Considera que a falta de comunicação e de diálogo é o principal motivo que leva ao fim de muitos casamentos?

Ana Ferreira - É uma pergunta ótima. A questão da comunicação é fundamental. Um bom diálogo e uma comunicação aberta e simples é fundamental e abre sempre oportunidade para que o casal se possa acrescentar, possa construir e possa colaborar no sentido conjunto. Nós enviamos as mensagens ao outro e o outro vai recebendo e acolhendo. E quão mais claras, simples e honestas [as mensagens forem] mais capacidade para o casal tem de se construir e ter um significado conjunto que seja positivo para ambos.

Hugo Nunes - Sem dúvida. Tanto a falta de comunicação entre os elementos de casal, como a falta comunicação consigo próprio. É importante comunicar necessidades, desejos e expectativas. É importante evitar más interpretações e fomentar a clareza da mensagem para se evitarem situações de escalada de reatividade, que levam à separação, ao divórcio e ao conflito.

E por que motivo é que acha que muitas vezes os casais não vocalizam, não expressam ao parceiro determinados desejos e emoções?

A.F. - Isso pode ter vários significados. Muitas vezes tem a ver principalmente com as figuras de vinculação primária. As primeiras vezes que nós nos relacionamos com o mundo temos uma figura facilitadora, que normalmente é a figura da mãe, e isso marca o nosso estilo de vinculação. Vamos repetindo porque nos-é confortável, é aquilo que nós conhecemos e depois vamos acrescentando e construindo consoante as nossas vivências e até mesmo em casal. A nossa bagagem social e psicológica também influencia muito a forma como estamos e nos posicionamos na relação. Se eu me sentir bem comigo mesma, sentir segura e confiante a forma como eu vou ver um problema entre casal vai ser muito diferente do que se eu normalmente me sentir mais ansiosa ou mais preocupada com o que o outro está a pensar. Aquilo que nós sentimos individualmente também influencia muito a postura que vamos ter na relação e um influencia o outro. Se um é mais rejeitante o outro vai ficar mais calado, se um é mais inseguro o outro vai ficar mais alerta... Em relação acabam por ficar ainda mais salientes estas questões individuais e os padrões relacionais variam bastante, portanto há uma multiplicidade de razões para as pessoas deixarem de comunicar de uma forma afetiva, de uma forma empática. Temos sempre escolha de mudarmos isso, mas às vezes o tempo, a relação em si, o histórico e a forma como nos vamos relacionando com aquela pessoa vai-nos deixando mais à vontade para irmos comunicando ou não. Podem colocar-se conflitos no casal que talvez nunca serão resolvidos, mas que podem e devem ser conversados. Quando tal não é possível, a terapia de casal pode facilitar o processo.

H. N. - Por um lado, o receio do efeito no outro (mágoa, reatividade, tristeza, irritação), por outro, o sentir-se que não se será entendido (mensagem pouco clara ou ideia da incapacidade do recetor de a entender e valorizar). Entre o que se fala e o que se escuta vai uma grande diferença. Se dividirmos a comunicação em partes, ela é como uma relação composta por um emissor (eu), um recetor (tu) e a mensagem (nós). Associada a esta última está o “ruído”, fatores individuais que perturbam a transmissão e o entendimento da mensagem. Contudo, não é só o que se diz que compõe a mensagem, o próprio silêncio também funciona como ruído. O espaço que o silêncio deixa é preenchido pelo outro da forma que ele quiser, mesmo que não corresponda de todo à realidade.

Os casais surgem em terapia com objetivos diferentes: em situações de crises agudas, desencadeadas por situações recentes, ou crónicas, que se arrastam há vários anos

Quais os dilemas mais recorrentes nos seus pacientes?

A.F. - Normalmente quando os casais surgem em terapia já existe um conflito e já se esgotaram os seus recursos para o tentar resolver. E existem muitas questões a nível dos limites com os outros - do casal com as famílias de origem, com os sogros ou com as sogras -, em que um dos membros do casal se questiona muitas vezes do papel que tem na interação com a família de origem do outro. E isto é tão mais saliente quanto passam pelas crises naturais de desenvolvimento da família, por exemplo no nascimento do primeiro bebé. Como isto se torna ainda mais saliente, os limites tornam-se um bocadinho mais confusos e há que os estabelecer.

H. N. - Os casais surgem em terapia com objetivos diferentes: em situações de crises agudas, desencadeadas por situações recentes, ou crónicas, que se arrastam há vários anos. Este desgaste ao longo do tempo costuma pautar-se por padrões de crítica, desdém, reatividade e silêncio, os chamados 'Quatro Cavaleiros do Apocalipse' em Terapia Familiar. O silêncio é quase que um atirar a toalha ao chão, uma desistência, um culminar de esgotamento de estratégias pessoais para lidar com o conflito permanente. Frequentemente os casais vêm nesta última etapa à terapia. Nalguns casos é possível retomar a comunicação, mas nem sempre isso é possível.

E a terapia de casal funciona sempre? Ou há situações em que já não há nada a fazer?

A.F. - Acho que funciona sempre, pode é não funcionar mediante a expectativa inicial do casal. Eu sou fã deste tipo de terapia. Agora a questão é que há situações em que o casal beneficiaria de um apoio individual. Porque há situações em que a relação chega mesmo a um grande bloqueio num conflito, onde grandes discussões acabam por ser tóxicas e destrutivas para ambos. Então aí, individualmente, tem que se explorar o significado daquela relação para aquela pessoa, o que é que significa e só depois entrar num processo de terapia de casal.

