Em 2017, o astrofísico britânico Stephen Hawking deixava o aviso: face à situação calamitosa do planeta, em cem anos teríamos de abandonar a Terra. Na realidade, pensarmos em deixar para trás a nossa casa comum não é uma proposta confortável. Mesmo que a expansão da humanidade para a Lua, depois para Marte seja exequível a longo prazo, deixar-nos-á um amargo travo coletivo. O que fizemos ao nosso singular planeta?

Para que possamos agir a tempo – mesmo quando este se tornou um bem escasso, como no caso da crise climática - a ambientalista Carmen Lima, entrega-nos à leitura “Não há Planeta B” (edição Chá das Cinco). Um livro que é, a dois tempos, um manifesto pela preservação do planeta face aos perigos que enfrenta, e um chamamento à ação individual. Somos parte do problema, mas também interlocutores ativos para as soluções.

Para a coordenadora do Centro de Informação de Resíduos da Quercus, a mudança começa em nossas casas, nas nossas mesas, na forma como nos alimentamos, como compramos, nas soluções para reduzir o consumo de recursos, aumentar a eficiência energética.

Carmen Lima deixa-nos um périplo por dezenas de dicas e sugestões para nos tornarmos atores na mudança, como viver sem plástico, como fazer a separação do lixo e reciclar mais, como poupar água, como comprar uma casa mais sustentável.

À conversa com o SAPO Lifestyle, a também fundadora do SOS Amianto - Grupo de apoio às vítimas do amianto, recorda-nos que vivemos num sistema fechado e que “mais cedo ou mais tarde vamos sentir na pele os efeitos do consumo desenfreado”.

“Não há planeta B, mas consumimos como se o amanhã não existisse” - ambientalista Carmen Lima
Carmen Lima, coordenadora do Centro de Informação de Resíduos da Quercus e fundadora do SOS Amianto - Grupo de apoio às vítimas do amianto. créditos: Carmen Lima

O momento como o que acabámos de viver, com o confinamento e a consequente redução das atividades humanas com impacto no ambiente, é a oportunidade para repensarmos e mudarmos ou apenas um intervalo entre duas partes iguais do mesmo filme?

É um caminho com dois sentidos e dou um exemplo prático. Todos os anos reúno-me duas vezes com um grupo de colegas em Bruxelas a propósito da temática dos resíduos. Este ano, devido à COVID-19, a reunião fez-se por Skype. Provavelmente, vamos chegar à conclusão de que não é necessário nos reunirmos em Bruxelas quando podemos perfeitamente discutir esta situação online. Isto permite-nos perceber que, nalgumas situações do nosso dia a dia, podemos perfeitamente utilizar as novas tecnologias e diminuir as nossas deslocações, até muitas vezes em carro pessoal.

Por outro lado, aquilo que verificámos é que uma série de medidas que tínhamos implementado para reduzir a produção de resíduos, principalmente ao nível dos descartáveis foi completamente ultrapassada. Foi inclusive suspensa, porque não se consegue reagir a uma pandemia sem suspender, no caso de Lisboa, a recolha seletiva do porta-a-porta. Sem deixar de usar descartáveis em determinadas situações.

Um “apocalipse de plástico”: Como o nosso estilo de vida descartável está a matar o planeta
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Portanto, de uma forma podemos refletir sobre a mudança, mas, de outra forma, tivemos de mudar os nossos comportamentos, tornando-os menos amigos do ambiente para conseguirmos tornar-nos mais resistentes às questões da saúde.

Isso faz-nos também pensar que, provavelmente, não vamos conseguir afastar certos materiais pelo menos em algumas circunstâncias. Algo que também já previa, no âmbito hospitalar, nunca conseguiríamos viver livres do descartável.

As pessoas têm de perceber que se no seu quotidiano mudarem pequenos comportamentos estão a contribuir para o ambiente.

Carmen, nos tempos que correm a expressão “não há planeta B” tornou-se uma espécie de estandarte. Mas, será que a praticamos quando fazemos uso doméstico da água, separamos os lixos ou vamos às comprar ao centro comercial?

