Ana Tabares, que na altura tinha 36 anos, cozinhava para produtores do pó branco numa área rural fronteiriça com o Equador. Em 2019, militares e polícias invadiram a tiros o acampamento improvisado onde a mãe solteira trabalhava.

Tabares foi capturada com mais três pessoas numa época em o país que mais produz cocaína no mundo trava uma guerra difícil contra as drogas. Um juiz desconsiderou as suas súplicas e condenou-a a dez anos e oito meses de prisão por tráfico e produção de entorpecentes.

O caso de Ana, assim como o de outras milhares de mulheres pobres presas por crimes associados ao narcotráfico são estudados pelo governo do presidente Gustavo Petro, que pediu para "acabar com a irracional guerra contra as drogas" liderada pelos Estados Unidos há décadas.

Petro propõe deixar de perseguir camponeses cultivadores de coca e outros trabalhadores de baixo perfil na rede do tráfico, mas endurecer as operações contra os grandes chefes do tráfico e as redes de lavagem de dinheiro.

O chefe de Tabares não foi apanhado e nunca foi para a prisão. "Sempre são os menos envolvidos os que pagam o pato", queixa-se Ana, durante uma entrevista à AFP no Buen Pastor, principal prisão feminina de Bogotá, onde passa os dias a limpar e a pintar peças de cerâmica que são vendidas de seguida.

Há um ano, Petro sancionou uma lei que permite às mães chefes de família e com baixo rendimento cumprir as penas fora da prisão, fazendo trabalhos sociais com autorização de um juiz.

Graças a esta lei e através de um lento processo, uma dezena de mulheres conseguiram ser libertadas. Tabares espera sair da prisão e reencontrar uma filha que chegou à maioridade enquanto estava atrás das grades, e com um menino de 12 anos, deixado aos cuidados de uma tia.

O Ministério da Justiça estima que 37% das 7.000 condenadas nas superlotadas prisões da Colômbia tenham cometido crimes relacionados com o narcotráfico e o microtráfico. Apenas 15% dos homens estão presos por estes crimes.

Mães pobres em prisões lotadas. A outra face da guerra às drogas na Colômbia
Mães pobres em prisões lotadas. A outra face da guerra às drogas na Colômbia Ana Milena Tabares a rezar na prisão feminina El Buen Pastor em Bogotá. Créditos: Alejandro Martinez |AFP créditos: AFP or licensors

"Precisam de mim"

Apesar do apoio milionário dos Estados Unidos e da morte de barões da cocaína, como Pablo Escobar, a Colômbia não consegue travar o narcotráfico.

"O diagnóstico é que a guerra às drogas foi altamente custosa em recursos financeiros, mas talvez de forma ainda mais grave em vidas", afirma Camilo Umaña, vice-ministro da Justiça.

Para além disto, "muitas pessoas (...) acabaram nas prisões por crimes relacionados com os tráficos", "enquanto os delitos, por exemplo, de lavagem de ativos, onde se concentra grande parte da riqueza, são praticamente inexistentes", diz.

Angie Hernández passou quase quatro anos presa. A dependência ao 'bazuco' - droga similar ao crack -  levou-a a viver nas ruas de Bogotá e em municípios vizinhos, onde também distribuía a substância.

Na sua ausência, os dois filhos, de 15 e 13 anos, moram com a avó. O mais velho deixou a escola.

"Sinto que precisam de mim", diz a mulher de 34 anos, que pede para esconder o rosto. "Tenho telefonado e vão dormir sem comer", acrescenta. 

Hernández conta que um juiz analise o caso e espera poder sair da prisão.

"Diabo"

Em 2019, 79% das mulheres presas por narcotráfico ou crimes similares na Colômbia tinham entre um e cinco filhos, segundo relatório daquele ano do Escritório da ONU contra as Drogas e o Crime. Sessenta por cento foram mães antes de chegar à maioridade.

A ONG Escritório em Washington para Assuntos Latino-americanos (WOLA) estima que mais de 40% das mulheres presas nas Américas foram presas por crimes relacionados com as drogas.

Isabel Pereira, cientista política do centro de estudos 'DeJusticia', afirma haver "uma tendência latino-americana a criminalizar más condutas" com "castigos mais severos", e isto atinge a população feminina sem estudo, com empregos informais e a cargo de vários filhos.

O relatório da ONU mostra que apenas 19% das prisioneiras colombianas concluiu os estudos, quase uma condenação ao desemprego.

Em 2023, Estefany Villa, de 30 anos, perdeu o trabalho. Estefany conta que os filhos, hoje com 11, 8 e 5 anos, passavam fome, e por isso aceitou esconder 'bazuco' e cannabis em casa em troca de dinheiro.

"Literalmente apareceu-me o diabo", diz, aos prantos. "Fazemos isto porque é uma necessidade. São crianças pequenas que pedem todos os dias pequeno-alomoço, almoço e jantar", explica.

Estefany Villa, convicted for drug trafficking charges, cries during an interview with AFP at El Buen Pastor women's prison, in Bogota on February 26, 2024. The Colombian Ministry of Justice estimates that 37% of the 7,000 women convicted in Colombia's overcrowded prisons committed drug and micro-trafficking offenses. Only 15% of the men are detained for such crimes. (Photo by Alejandro Martinez / AFP)
Estefany Villa, convicted for drug trafficking charges, cries during an interview with AFP at El Buen Pastor women's prison, in Bogota on February 26, 2024. The Colombian Ministry of Justice estimates that 37% of the 7,000 women convicted in Colombia's overcrowded prisons committed drug and micro-trafficking offenses. Only 15% of the men are detained for such crimes. (Photo by Alejandro Martinez / AFP) Estefany Villa créditos: AFP or licensors

Estefany espera que a nova lei do governo ajude-a. Caso contrário, terá que cumprir mais de quatro anos no  Buen Pastor.

Reportagem por David SALAZAR