H. N. - Depende do padrão do casal e da capacidade de cada um deles, individualmente, de trabalhar as suas próprias dificuldades internas, colocar limites e expressar necessidades. Por vezes a expectativa com que se vai para terapia não está muito próxima da realidade. É importante esclarecer a expectativa de cada um e entender como podemos chegar a um meio termo. Existem situações em que a terapia é um pedido individual (o outro vem literalmente arrastado) e outras em que ambos estão motivados para uma eventual mudança. É importante valorizar a perspetiva de cada um, cada um tem a sua história individual, o seu padrão de comportamento, a sua interpretação e uma necessidade emocional que é importante ser ouvida. É necessário clarificar padrões de resposta, de reatividade e identificar as partes frágeis de cada um, assim como entender a responsabilidade de cada um para a repetição dos padrões destrutivos na relação. Se houver essa disponibilidade, de identificar padrões de comportamento e resposta, de entender a responsabilização de cada um na sua manutenção, assim como a disponibilidade mental e afetiva para “encontrar soluções”, a terapia pode fazer diferença.

Algo muito comum [nos casais que fazem terapia] é a esperança e a vontade de se reencontrarem seja a que nível for

 Em relação aos seus pacientes, estamos a falar de casais de todas as idades e em várias fases de relacionamento? Que tipo de casais é que procuram este tipo de terapia?

A.F. - Todos os casais podem procurar terapia, não me parece que exista um tipo particular. Há vários problemas em diferentes fases da vida, normalmente no decorrer de uma crise, numa fase de maior ajuste face a uma mudança na vida do casal. Já acompanhei casais com idade avançada, em relação há 20 e tal anos, em que existe infidelidade e ambos querem atribuir um significado aquilo que se passou e compreender como é que a relação vai avançar depois de tal crise.

H. N. - É variável, mas se tivesse que fazer uma generalização, diria que na prática surgem casais dos 25 aos 60 anos, uma faixa etária bastante diversa e em fases de relacionamentos muito díspares. Por exemplo há um casal muito recente que estava há um ano junto e depois casais que estão juntos há 20, 30 anos.

Ainda que com as suas diferenças, é capaz de identificar algo comum a todos os casais que procuram este tipo de acompanhamento?

A.F. - Algo muito comum é a esperança e a vontade de se reencontrarem seja a que nível for. Às vezes até mesmo só para questões de parentalidade, para acertarem ali as energias entre um e outro sobre como criar os filhos de uma forma positiva. No fundo, existe uma grande vontade de reencontro nos casais. Se já chegaram ao fim dos seus próprios recursos para resolver um problema, vão procurar ajuda porque é sempre positivo olhar a relação de uma forma diferente e assim facilitar o processo para todos.

H. N. - Sem dúvida que é a falta de comunicação, assim como a dificuldade de estabelecer limites entre o que é a individualidade de cada um e o seu papel como membro do casal. Atualmente surgem também muitos temas relacionados com as redes sociais e aplicações, uma realidade que veio ter um impacto enorme no tipo e na forma como as relações são vividas, nomeadamente ligadas com partes de insegurança, mentira, traições, relações abertas, etc.... São situações que há 25/30 anos não surgiam, porque não existia a facilidade de entrar em contacto com outras pessoas, cada um vivia na sua tribo. A própria noção de casal - nos últimos 40/50 anos - tem sofrido uma modificação muito grande. Antes, um casal era considerado um conjunto de duas peças que se juntavam e que só se separavam após a morte, fossem felizes ou não. O amor era menos importante. Neste momento, o entendimento de que é possível nos separarmos e que isso é socialmente aceite, veio trazer uma oportunidade, uma escolha, uma liberdade para aquelas pessoas que, de facto, não se sentem felizes.

Existe um entendimento errado de que é possível controlar de forma efetiva o outro. A ideia de que é possível controlar tudo em nós e nos outros, como é o caso dos instintos, pensamentos e emoções

E quando uma pessoa quer trair faz na mesma. Há sempre outras formas de o fazer...

H. N. - Sem dúvida. Existe um entendimento errado de que é possível controlar de forma efetiva o outro. A ideia de que é possível controlar tudo em nós e nos outros, como é o caso dos instintos, pensamentos e emoções. É importante esclarecer esta diferença entre o que nós pensamos e o que nós fazemos - olharmos para alguém na rua e sentirmos que a pessoa eventualmente é sexualmente ou fisicamente interessante - e conseguirmos estabelecer a diferença entre o que é o pensamento e o que é a ação é um tema importante a trabalhar. Pensar e sentir não é agir e fazer. É importante integrar a ideia de que não é por eu pensar que alguém é atraente que eu estou a trair o meu companheiro. Isso é ser-se humano. O que é que é a traição? Como é entendido pelo casal? Qual a fantasia e receio de base? É importante isso ser discutido.

Considera que existe estigma em relação à terapia de casal?

A.F. - Sim, mas acho que é um estigma ao nível das doenças psicológicas no geral, nomeadamente do recurso à ajuda profissional. É como se fosse um rótulo: quem procura ajuda desta forma é porque é incapaz e muitas vezes não é isso. Todos nós passamos, pelo menos uma vez na vida, por questões mais difíceis de ajustar ou solucionar, e assim, torna-se fundamental aceder ao apoio na comunidade, principalmente o apoio especializado nas áreas de maior bloqueio. Existem casais que procuram a terapia até numa perspetiva mais preventiva, de antecipar algumas dificuldades que já surgiram no passado e que podem surgir novamente, então querem rever e ter uma estrutura diferente. Em terapia de casal querem tem um espaço privilegiado para olhar a relação, não só um para o outro, mas para a relação em si e torná-la proveitosa, com qualidade para os dois.

Pode a crise conjugal salvar um casamento e ser o início de uma nova página para muitos casais?