Temos perfeita noção de que, realmente, não existe planeta B, mas consumimos como se o amanhã não existisse. Ou seja, quando vamos às compras ao supermercado e vimos uma roupa, que não precisamos, mas que é barata, compramo-la por essa razão. Ou quando estamos num banho relaxante e aproveitamos para aí ficar mais dez minutos. Ou, ainda, quando vamos ao supermercado e compramos muito mais do que aquilo que simplesmente precisamos para confecionar as nossas refeições.

Em todas estas situações não estamos a pensar que estes nossos comportamentos têm um impacto ambiental na medida em que vamos utilizando os recursos que são finitos. Com o seu uso de uma forma exagerada, alguém vai ter falta desses recursos. Esta realidade não é equitativa para toda a população mundial. Mais cedo ou mais tarde vamos sentir na pele os efeitos de exagerarmos nesse consumo. As pessoas têm de perceber que se no seu quotidiano mudarem pequenos comportamentos estão a contribuir para o ambiente. Depois, é uma questão de escala, ou seja, quanto mais pessoas mudarem comportamentos, maior será o impacto positivo para o ambiente com a redução de utilização de recursos.

Um mundo de desperdício. Entregamos ao lixo mais de mil milhões de toneladas de alimentos por ano
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Talvez seja uma questão de escala, mas por vezes parece que o ser humano se esquece que habita esta casa comum…

Não há uma separação física e, contudo, sinto que as pessoas, por vezes, se separam fisicamente do ambiente. Acham que não há uma relação direta com o meio, até mesmo em termos de saúde. O impacto ambiental danifica a nossa saúde. Temos de ter sempre presente esse facto. Somos quem está no topo da cadeia, para o bem e para o mal. Nunca nos poderemos esquecer.

Logo a abrir o livro alerta-nos para passos positivos em matéria ambiental, mas também para a degradação noutros aspetos. Quer sucintamente enumerar uns e outros?

Temos verificado que uma parte substancial da população está mais ciente daquelas que são as preocupações ambientais. As pessoas já têm noção dos principais problemas, já sabem o que podem fazer no dia a dia para melhorar os seus comportamentos ambientais, já conhecem a questão das alterações climáticas, já há muita informação sobre as espécies que estão em vias de extinção.

Depois, na prática, as coisas não correm assim tão bem. Ou seja, quando as pessoas poderiam mudar o seu comportamento ao nível do dia a dia acabam por não o fazer e por diversas razões: porque é complicado mudar comportamentos, porque se tornar difícil mudar a vida de um dia para o outro por falta de motivação, ou porque acham difícil.

O que é certo é que no dia a dia não mudam esses comportamentos da forma como gostaríamos que mudassem, até porque, estando mais sensíveis, poderiam estar mais motivadas para os mudar e é isso que verificamos que não acontece.

Daí, o livro ser uma espécie de guia prático e simples quer permita às pessoas adotarem novos comportamentos. No fundo, ajudar os leitores a fazerem essa mudança de “chip”, passar da teoria à prática e levá-los a perceber que não é assim tão difícil fazer essa mudança, que é perfeitamente exequível.

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Carmen, passaram três anos entre a nossa primeira conversa e esta. De premeio houve uma vaga de consciencialização face ao uso abusivo do plástico. Os números presentes, em Portugal e no mundo, refletem uma mudança efetiva?

Os números podem não refletir provavelmente o exagero da quantidade de plástico que se usava, mas acho que no arranque deste ano houve uma grande campanha de consciencialização relativamente ao uso de descartáveis e isso verificou-se por exemplo em grandes cadeias como a McDonald´s que não distribui palhinhas, salvo se for a pedido do cliente.

