado. Em entrevista à Jardins, fala deste e de outros projetos.

Como é que define os jardins mediterrânicos?

São jardins que se desenvolveram a partir da dimensão mediterrânica de Roma. São jardins adaptados ao clima mediterrânico e com um fácies muito variável. Além do clima, o Mediterrâneo fornece fundamentalmente uma história na própria essência do jardim. Uma história que compreende os pátios, compreende as hortas e que compreende todo um sistema mediterrânico de tratamento da flora.

 Foi para si sempre uma preocupação a sustentabilidade ambiental dos jardins que foi criando?

A sustentabilidade ambiental depende do lugar, de uma forma genérica onde está o jardim, mas também das condições que o próprio jardim cria para subsistir, como seja o problema das sebes, a luz e o solo. Tudo isso é possível valorizar com o desenho do jardim. A primeira coisa é pensar para que é o jardim e o que é que se pretende obter do jardim e depois vem a escolha das plantas apropriadas.

Quando é que despertou para as questões da construção da paisagem?

A minha primeira ligação com a natureza foi ter nascido na Avenida da Liberdade que tinha uma coisa muito importante que ainda lá está. São os ulmeiros da primeira fase da avenida e os pardais que vinham pernoitar em Lisboa. Eram bandos e bandos que vinham das searas e hortas adjacentes aLisboa trazendo um chilrear imenso. Na altura, havia muitas hortas à volta da cidade para o fornecimento dos mercados e que também era motivo de recreio. Ficaram célebres no século XIX os passeios de domingo às hortas dos arredores.

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Acha que as pessoas em geral e os autarcas em particular estão mais sensibilizadas para a importância do ordenamento do território e para a sustentabilidade da paisagem ou sente que as questões económicas ainda se sobrepõem nestes temas?

O problema da interligação entre o campo e a cidade é uma questão económica. A cintura de hortas desapareceu porque os interesses e mentalidades chocam com a construção da paisagem.

Foi por isso que o corredor verde demorou 30 anos a ser concretizado?

Foi, sobretudo, um problema de atraso cultural que foi atrás dos interesses especulativos. Foi todo o sistema de expansão financeira e da economia do espaço.

Tem falado muito da relação cidade/campo que deve existir. Como acha que se consegue esta harmonia?

Esta harmonia é uma das preocupações atuais em todo o mundo, principalmente na Europa civilizada, não é só cá. Deve ser um planeamento racional, científico e feito por pessoas que percebam do assunto. O problema da expansão urbana era motivado pelo desprezo que o planeamento tinha pelo espaço rural em volta da cidade.

Foram muitos anos de uniformização como se não houvesse história com ocupação abusiva do território e degradação do solo para benefício da especulação urbana. Agora, se os planos diretores municipais forem realizados e executados por pessoas competentes, têm como principal preocupação precisamente esta relação cidade/campo.

Os jovens arquitetos paisagistas estão hoje em dia mais sensibilizados para a questão da sustentabilidade da paisagem e para a gestão racional dos recursos naturais, como o solo ou a água?

Creio que sim. O problema é que a sua ação nas câmaras municipais é, muitas vezes, condicionada pelos grandes interesses económicos.

Falando agora do jardim, também mediterrânico, mais emblemático que criou, os jardins da Gulbenkian. Os Jardins da Fundação Gulbenkian foram criados por si em conjunto com o arquiteto Viana Barreto nos anos da década de 1960, tendo sido depois renovados em 2002, com a introdução de novos percursos, espelhos de água e novas espécies. Este jardim é um pequeno oásis na cidade de Lisboa e um motivo de passeio dos lisboetas que procuram o contacto com a natureza num local muito tranquilo e harmonioso. Como é que conseguiu o efeito global dos edifícios dentro do jardim e não um jardim que envolve os edifícios?

Porque os edifícios foram implantados naquele espaço em função do projeto já existente dos arranjos exteriores e foram desenvolvidos paralelamente. Este trabalho realizado em conjunto faz toda a diferença no resultado final de uma obra desta natureza.

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No projeto dos Jardins da Fundação Gulbenkian estão mencionadas cerca de 200 espécies vegetais. Que plantas não poderiam faltar neste jardim?

Naturalmente as 200 espécies. Cada uma tem a sua importância! A biodiversidade nem é assim um excesso...

Que plantas gosta de utilizar?

Gosto sobretudo de utilizar árvores que têm uma determinada história e que têm condições para um local. Uma árvore que tem história aqui para região de Lisboa é a oliveira. Foi no Castelo de São Jorge que se iniciou a utilização das oliveiras nos jardins em Lisboa, plantas essas que foram transplantadas de olivais abandonados. Foi uma volta aos elementos tradicionais da nossa paisagem mediterrânica. Ainda estão lá essas oliveiras muito velhas.

Além dos seus jardins mais conhecidos pelo público em geral, como o corredor verde, os jardins da Gulbenkian ou o da Amália Rodrigues, que outro projeto lhe deu mais gozo criar?

Todos me deram muito gozo, mas tenho uns na Figueira da Foz, que são menos conhecidos e de que também gosto muito.

Qual o seu jardim de eleição, mediterrânico ou não, em Portugal e no estrangeiro?

Não tenho nenhum jardim de eleição. Fascinam-me todas as paisagens que tenham uma certa relação com a história, com o espaço e com o tempo presente. Desde Coimbra, o Buçaco, o Porto... Toda a bacia do Douro com os socalcos de vinha é um jardim. No sul, o montado de sobro e de azinho também formam uma paisagem magnífica e muito característica mediterrânica, que tem um expoente muito importante aqui na parte ocidental da Península Ibérica. Acho que não é necessário sair do nosso país para ver jardins bonitos. Pode haver uma expressão pontual em França com os jardins do Vale do Loire mas tem de se ver o jardim em conjunto com a sua dimensão histórica.