H. N. - É uma pergunta muito pertinente porque muitas das vezes existe a fantasia de que após a terapia as coisas vão voltar a ser como antes e isso é, de facto, uma fantasia, uma expectativa errada e distorcida da realidade. As coisas nunca vão voltar a ser como antes e eu diria que ainda bem. É importante aproveitar estes conflitos, estes desajustes de comunicação para transformar aquilo que, eventualmente, possa ser negativo ou que possa ser motivo de conflito, para algo melhor. Não é tanto voltar atrás a uma época de enamoramento e de paixão, onde só se viam as qualidades, ignoravam os “defeitos” (as idiossincrasias de cada um), as diferenças. Mas sim usar essas diferenças, para transformar, para crescer. Porque nós aprendemos com a diferença. Normalmente os parceiros de um casal encontram-se em extremos de necessidades afetivas e racionais opostas e isso faz parte, podendo ser usado como processo para o crescimento pessoal e conjunto.

A.F. - Sim. Quando o casal chega a um nível de exaustão e desgaste naturalmente que vai sentir que é o fim, mas muitas vezes até pode não ser o fim e a crise pode surgir para acrescentar à relação. Normalmente um casal tem em si próprio os recursos para lidar com as crises naturais que surgem, mas a questão é quando já não existe reparação ou quando a reparação é insuficiente para o obstáculo que encontraram. Quando existem muitos silêncios é porque já está a ser muito difícil para o casal se reparar a si mesmo, um pode encarar o silêncio do outro como uma grande agressão e então acaba por sentir que é o fim, que já não existe voltar a dar, que qualquer coisa que se que fale já vai ser negativo. E quando o casal vem à terapia tem a oportunidade de ver o reverso: o que é que o silêncio quer dizer, porque é impossível não comunicar.

Existem casais que procuram a terapia até numa perspetiva mais preventiva, de antecipar algumas dificuldades que já surgiram no passado e que podem surgir novamente

Aliás a linguagem não verbal também é uma forma de comunicação...

A.F. - Exatamente e, muitas vezes fala muito mais do que muitas palavras. É impossível não comunicar. Às vezes quando estamos emocionalmente envolvidos podemos ficar atrapalhados no raciocínio e acabamos por dizer coisas que não são bem o que queremos dizer. Por exemplo: o silêncio é indicativo de muitos não ditos ou temas que o casal possa ter maior dificuldade em falar. O evitar olhar o outro nos olhos, a procura da mão do outro ou o distanciamento físico podem ser manifestações corporais na linguagem não verbal num casal, e isso vem salientar os não ditos, os mal entendidos, ou por vezes, o “não sei como explicar isto”. É preciso pensar em como é que estas crises se refletem na relação, e o que é que a linguagem não verbal vem salientar. As crises são normais, todos nós passamos por elas, seja individualmente ou em casal. Pode ser muito interessante pensar no que se classifica como crise? O que seria difícil de expressar ao outro durante uma fase menos simples? Pensar como é que se encara a crise? Qual é a flexibilidade que existe no casal para se adaptar a uma nova circunstância? A criatividade é muito importante e quão mais próximo o casal está, mais facilidade pode ter em comunicar, de arranjar novas soluções, de experimentar... Incluíndo conhecerem-se melhor, na forma como os seus próprios corpos expressam o que por vezes se torna difícil de dizer em palavras ao outro.

Para grande parte das pessoas amar é muitas vezes sinónimo de exclusividade e de monogamia. Considera errado que estes dois conceitos andem de mãos dadas?

H. N. - Se calhar não me vou colocar na posição de dizer que é errado ou não. Eu diria que é importante perceber o que é que faz sentido para cada elemento individual e para o casal em si. Tenho casais em terapia para quem as relações abertas funcionam, tenho casais que experimentaram ter uma relação aberta (convidaram alguém para se juntar esporadicamente para uma relação sexual a três ou a quatro), mas que a experiência não correu tão bem e decidiram que era preferível investirem apenas um no outro. O que eu diria é que é importante que isso seja motivo de comunicação. É importante dizer 'Olha eu tenho sentido esta necessidade, tenho pensado nisto. O que é que tu pensas? Sentir-te-ias confortável com esta hipótese?'. Ou seja, tornar isso um tema e não um tabu, uma forma de intimidade, uma forma de estabelecer contacto e de perceber o que é que faz sentido ao outro e perceber, consoante a resposta, se é esse o tipo de relação que se quer.

 Para uns a traição é uma coisa considerada imperdoável e que leva à rutura. Para outros casais a infidelidade não tem de levar necessariamente ao divórcio ou à rutura, correto?

H. N. - Correto. Não existe regra. Aliás existem muitos pacientes que afirmam categoricamente que não aceitariam qualquer situação de traição e que, por motivos vários, quando essa situação ocorre, acabam por integrar isso na sua vida de casal e usar esse episódio como reforço de necessidades e limites. Enquanto outros que afirmam que, eventualmente, até teriam capacidade para lidar com isso e não o conseguem fazer. A infidelidade é o sinal de uma necessidade não falada, da falta de comunicação, do isolamento dos elementos do casal, de partes de cada um que não estão a ser ouvidas ou vividas em casal. Por essa razão é importante ter em conta os padrões individuais e familiares, aquilo que é trazido como experiência individual e histórica de cada um para a relação. Perceber o que se quer naquele relacionamento. É importante que se possa desconstruir a ideia errada e romantizada, que fomenta algumas traições, de que quando duas pessoas se unem, os dois passam a ser um só. Isso sim é o precipício para muitas tragédias. Um casal é composto por três pessoas: o eu, o tu e o nós. É importante que cada um possa trazer oxigénio para o casal porque senão sufocam. Sufocam-se a si próprios enquanto indivíduos e depois a si, enquanto casal.