“Consumimos de mais. Descartamos de mais. Não se trata já de crescer, mas de sobreviver”. Eunice Maia, o rosto do “Desafio Zero”
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Acompanhando esta temática, há três anos eram as ONG's que alertavam para o problema do uso abusivo dos plásticos. Atualmente, aquilo que verificamos é que foi legislada essa utilização e, neste momento, o canal Horeca, ou seja, restaurantes, café, hotéis, já perceberam que têm de adotar esses comportamentos e já começaram a adotá-los na sua prática. Isso vai muito contribuir para a educação dos clientes. Pensarão duas vezes: "mas realmente consigo beber isto sem palhinha!".

Houve uma sensibilização e agora há uma educação de comportamentos e era isso que se pretendia.

Acredito que daqui por uns anos os materiais descartáveis serão uma exceção, utilizados apenas em algumas circunstâncias.

No caso das festas, será o ponto em que as pessoas estão menos sensíveis para mudar comportamentos. Se seguirmos os exemplos de outros países, há uma série de alternativas como o aluguer de louça.

Quando as pessoas poderiam mudar o seu comportamento ao nível do dia a dia acabam por não o fazer e por diversas razões: porque é complicado mudar comportamentos, porque se tornar difícil mudar a vida de um dia para o outro

Quando olhamos para os 17 ambiciosos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável com uma agenda de ação para 2030 parece-nos uma utopia. Face ao momento presente o que podemos esperar dentro de dez anos?

Acho que, em alguns países, vamos conseguir concretizá-los, mas noutros vamos fazer uma prorrogação destes objetivos para 2040/2050. Aquilo que verificamos é que há avanços e recuos, ou seja, mesmo na questão da matéria das alterações climáticas, houve uma altura que pareceu que o mundo estava todo em consenso nessa luta. Entretanto, houve um retrocesso nessa medida.

Há desequilíbrios relativamente ao acesso aos bens, há desequilíbrios relativamente ao acesso à qualidade do serviço, como por exemplo do fornecimento de água potável e com qualidade. Levaremos muitos anos a combater esses desequilíbrios. Depois, curiosamente, há desequilíbrios relativamente aos impactos ambientais. Ou seja, os países que mais sofrerão com estes são, infelizmente e injustamente, os países mais pobres.

Desta forma, acredito que para conseguirmos implementar a nível transversal os objetivos de desenvolvimento sustentável, vamos ter de continuar a prorrogá-los no tempo e a disponibilizar investimentos por parte dos países com mais verbas para ajudar os países mais desfavorecidos.

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"Não há Planeta B", o livro escrito pela ambientalista Carmen Lima é um alerta para a saúde da nossa casa comum e um manual para mudarmos comportamentos.

Conseguimos, de facto, melhorar a qualidade de vida das populações abdicando do atual modelo de crescimento económico?

Esse é modelo da sustentabilidade com os seus três pilares, o financeiro, o social e o ambiental. O que acontece é que, muitas vezes, implementamos um modelo e damos mais realce à questão financeira, outras vezes implementamos o modelo e só consideramos os aspetos ambientais.

Por exemplo, numa exploração mineira - embora não esteja a dizer que sou a favor da exploração de minas -, há que considerar, para além dos aspetos sociais da população que é afetada, a questão ambiental, com a recuperação da área da exploração e a plantação. Desta forma minimizamos o impacto ambiental e de alguma forma ao criarmos postos de trabalho, introduzimos a economia numa zona remota.

O problema é se compensamos aquela população apenas com trabalho, sem compensar o impacto social e ambiental do habitat que está a ser devastado e que tem de ser recuperado e regenerado.

É esse equilíbrio que muitas vezes não é implementado nas atividades económicas. Muitas vezes a questão do ambiental é o parente pobre. Isto, mesmo em Portugal. Quando tivemos a questão da poluição no rio Tejo, as empresas não consideraram a questão ambiental como uma preocupação que deveriam ter na sua atividade económica. Depois, sentiram quase como um castigo o facto de terem de limpar aquilo que tinham poluído. A poluição ambiental deveria estar a montante.

