Nunca tivemos crianças com tantas posses e com tanta insatisfação. A constatação é de Cristina Infante Borges.

Em entrevista à Saber Viver, a hipnóloga clínica explica como é que a hipnoterapia pode ajudar os mais pequenos a enfrentar os desafios do presente com maior segurança e determinação.

Por que é que a hipnose clínica está a assumir um papel cada vez mais relevante na saúde mental e física de crianças e adolescentes?

As nossas crianças passam cada vez mais tempo sendo criadas e educadas longe da família. A grande maioria dos avós ainda se encontram na vida ativa, sem tempo disponível para assumir e auxiliar os jovens casais na tarefa de serem pais. Para além disso, o ir para fora, cá dentro está mais enraizado nos nossos jovens, através da tecnologia. O aumento exponencial das taxas de divórcio, devido à pressão social e económica em que o país se encontra, entre muitos outros fatores, faz com que a irreverência infantil e juvenil seja cada vez mais evidente.

Nunca tivemos crianças com tantas posses e com tanta insatisfação. A hipnose clínica está a assumir um papel cada vez mais relevante junto dos nossos jovens, pelo facto de ir ao encontro das suas necessidades e por lhes apresentar resultados a curto e médio prazo. Para os jovens, a hipnoterapia facilita-lhes imenso a vida, por não terem a necessidade de verbalizar factos do passado ou factos que ainda não tem maturidade para descodificar as consequências ou mais-valias, face ao comportamento adoptado.

Há que ter em atenção que, em hipnose, o paciente (criança ou jovem) é que dita as regras não quem paga. Dou um exemplo, contextualizando a situação. Uma mãe que quer que o filho tenha melhores notas na escola, uma preocupação legítima e valiosa para o futuro do seu filho. O jovem é filho de pais divorciados, tem problemas de obesidade mórbida e é constantemente vítima de bullying. A mãe nem desconfia desta situação e a questão da imagem aos seus olhos não lhe parece relevante.

Perante este cenário, inicialmente vamos trabalhar aquilo que é mais importante para o jovem. Pode ser a questão da obesidade que lhe faz mais sentido, visto isso ir aumentar a sua autoestima, fazer parar de gozarem com ele na escola ou a questão da defesa pessoal. Como sabemos, umas coisas influenciam as outras. Consequentemente, se o jovem se sentir mais calmo, tranquilo e seguro, de um modo geral, os resultados escolares também se irão manifestar de forma mais positiva.

Relativamente à sua saúde mental, o estado de hipnose, para além de ser um estado natural das crianças e dos jovens, promove-lhes um estado de foco e concentração muito grande, promove-lhes a criatividade, fazendo com que eles vejam e sintam vários cenários mentais, que o auxiliarão no processo de decisão, autonomia e
auto-responsabilização, Proporciona-lhes mais calma e tranquilidade.

Ensina-os a trabalhar com a inteligência emocional, a gerar estados de foco e concentração necessária para uma aprendizagem lectiva mais rápida e simples, a respirar melhor e, fundamentalmente, proporciona-lhes mais saúde. Deparamo-nos, muitas vezes, com patologias diagnosticadas que servem mais de estratégia mental para a vitimização ou como uma desculpa ou meio para conseguirem o que pretendem dos adultos, nomeadamente atenção, acompanhamento, carinho, amor, etc.

Quais as principais razões levam os pais a recorrerem a esta terapia?

Os pais recorrem normalmente a esta terapia aconselhados por outros pais e porque esta terapia se apresenta com resultados mais rápidos e, por sua vez mais económicos, do que outras terapias.

Os motivos são variados e abrangem problemas como défice de atenção e concentração, dificuldades de aprendizagem e gaguez.

Mas esta terapia também se aplica a situações de hiperatividade, dislexia, alterações comportamentais e de humor, depressão infantil, síndrome de abandono, síndrome de pensamento acelerado, tendência obsessiva compulsiva alimentar, entre outras, como crianças vítimas maus tratos e de abusos sexuais. No caso dos adolescentes, encontramos situações do foro sexual, depressão, dependências químicas, preparação para exames, fobias e, muito especificamente, para o tratamento da fobia de falar em público.