A.F. - Exatamente. Às vezes até é um afrodisíaco no sentido em que coloca a fantasia novamente no campo sexual da relação. Com o avançar do tempo, as rotinas e a vida no geral, as relações acabam por entrar num modo automático... Não gosto de dizer isto, mas é quase como monogamia versus monotonia, e o erotismo é muito averso à rotina e ao que é aborrecido. Então é exatamente por aí que a traição às vezes acaba por apimentar as relações. Por outro lado, se nós formos mais inseguros, a traição pode ser um grande abalo à autoestima da relação em si e ambos ficarem impactados negativamente e ser mais difícil de tolerar ou de aceitar. Não quer dizer que seja o fim, mas de facto depois coloca um grande obstáculo para a comunicação e para a interação saudável entre os dois.

Muitas das vezes existe a fantasia de que após a terapia as coisas vão voltar a ser como antes e isso é uma fantasia, uma expectativa errada e distorcida da realidade

 A traição nem sempre é indicador de uma relação infeliz, pois não? Os casais que se sentem muito satisfeitos na relação também traem?

A.F. - Sim. Isso passa muito porque o que é a traição para cada relação: para uns pode ser a traição emocional, para outros pode ser a traição física e isso tem muito que ver com o conceito de monogamia. Culturalmente somos empurrados para um conceito de relação, que é a relação a dois. E quando tal não acontece, quando nós procuramos proximidade física, sexual ou emocional com outros, pode existir o sentimento de culpa. Às vezes, só a ideia de sentirmos atração por uma pessoa fora da relação pode ser sentida como uma traição. Há quem entenda a traição, a infidelidade ou o conceito de relação poliamorosa/poligama como difícil de compreender e como algo perturbador do seu equilíbrio, incluindo à sua própria autoestimam e isso ser válido. Não crescemos com as mesmas perspectivas e experiências de vida, e por isso, há espaço para encaixe de outras formas de estar, de pensar a vida e a relação, desde que isto seja aceite e compreendido. Se for um tema falado entre os membros do casal e se for algo consentido entre ambos já não se coloca a questão da traição. A procura de proximidade com outros é algo natural, mesmo em diferentes esferas, como a profissional, social e amorosa. Mesmo em casais que estão satisfeitos a vários níveis da relação, a procura de proximidade com outros pode surgir. Nem sempre é simples falarmos dos nossos próprios limites pessoais e relacionais, mas se for conversado de forma empática e se, ambos estiverem ok com isso, porque não? Acho que, enquanto sociedade, já vamos estando mais informados e atentos a outras formas de expressarmos o nosso eu e acrescentar à nossa relação a dois esta tolerância e atenção às necessidades individuais, acolhendo a necessidade do casal de liberdade e autonomia.

H. N. - Se nos apegarmos ao conceito de felicidade e a entendermos como um todo, algo que quando se tem não falta nada, então eu diria que numa relação feliz não existe traição. Contudo, não existe algo que seja “a” felicidade. A felicidade é composta por várias partes e por pequenos momentos. Podemos pensar que, como seres humanos, temos dentro de nós pensamentos e emoções contraditórias em relação às mesmas coisas. Partes de nós que gostam de umas características e outras partes de nós que não gostam de outras características da mesma pessoa. Uma parte de nós que pode querer e ao mesmo tempo não querer a mesma coisa, a mesma atividade ou alguém. A experiência humana de amar e odiar a mesma pessoa. Numa relação, cada elemento do casal pode ser muito feliz com um pilar importante como o companheirismo, a amizade, a capacidade para criar projetos em conjunto, mas mesmo assim ser profundamente infeliz na sua relação sexual com o seu companheiro/a. E podemos pensar que, nalguns casos, essa felicidade específica é procurada noutros parceiros, fora do casal. E isso, para um dos elementos do casal, pode ser sentido e vivido como possível. Pode parecer contraditório, se tivermos a noção de felicidade enquanto um bloco conjunto que possui todas as qualidades. Contudo, nós seres humanos temos muitas partes da nossa personalidade, e é importante nomeá-las, entendê-las e perceber se permitem aquela relação especifica, com as partes da personalidade, das necessidades do outro elemento do casal. É importante perceber os limites e o que cada um pretende da relação, para partirem para este projeto com os mesmos ideais.

Nós sabemos que as relações amorosas não são um estado permanente de felicidade. A discussão é um componente importante em qualquer dinâmica relacional?

A.F. - Se por comunicação entendermos o comunicar, o falar, sim sem dúvida. Há casais que discutem muito sobre tudo e mais alguma coisa e são muito felizes. A discussão é uma constante ligação, é vida. Ao estarmos a argumentar sobre alguma coisa que nós gostamos ou que não gostamos, estamos a manter a ligação com a outra pessoa e estamos a criar outro espaço, que é falar sobre a discussão. ‘Como é que nós falamos? Porque é que falamos assim?’ Isso são aspetos muito importantes. E depois há as relações não construtivas, que são mais destrutivas e que têm outros aspetos que podem conduzir a um desgaste maior na relação.

H. N. - Eu diria que sim. Uma discussão construtiva é uma discussão onde se percebe o lado do outro, onde existe espaço para partilhar o nosso e onde se procura encontrar algum entendimento conjunto. Mas nem sempre é possível, mesmo quando estamos atentos a isso. Uma discussão é também uma oportunidade de perceber que cada um tem o seu ponto de vista e está tudo bem, faz parte. São dois seres humanos diferentes e não precisam de concordar sempre. Uma discussão pode criar pontos de ligação e pode também ensinar mais ao outro o que é que um e outro pensa, sente, quer. Um e um são dois, não são um só. São duas pessoas que têm direito a terem opiniões diferentes mesmo estando juntas. E está tudo bem.