Há desequilíbrios relativamente ao acesso aos bens, há desequilíbrios relativamente ao acesso à qualidade do serviço, como por exemplo do fornecimento de água potável e com qualidade.

Há um aspeto que se afigura irracional. A Carmen dá-nos os números: para alimentar a população humana em 2050, a quantidade de alimentos a produzir no Planeta deverá aumentar 70%. Contudo há milhares de milhões de toneladas de alimentos em perda ou desperdício. Será que precisamos mesmo de produzir mais ou de fazer a gestão mais racional?

Acabará por ser um equilíbrio dos dois porque muitas vezes o desperdício alimentar ocorre nos países mais ricos e não naqueles países onde a necessidade de alimentação é mais premente. Aquilo que sentimos é que as pessoas ainda não estão sensíveis para esta realidade. Muitas vezes, não dão importância ao desperdício, ou seja, não o quantificam e não o qualificam como uma atitude negativa o facto de entregarem ao lixo bens alimentares e o impacto que o gesto pode ter. Ou seja, aquele alimento poderia estar a alimentar alguém, para além de ser um recurso que implicou a utilização de água, energia, embalagem, transporte. No final, não cumpriu a função primeira, a de alimentar.

Atualmente, com o início da recolha dos biodegradáveis na cidade de Lisboa e noutros concelhos, consegue-se ter noção daquilo que é o desperdício alimentar. Além das cascas da confeção dos alimentos, conseguimos ter noção dos restos de comida; ou porque confecionamos alimentos a mais, ou porque compramos, por exemplo fruta, entre outros perecíveis, e não os consumimos.

Se quantificássemos todo o desperdício alimentar que é produzido em todas as atividades, dos cafés e hotéis, às casas particulares, constataríamos que daria para alimentar muitas famílias. Na realidade já há redes de apoio que alimentam muitas famílias com base nessa comida que está ainda em bom estado para consumo. Isto, sem referir aqueles produtos que passam o seu prazo de validade, mas ainda estão aptos ao consumo.

Aquilo que sentimos é que, uma vez mais, há um desequilíbrio. Os países mais ricos têm uma abundância maior de recursos e, portanto, não os gerem de forma equilibrada, ao ponto de os desperdiçarem. Por outro lado, os países mais pobres que continuarão a ter necessidades de alimentos.

No caso dos países mais ricos, o que temos de fazer é reeducar essas populações e isso poderá começar por exemplo pelas escolas. Para que as crianças, futuros adultos, tenham noção de que o desperdício é uma coisa negativa.

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Onde está a pegada ecológica dos portugueses a pesar mais?

A pegada ecológica é sempre maior nos países desenvolvidos porque como há maior disponibilização de recursos, há também maior consumo desregrado desses recursos. Também há uma maior produção de resíduos. Se formos avaliar a produção de resíduos per capita é sempre muito superior nos países desenvolvidos, relativamente aos países não desenvolvidos, até porque estes têm mais taxas de reutilização dos bens.

Quando estamos em períodos de crise, tendemos a comprar apenas aquilo que é necessário e optar por comprar mais barato, até mesmo a granel. Quando a crise passa, mesmo que seja apenas a um nível psicológico, as pessoas abandonam esses cuidados e passam a consumir mais e nomeadamente, embalado.

Podemos comer mais produtos locais, mais produtos da época e não exigirmos que sejam produzidos de forma intensiva determinados alimentos para que isso os torne mais baratos. Tudo isto leva a que a pegada ecológica seja efetivamente maior.

Por exemplo, comparando Portugal com países menos desenvolvidos, a produção de lixo per capita chega a ser metade, como é o caso da Guiné Bissau. Isto faz-nos pensar.

A Carmen também teve cuidado com a pegada ecológica com este livro porque o fez em papel reciclado…

Não me sentiria bem se não fosse desta forma. Se queremos que os outros sigam os exemplos que apresentamos, temos de ser os primeiros a dar o exemplo. No livro, a questão estética não era prioritária, mas sim o conteúdo e a mensagem.

 

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