O britânico Bertie Gregory é um realizador, fotógrafo e apresentador de filmes de vida selvagem. Licenciado em Zoologia, começou a sua vida de explorador como assistente do fotógrafo Steve Winter na África do Sul em missão para a National Geographic. O projeto evoluiu para um programa de televisão sobre leopardos urbanos em Mumbai e na selva do Sri Lanka.

A Lisboa, Bertie trouxe um dos temas que lhe é grato, o de fotografar a vida selvagem em centros urbanos. O britânico, nomeado Explorador do Ano pela Scientific Exploration Society Zenith, em 2015, alertou para a diversidade natural que encontramos mesmo em cidades densamente povoadas. Deu como exemplo a história de um falcão peregrino juvenil que acompanhou nos seus primeiros voos em Londres e de como passou duas semanas na base da torre noroeste do Palácio de Westminster (a que acolhe o Big Ben) para fotografar um falcão em voo frente à bandeira de Inglaterra.

Ainda no contexto da vida selvagem em grandes cidades, o realizador recordou a aventura que viveu numa metrópole com mais de 12 milhões de habitantes, Mumbai. Ali, na Índia, Gregory passou 13 noites na floresta urbana do Parque Nacional Sanjay Gandhi. O objetivo: captar em fotografia um leopardo, algo que o fotógrafo conseguiu na última noite de permanência no local. O animal, tido como mítico naquela região, corporizou-se frente à objetiva do homem que tem trabalhado em projetos próprios para a National Geographic como a série online Wild Life with Bertie Gregory.

Sobre que conselho deixaria Bertir Gregory a quem estiver interessado em captar a vida selvagem nas cidades onde vive, a resposta é lacónica: “olhem menos para o telemóvel e mais em redor”.

Dwayne Fields, explorador e apresentador de programas na BBC, ganhou reconhecimento quando, em 2010, embarcou na sua primeira expedição, tornando-se o primeiro jovem negro britânico a caminhar mais de 370 quilómetros para alcançar o Pólo Norte Magnético.

Nascido na Jamaica, Dwayne recordou-nos a sua infância de “como explorava tudo na floresta” e de como “adorava tudo o que era selvagem”. Já a viver em Londres, Fields deparou-se com um episódio que lhe pôs a vida em perigo, foi alvo de um ataque à mão armada. O episódio de juventude mudou a vida do homem que decidiu, na época, estabelecer o objetivo de alcançar o Pólo Norte Magnético. “Tinha-me tornado um conformista, quis fazer de um episódio negativo da minha vida em algo positivo”, comentou.

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À plateia reunida na capital portuguesa, o aventureiro e explorador, sublinhou a importância de sermos um exemplo, de levarmos as crianças e jovens para o ar livre. “É impossível não gostar da natureza”, sublinhou Dwayne, ao partilhar alguns dos episódios que viveu em diferentes geografias, do risco de caminhar nas proximidades de ursos polares, no Ártico, ao ato de beber sangue bovino junto com o povo Massai, no Quénia.

Em 2919, Dwayne Fields fundou com a sua parceira Phoebe Smith a WeTwo Foundation, que realiza em 2022 a primeira missão neutra em carbono com o objetivo de levar jovens de origens desfavorecidas à Antártida.

Numa mensagem final a quem o escutou, o explorador deixou uma citação atribuída a Thomas Edison, “muitos dos fracassos na vida são o de pessoas que estavam perto do sucesso e preferiam desistir”.

Nome grande do ativismo socioambiental a francesa Céline Costeau, neta do oceanógrafo Jacques-Yves Cousteau, escolheu o tema da interconectividade para partilhar a sua experiência. Em Lisboa, Céline convidou os participantes na cimeira da National Geographic a darem as mãos e a inspirarem e expirarem profundamente. “50% do oxigénio que acabam de respirar chega-nos das plantas. Conseguem viver sem ele?”, questionou a também realizadora. Céline recordou a viagem que fez à Amazónia aos nove anos e que lhe mudou o futuro. “Recordo-me da primeira vez que comi mandioca e de andar descalça. A Amazónia está na minha vida desde essa altura”.