 É importante que se possa desconstruir a ideia errada e romantizada, que fomenta algumas traições, de que quando duas pessoas se unem, os dois passam a ser um só

Há barreiras nas discussões? O que considera serem erros condenáveis numa troca de argumentos entre casal?

A.F. - Acho que é uma excelente pergunta porque estamos a falar de limites pessoais. Quando na relação quando existe um limite pessoal que foi transposto, seja pela ofensa, pelo desrespeito e às vezes até pelo desprezo e pela crítica constante, isto coloca o outro numa situação de grande fragilidade e até de isolamento. Está a abandonar o outro a críticas que não têm nada de colaborativo nem de construtivo. Nas relações existem crises e situações que são desagradáveis, no entanto se existir empatia e respeito pelo outro e pela pessoa que o outro é, a outra pessoa pode querer manter-se em relação e pode ser construtivo pois existe o espaço da relação que é positivo para si enquanto pessoa. E, falando de limites intransponíveis, podemos acrescentar não só a ofensa, como a violência psicológica, emocional e o abuso sob alguma forma ou conteúdo. Ninguém merece agressão na relação.

Um momento interessante da série prende-se com a personagem Mira (Jessica Chastain), que apenas em momentos de desespero e críticos demonstra interesse em reatar a relação e não avançar com o divórcio. Este é um padrão comum?

A.F. - Sim. O fim de uma relação é sempre muito difícil para ambos, seja para quem está a deixar seja para quem está a ser deixado. Há situações em que nós enfrentamos o fim de um emprego ou a morte de um ente significativo e em que nos sentimos mais vulneráveis ou frágeis e, mesmo que a relação não seja positiva para nós, vamos voltar para aquilo que nos é confortável porque já não estamos a conseguir lidar com tamanha privação. No geral é muito difícil lidar com situações destas. Então questionamos: 'E se eu voltar com aquela pessoa como é que vai ser? Se calhar é melhor do que estar a lidar com isto.' Na série até se via que ambos não queriam desistir, mas depois o marido ou a mulher dizia 'Não, vamos terminar que é melhor’. Na relação também temos os nossos mecanismos de compensação face a determinadas situações mais desafiantes. E, face a interações mais complexas, a tendência é procurar o conforto, o seguro, o habitual, mesmo que seja no seio de uma relação em que já sabemos termos esgotado os recursos da mesma na superação de algum desafio.

H. N. - Para ir ao encontro dessa pergunta é importante pensarmos porque é que estamos com alguém. É importante perceber o que é que o outro significa para nós. O outro é uma pessoa real, mas também é um símbolo, que evoca algo em nós. Num casal, como o da série, eles representam algo um para outro. Recordo-me de um episódio em que ela dizia, num momento desabafo, 'Eu tenho que sair agora, porque se não sair agora, não sou capaz de o fazer depois', ao se desligar da sua parte dependente. É preciso tentar perceber o que é que o outro significa para si próprio: se é amor, se é afeto, se é dependência, estabilidade, segurança, sexo... Encontram-se muitas situações em que um casal está junto pela sensação de estabilidade e segurança e é só 'Eu preciso de um apoio e quem me dá o apoio és tu'. Podemos ver estas partes opostas que se pretendem completar pela diferença: um lado muito emocional dela e um lado muito racional dele. E é muito comum, em terapia de casal, vermos que existem muitos comportamentos que são um extremo um do outro. É quase como se um pudesse ensinar o seu extremo ao outro. Por isso, de alguma forma, independentemente do grau de afeto que os protagonistas possam eventualmente ter sentido no início, existe também uma função que cada um deles acaba por ir procurar no outro. Viver em casal é também uma oportunidade de crescimento, em relação, um com o outro. Um pode ensinar ao outro a sua maior qualidade e trabalhar o seu maior defeito. A emoção ensina ao racional que o mundo tem várias cores, tem vida, tem criatividade e espontaneidade fora da rigidez conhecida. O racional ensina a emoção ao nomeá-la, dar-lhe nome, perceber que pode ser sentida com contenção, limites e de forma organizada.

Culturalmente somos empurrados para um conceito de relação, que é a relação a dois. E quando tal não acontece, quando nós procuramos proximidade física, sexual ou emocional com outros, pode existir o sentimento de culpa

Tal como na série, considera que este processo de desvinculação pode ser particularmente difícil em casos de relações longas e de casais que estiveram juntos muitos anos?

A.F. - É difícil, mas às vezes até é porque já existem tantos exemplos que a ligação não funcionou bem - que não existia flexibilidade ou empatia - em que, de facto, a pessoa já se sente um pouco mais segura para terminar a relação. Mas no geral é sempre difícil terminar uma relação até mesmo para pessoas que são muito confiantes e que têm uma boa autoestima, porque implica um luto. Estávamos numa relação e agora deixamos de estar com aquela pessoa, e pensamos sempre no quão bom foi quando a conhecemos. A procura de significado daquela relação, e o significado do seu fim, implica um processo mais ou menos longo, consoante a posição da pessoa perante a mudança inevitável no fim de um relacionamento. Aqui não se aplica a questões de violência, em que a relação não se coloca na sua posição mais saudável.

H. N. - Sim, sem dúvida e dependendo da fase de vida em que os casais se juntam. Por exemplo, no caso deles, crescem juntos, por isso é quase como se os seus pilares, os pilares de quem eles são como adultos, como pessoas, também estão ligados a esta outra pessoa. É natural que haja uma ligação para além do afeto amoroso. As relações mudam, evoluem noutros sentidos. É uma ligação histórica porque cresceram os dois juntos, aprenderam as coisas um com o outro. Por isso, é natural que nestes casais com relações que começaram num período tão inicial da sua vida adulta enquanto seres humanos, que o vínculo amoroso, depois de uma separação, se transforme noutra coisa, noutro tipo de relação, numa relação de uma amizade forte. Muitas vezes vemos isso em consulta, estas antigas relações amorosas que evoluem para amizades, sendo incluídos no dia a dia nas novas relações como pessoas da família. Uma família afetiva e histórica, do passado e, por isso mesmo, que permitiram construir o momento presente.