São as mesmas técnicas de hipnose usadas nos adultos que são aplicadas nas crianças e nos jovens? Se não, o que o que difere?

As técnicas são as mesmas, o cenário é que difere. No caso de um adulto, podemos utilizar a técnica de levar o paciente ao «lugar seguro de relaxamento». Para um adulto, isso é sinónimo, por exemplo, de se imaginar numa praia, numa montanha, num campo verdejante, etc.

A mesma técnica aplicada a uma criança poderá ser levá-la a um parque infantil, cheio de insufláveis, um lugar cheio de cor, seguro, onde ele pode brincar com os seus desenhos animados preferidos. O que pode ser diferente na aplicação das técnicas é cenário sugerido e o tempo de duração, que depende da capacidade de concentração do indivíduo.

Como se processa uma consulta com os mais pequenos? Existem muitas diferenças em comparação com as dos adultos?

Inicialmente, falamos com os pais na presença das crianças. Depois, só com a criança. Dependendo da sua idade, os pais podem acompanhar toda a sessão com a criança, caso isso não invada a sua privacidade e crie a inibição do menor. Os pais acompanham a criança ou o adolescente, explanam os seus medos em relação ao jovem. Depois, o tratamento é feito individualmente sem a presença dos pais. O procedimento é igual ao de uma consulta de psicologia.

No caso de a criança ser de tenra idade (entre 5 e os 10 anos), o jovem escolhe um dos progenitores para o acompanhar durante a terapia. A criança faz tratamento no colo do progenitor e o mesmo acompanha física e mentalmente as sugestões dadas à criança. Este procedimento acontece apenas na primeira vez e é uma estratégia para estabelecer rapport com a criança. Dar-lhe-á confiança no processo. Posteriormente, muitos agradecem que os pais saiam.

Como pode calcular, o termo hipnose é muito complexo para uma criança de 5 ou 6 anos. Normalmente,
digo-lhes que sou uma construtora de sonhos. Digo-lhe que se deve colocar numa posição muito confortável, fechar os olhos e apenas ouvir com muita atenção o que lhe vou dizer. Eu vou ajudá-la a construir um sonho bom, com fadas e super-heróis mágico. A criança deve imaginar tudo o que eu disser.

A criança é informada que ninguém lhe vai tocar. Tomar esse tipo de liberdade ou procedimento com uma criança pode ser traumático. Caso o terapeuta considere útil fazer uma indução através do toque, os pais devem estar presentes. Nessa situação, a criança está de olhos abertos e ser-lhe-á muito bem explicado o fundamento de tal técnica.

Qual é, geralmente, a taxa de sucesso associada a estas terapias? Quais são as áreas que garantem resultados mais efetivos?

A terapia apoia-se numa taxa de sucesso superior a 75%, nas mais diversas áreas, com apenas três ou quatro sessões.

Por que é que a atividade da hipnose clínica ainda não está regulamentada em Portugal?

A hipnose clínica em Portugal está agora a dar os seus primeiros passos, a apresentar-se ao público em geral e aos seus companheiros da área clínica, como sendo uma especialidade clínica complementar e independente. Como hipnóloga clínica, considero importante que a hipnose clínica não seja confundida com algo isotérico ou holístico.

Como é que os pais podem verificar as credenciais de um hipnólogo clínico? Existe alguma forma de o poderem fazer?

Para os pais poderem verificar as credenciais poderão recorrer às escolas mais reconhecidas da especialidade, como é o caso da Associação Internacional de Hipnose Clinica e Experimental de Portugal, do London College Of Clinical Hipnosis, da Faculdade de Medicina de Lisboa e Porto e da Associação Portuguesa de Hipnose Clinica e Experimental, para solicitar a recomendação e o contacto de um profissional mais perto de si.

Através dessas entidades, podem ainda solicitar o contacto de outros pais que possam testemunhar o trabalho do profissional e/ou solicitar uma reunião com o profissional antes de marcar a sessão e levar o jovem, de forma a entender todo o procedimento.

Texto: Filipa Basílio da Silva

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