Em 2010, Céline recebeu um convite do povo Javari, o de documentar em filme o dia a dia da comunidade como forma de memória futura e de alerta para a fragilidade do ecossistema onde habitam, o Vale de Javari, na floresta profunda. Findos três anos, nasceu o documentário Tribes on the Edge, filme que transmite a mensagem da interconectividade entre os seres humanos e o mundo natural. Céline defende a importância de unir as pessoas e o meio ambiente, de interligar a tribo humana e reconhecer que o futuro do meio ambiente e dos povos indígenas é vital para o planeta. Neste contexto, a ativista recordou que os “povos indígenas constituem 5% da população global, embora contribuam para a proteção de 80% da biodiversidade da Terra”.

Nos próximos anos, Céline Costeau prepara-se para empreender uma nova viagem: “vou conhecer-me interiormente para, depois, emergir no Mundo”.

Foi em língua portuguesa que Dominique Gonçalves, ecologista moçambicana nascida e criada na Beira, se dirigiu à plateia reunida no Teatro Tivoli BBVA.  Formada em Biologia pela Universidade de Kent, com especialização em ornitologia e mestrado em conservação, Dominique trabalha ativamente na proteção dos ecossistemas do Parque Nacional da Gorongosa. “Nasci perto do parque em 1992, ano em que o Governo moçambicano assinou a paz. Na época, passou-se a olhar para as áreas protegidas com outros olhos. O parque sofreu muito nos anos da guerra. Na Gorongosa perdemos 95% dos grandes mamíferos. Ainda hoje, 33% das fêmeas de elefante não têm presas e muitos animais estão traumatizados”.

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Dominique recordou a importância de envolver as populações na preservação daquele parque natural. A ecologista aderiu em 2015, como investigadora, ao Elephant Ecology Project, o qual agora lidera e onde investiga o movimento dos elefantes e a expansão do seu raio de ação em relação ao uso do habitat e à presença humana. “Vivem 200.000 pessoas em torno da área do parque. Trabalhamos com as comunidades na mitigação dos conflitos entre elefantes e humanos. Damos grande valorização à mulher porque tem uma ligação mais direta com a natureza, através do que cozinha, das plantas medicinais. São também elas, as mulheres, que passam conhecimentos aos filhos. Investimos muito na educação das raparigas. Isto trará mudanças num prazo de cinco a dez anos. Há que fazer líderes para mudarem a comunidade”.

A finalizar a sua intervenção, a ecologista deixou uma mensagem de esperança: “em 2008, tínhamos 10.000 grandes mamíferos na área do parque. O último censo aponta para 100.000 exemplares. Grandes comunidades estão a regressar, contamos cerca de 200 leões e os leopardos foram avistados pela primeira vez em décadas”.

“Tudo isto demonstra que quando olhamos para as necessidades das comunidades, olhamos para o parque num círculo virtuoso”.

A encerrar a quarta edição do National Geographic Summit, subiu ao palco uma dupla unida pelo casamento, o fotógrafo David Doubilet e a bióloga Jennifer Hayes. Através do seu trabalho e da força das suas imagens, partilharam aquilo que podemos aprender todos os dias com os oceanos, os desafios que enfrentam e os comportamentos que temos de alterar: “se os oceanos desparecerem também nós desaparecermos”, sublinharam numa intervenção que se deteve na destruição infligida a um dos ambientes mais ricos do planeta, os recifes de corais: “90% dos recifes de corais do planeta estão danificados ou em perigo”. David e Jennifer ilustraram este alerta com fotografias captadas em diferentes anos nos mesmos locais. “Nas Filipinas, os corais estão a morrer, vitimados pela pesca intensa, pela poluição e tempestades. De jardins passaram a cemitérios”.

Enquanto fotógrafo da National Geographic com mais de 70 artigos publicados, David Doubilet é considerado uma lenda viva e um dos pioneiros da fotografia subaquática. O fotógrafo passou cinco décadas da sua vida a explorar e documentar os locais mais recônditos dos oceanos. Cinquenta anos que David recordou em palco, anunciando um projeto de longo prazo tendo em vista constituir um arquivo visual dos corais do mundo ao longo de tempo. Palavras que também carregaram esperança: “A extensa reserva marinha cubana dos Jardins da Rainha floresce. Um oásis oceânico que próspera porque Cuba protege esta reserva. É patrulhada 365 dias por ano, 24 horas por dia”.

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