Costumamos ouvir muitas vezes ‘O amor vence tudo’. Mas será que o amor chega para manter uma relação?

A.F. - No seu conceito geral, do amor, da fantasia, do grande afeto que existe um pelo outro pode não ser suficiente. Porquê? Porque os estilos de vinculação têm muito que ver com a forma como a pessoa se coloca na relação. Portanto até posso amar muito o outro, mas se eu não consigo estar na relação porque por qualquer coisa que aconteça eu vou querer fugir, o outro pode-se colocar numa situação muito insegura e então a relação pode-se tornar tóxica nesse sentido. Portanto acaba por ser muito difícil manter uma relação e até pode ser destrutiva. O afecto pertinente num casal pode não ser suficiente na interacção e na construção de um significado a dois da relação, o que retira estrutura, liberdade, criatividade, flexibilidade ao espaço do casal.

H. N. - Não. O amor não chega. Essa é outra idealização que surge muito em consulta. De facto, o amor não é suficiente e acontecem situações em que uma relação afetiva, que inicialmente pode ser vivida de forma tranquila e prazerosa, se torna numa relação tóxica, numa relação de dependência, numa relação que sufoca os dois, numa relação que não permite a diferença, que não permite a liberdade, que não permite o crescimento. Pode haver amor, pode haver afeto por alguém, mas nem sempre o amor é suficiente quando impede os dois de crescer enquanto pessoas de forma saudável.

Uma discussão construtiva é uma discussão onde se percebe o lado do outro, onde existe espaço para partilhar o nosso e onde se procura encontrar algum entendimento conjunto

Existem sinais de desgaste a que os casais devem estar atentos?

A.F. - O silêncio, mas não é um silêncio qualquer. É aquele silêncio em que nós sentimos que já há um desistir, um já não quero saber. O desprezo e a crítica constante, no sentido mais destrutivo, normalmente são sinais de grande desgaste. Quer dizer que as questões ou os problemas que se levantaram ao longo da relação já não estão a ser resolvidos ou lidados há muito tempo. Então já dão lugar à não relação: ao distanciamento entre ambos.

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H. N. - É importante que em terapia de casal possam haver momentos daquilo que chamamos “psico-educação”, ou seja, trazer a informação acerca das diferentes fases de um relacionamento e do desgaste do mesmo. Uma das formas que isso pode ser feito é mencionando os “4 Cavaleiros do Apocalipse”, uma forma simbólica de fatores importantes a ter em atenção, indícios do desmoronamento da relação. Entre eles, a “crítica” permanente, a crítica que desvaloriza o outro, que não dá espaço para que o outro se possa expressar e que impede muitas vezes a comunicação. É um tipo de padrão que leva a pensamentos como 'Eu não vou dizer porque se eu disser ele ou ela vai-me criticar'. A crítica gera tensão interna e muitas vezes o que acontece é que em vez de comunicarem, agridem-se. Ou seja, não partem de um sítio de calma, tranquilidade e de clareza na sua comunicação, mas partem de um sítio de reatividade e quando partimos de um sítio de reatividade, o outro obrigatoriamente vai-se defender. Depois vem o “Sarcasmo e o Cinismo”, uma desvalorização do que o outro diz. Recordo-me que em terapia um dos pacientes estava a partilhar algo nitidamente triste e eu legendei o afeto: 'Ok. Parece-me que partilhar isso a faz emocionar, a deixa triste0. O outro elemento do casal desvalorizou, disse que não era tristeza, era apenas indução do que eu estava a dizer, que se estava a fazer de vítima. Ou seja, desvalorizar o sentimento e isso em consulta, infelizmente, acontece bastante. Depois, o terceiro cavaleiro, o “Estar à defensiva”, que é ouvir tudo aquilo que o outro diz como um ataque. Por exemplo 'Magoaste-me quando disseste isto, quando te comportaste desta forma senti-me triste, senti-me rejeitada', seguida da resposta 'Mas tu também fazes pior. Se tu fazes eu também posso'. Ruídos que acabam por cortar a comunicação, impedindo solução deste conflito. E depois uma última etapa, que acontecia também na série, o último cavaleiro, que é o deixar de dar resposta, o “Silêncio”, que é de facto dos últimos pontos e o mais grave. O silêncio demonstra que já não há vontade de investir e quando deixa de haver vontade de investir, a mudança torna-se impossível. Porque nós só podemos mudar se trouxermos novos ingredientes. Por isso o convite é sempre tentar encontrar outras estratégias que possam funcionar melhor.

Que tipo de estratégias são essas?

H. N. - Conhecer os padrões de comunicação do casal, saber os gatilhos emocionais desses padrões, tentar fazer diferente. Assim como aprender a colocar limites, verbalizar necessidades e encontrar pontos de ligação. Estabelecer limites ajuda também a treinar o outro. Surge talvez mais em pacientes do sexo feminino do que no sexo masculino, mas não exclusivamente, partilhas do tipo: 'Eu estou a investir mais do que tu. Sempre que tu precisas eu ajudo-te, eu estou lá, estou presente, estou a apoiar-te. Quando é ao contrário tu não estás'. O que acontece muitas vezes é este treino inconsciente e automático. Tenho muitos pacientes que treinam o companheiro ou companheira a não pedir, a não demostrar. Quando eu faço tudo pelo outro, não deixo espaço para o outro fazer por mim e ele habitua-se. Isto gera muita frustração, principalmente quando aliada à expectativa de que o outro sabe o meu pensamento. Este adivinhar de pensamento é uma distorção cognitiva, uma interpretação do mundo e do outro que nos faz sentir e agir de acordo com a mesma. É uma percepção errada porque, de facto, o outro não sabe o que nós pensamos, a não ser que lhe expliquemos. Por isso estabelecer limites, dizer o que é que nós pretendemos, até onde é que nós podemos ir, até onde é que nós deixamos, o que é que é saudável para nós, o que é que nos deixa tristes, o que é que nos deixa magoados... Tudo isto é importante que seja dito, caso contrário o outro não sabe.

O fim de uma relação é sempre muito difícil para ambos, seja para quem está a deixar seja para quem está a ser deixado

Lembra-se de algum exemplo em concreto?

H.H. - Uma história real e muito curtinha. Um casal em que ele, todos os dias sem exceção, acordava mais cedo para preparar o almoço e a sobremesa para a esposa. Ele não queria que ela comesse fora porque isso fazia-lhe mal. E esta mulher andava há anos com receio e em grande angústia porque não sabia se o marido a amava porque nunca lhe tinha dito. Ou seja, ele demonstrava através de ações e atos que a amava, que se importava com ela e que queria que ela estivesse bem. E ela precisava que ele dissesse 'Eu amo-te'. A necessidade de um não era a forma de mostrar afeto do outro. E quando duas linguagens não são iguais às vezes pode promover esta confusão, distanciamento e, finalmente, a separação. O fim da relação concretiza-se quando a linguagem deixa de ser a mesma, quando os projetos deixem de ser os mesmos, quando deixa de haver amor  - embora possa existir nalguns casos como falámos atrás -, quando deixa de haver atração, quando não suportamos o outro, quando a relação deixa de permitir o crescimento, quando passa a ser uma tortura. Um exemplo que me recordo foi de um casal que acompanhei, com uma diferença de idade de 15 anos, cujo elemento mais novo deixou de amar, deixou de sentir atração, deixou de suportar o toque. Na primeira consulta falou-se em separação e todas as sessões seguintes foram trabalhar esta separação, esta dependência emocional do elemento mais novo, que via o outro mais como uma figura parental do que propriamente como um companheiro amoroso e sexual. Os dois estavam em intenso sofrimento, mas por situações diferentes, eram dois tipos de amor muito fortes, só não eram conciliáveis, nem coincidentes neste casal.

A falta de paixão tem um papel central na série. Questiono-me se o fim da paixão não faz parte da evolução natural de qualquer relação? É possível reacender a paixão?

A.F. - A paixão pode voltar em vários momentos e ao longo da vida da relação. A paixão dá vida e energia ao relacionamento. É exatamente isso que dá o alavancar do querer estar com a pessoa, do não querer viver sem ela e que nos faz aproximar mais do outro. No entanto, idealizar a sua presença estável e sempre presente poderá ser uma fantasia que pode interferir na relação. Por exemplo, quando surge o primeiro bebé, o casal tem que se ajustar a uma nova circunstância e normalmente é nesta altura que as grandes diferenças se destacam de uma forma empolada, fica tudo muito maior, mais visível porque há um terceiro elemento. E às vezes essa é a relação, mas se calhar havia questões de comunicação e divergências importantes que antes não foram faladas, mas que surgem depois de forma muito mais saliente. Se é o fim da paixão? Eu tenho sempre esperança e acho que os casais têm sempre muitos recursos que nem se lembram que têm e quando chegam em sessão as coisas surgem e surgem novamente momentos de paixão. Para reacender a paixão é preciso haver um foco, um investimento. De facto, o casal deixa de olhar para si mesmo, então a ideia é voltar a olhar um para o outro e às vezes até reacendem a paixão de uma forma melhorada, tipo 2.0.

H. N. - De facto a paixão é uma fase que não dura para sempre. Temos a tendência de olhar para a paixão como algo só positivo, mas esta coloca o nosso corpo num estado de tensão contínua em que tudo em nós acelera: o coração acelera, andamos ansiosos, não somos capazes de viver sem aquela pessoa, precisamos sempre dela ao pé de nós, estamos sempre a trocar mensagens, sempre a controlar.... É uma fase inicial e não é saudável que um ser humano viva para sempre apaixonado, pelo menos dessa forma. Em fases posteriores podemos apelar a outra coisa importante e equivalente, que é a novidade e essa pode ser estimulada. A novidade pode trazer aquela pitada de especiaria, de coisa diferente, de frescura, de oxigénio. É importante que em todas as fases de relacionamento se possa trazer a novidade e, por isso mesmo, também se deve incentivar a individualidade de cada um dos elementos, para que possa trazer novidade para o casal.

O amor não chega. Essa é outra idealização que surge muito em consulta

Porquê?

H. N. - Porque a individualidade vai permitir oxigenar a relação. A falta dela, pelo contrário, vai sufocar, vai impedir a novidade, vai incentivar a relações de dependência que não são saudáveis. Podemos ir aprofundando o nosso conhecimento da pessoa ao nosso lado e mostrando outras partes de nós, porque nós, como seres humanos, vamos evoluindo, vamos aprendendo também acerca de nós próprios, dos vários espaços que nos habitam. Não somos uma peça acabada. Evoluímos até à morte, aliás, até na morte podemos aprender. Quando o amor não permite esta descoberta contínua, quando limita as necessidades, as vontades, os pensamentos, as emoções, aquilo que faz de cada ser humano ser único, então o amor não é suficiente. Não permite crescimento.

Considera que o sexo é importante numa relação a dois? Ou que a sua importância e existência (ou não) varia de casal para casal?

A.F. - Varia muito de casal para casal na sua forma, na sua periodicidade, na sua espontaneidade e, por vezes, até na sua definição. No entanto, o sexo é uma expressão muito saudável do afeto e pode existir mais quando o casal é próximo um do outro. A proximidade permite acolher a vulnerabilidade um do outro, e sentirem-se bem a nu, um com o outro, e isso pode ser convidativo a uma exploração sexual mais leve e divertida. A vontade de olhar acolhe outro fator, que é o encanto e salienta o erotismo, a fantasia sobre o outro, o querer estar com o outro, a proximidade física e sexual. O conversar bem sobre o tema acolhe mais flexibilidade e compreensão pela outra pessoa, e assim, diluir possíveis inibições ou dificuldade em expressar necessidades individuais, também, nesta esfera do casal.

H. N. - A sexualidade ainda é um tabu em muitos casais. Eu recordo-me de um casal nos seus 40 que nunca tinha tido uma conversa sobre o que é que eles gostavam numa relação sexual, o que para eles era importante, o que é que lhes dava mais prazer.... O sexo é importante, mas pessoas diferentes têm necessidades diferentes. Torna-se um conflito quando a necessidade de um é ter relações sexuais todos os dias e o outro, por outro lado, sente apenas necessidade de as ter uma vez por mês. Isso sim, gera conflitos. Não existe propriamente uma regra. É importante, mais uma vez, entender as necessidades de cada um e perceber se há a possibilidade de se construir um meio termo. Existem três erros comuns na relação: que uma relação tem ser ser simbiótica, “dois são um só”; que basta existir amor para que uma relação possa resultar; e que quando nós amamos alguém, esse alguém nos vai satisfazer sexualmente. Acontece com frequência casais que se dão muito bem sexualmente, mas que não se amam, ou que têm uma comunicação péssima, ou vice-versa. Claro que felizmente há possibilidade de termos a experiência de encontrarmos aquilo que necessitamos numa mesma pessoa, claro que sim, mas não é regra.

Podem surgir situações em que julgamos saber tudo sobre o outro, mas as circunstâncias de vida podem revelar facetas diferentes sobre o nosso companheiro

Até há casais não são sexualmente ativos, mas que têm uma grande relação de intimidade e companheirismo...

A.F. - Sim. Há casais novos que são assexuais, mas que mantêm uma boa relação de companheirismo e de grande amizade que também é muito importante. A questão do erotismo é muito importante no casal, podendo existir maior investimento na intelectualidade ou no companheirismo. O fomentar da fantasia e o investimento daquilo que é de mistério do outro é isso que ativa o nosso desejo e o reacender da paixão, ainda que num campo mais intelectualizado. E podem surgir situações em que julgamos saber tudo sobre o outro, mas as circunstâncias de vida podem revelar facetas diferentes sobre o nosso companheiro, e assim, trazer outras dimensões à nossa sexualidade.

H. N. - Pode acontecer situações, como referia, de casais que têm uma intimidade afetiva e amorosa muito grande, muito companheirismo, mas cujas relações sexuais são péssimas, que não lhes trazem qualquer tipo de prazer. A forma como cada casal digere isto também é muito díspar. Existem casais em que um dos elementos, de forma consciente, de forma partilhada ou de forma escondida, procura outras pessoas para satisfazerem essa parte importante. Existem ainda pessoas que se anulam no seu desejo. É um tema muito vasto. Recordo-me de uma paciente que me dizia 'Eu tanto me reprimo sexualmente que às tantas já não sinto desejo por ninguém. E isto não era normal em mim'. Podem surgir situações diversas, somos seres humanos e como tal, complexos. Pode haver ajustes, pode haver repressões ou pode haver procura dessa necessidade noutros locais.

Não é saudável que um ser humano viva para sempre apaixonado

É fácil ser feliz a dois? Ou os casais complicam?

A.F. - É uma ótima pergunta. [risos] Talvez gostaríamos que as relações fossem simples, porém estar em relação pode ser complexo, isto se olharmos para a complexidade individual de cada um e ainda assim entender o desejo e vontade de juntar a complexidade de outro ser humano, e pode ser a nossa vontade de manter a vivacidade na relação e de investir nela. O complicar pode surgir como um afrodisíaco ou com um obstáculo a uma vivência tranquila a dois, no entanto, poderá ser inevitável, pois a complexidade já lá está. O que poderá pontuar a diferença será a vontade e flexibilidade para, criativamente, encontrar pontos de encontro, soluções, ajustes e adaptações à realidade de cada um. E, apesar desta possível simples complicação, conseguirmos manter um equilíbrio a dois e potenciar o bem-estar, alegria e leveza no espaço da relação.

H. N. - É uma pergunta traiçoeira porque não é fácil... [risos] Viver a dois é sempre complexo e essa complexidade pode ser gerida de uma forma mais simples, mais clara ou mais conflituosa. Individualmente, como indivíduos, em determinadas alturas da nossa vida, surgem momentos de conflitos, dificuldades, angústias, anseios, dúvidas. Num casal surge tudo isso como bagagem de cada um e da relação (Eu-Tu-Nós). Por isso quando duas pessoas se juntam para formar um casal vão com uma "mala de viagem”, com todos os seus padrões individuais, com todos os seus traumas e fragilidades. É complexo gerir tudo isto. O que não quer dizer que não seja altamente prazeroso e possa dar origem a uma felicidade inexpressável. Mas gerir tudo isto implica sempre alguma complexidade, sensibilidade e cedências. Diria que o segredo está na flexibilidade, no conseguir aceitar a diferença e aceitar fazer coisas de uma forma diferente.

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