A síndrome do impostor é uma ideia geralmente aplicada ao desempenho profissional e é usada para descrever a sensação de se ser inferior, menos competente ou menos eficaz do que a maioria das pessoas à sua volta, não coincidindo, na maior parte das vezes, com a avaliação efetivamente recebida. Aliás, esta sensação surge frequentemente num período pós sucesso, em que a pessoa é amplamente reconhecida pela qualidade do trabalho desenvolvido, começando a duvidar dos fatores que proporcionaram esse sucesso.

Quando a pessoa se sente “impostora”, tem tendência a valorizar mais os fatores externos e sobre os quais tem menos controlo (como a oportunidade ou a sorte), enquanto desvaloriza os fatores internos dos quais detém maior controlo (como a competência, o esforço ou a qualidade).

Este conceito não tem uma correspondência clínica exata, nem é considerado um problema ou diagnóstico. No entanto, quando vivenciado de forma mais intensa ou constante, poderá conduzir a estados em que a ansiedade e a depressão se tornam significativas e, nessa situação, clinicamente relevantes.

Se se sente, ou já sentiu, desta forma, tenha em conta os pontos seguintes. Refletir sobre eles pode ajudar a situar-se e a redefinir parâmetros, ou até a pedir ajuda profissional se lhes encontrar alguma complexidade ou dificuldade de gestão.

1. Erro e vulnerabilidade

Mesmo as pessoas que têm geralmente muito bons desempenhos profissionais podem, em alguma ou algumas alturas do seu percurso, ter desempenhos menos brilhantes. Todos somos vulneráveis a vários fatores que nos condicionam e o nosso desempenho não é imune a isso. Assumir que os bons desempenhos anteriores são ganhos que não se perdem, em vez de serem considerados metas que têm de ser superadas, pode ser muito libertador. Aceitar o erro e a vulnerabilidade, no presente e no futuro, é de extrema importância, ajudando-nos a um desempenho mais fluído, espontâneo e recompensador.

2. Perfecionismo

O perfecionismo é uma característica que está geralmente presente nas pessoas que têm a sensação do impostor. A exigência nos critérios de autoavaliação conduz a que dificilmente se consiga avaliar de forma positiva um trabalho concluído, alimentando a ideia de que se poderia ter feito melhor, se poderia ter aperfeiçoado mais e, inclusivamente, que outra pessoa teria feito esse mesmo trabalho de forma mais perfeita. Além de ser um aliado muito crítico na avaliação de desempenho, o perfecionismo é também um ávido consumidor da nossa energia, com impacto significativo na nossa autoimagem.

3. Vergonha

A síndrome do impostor está também muito relacionada com a emoção vergonha. É exatamente esta vergonha (de não se ser como os outros pensam que se é, de passar uma imagem que não corresponde ao que a pessoa acha ser a real) que conduz ao isolamento e ao esconder desta situação, sendo vivida em sofrimento silencioso. Descodificar ou desmontar esta vergonha pode revelar-se frutífero para a autoconfiança da pessoa, através de um processo de aceitação das suas características (das mais fortes, mas também das mais fracas).

4. Necessidade de validação

Todos nós temos necessidade de validação dos nossos pares e dos nossos superiores. No contexto profissional, a validação surge como um mecanismo de regulação da nossa eficácia, que deve ser intersectado com critérios que não estejam diretamente relacionados com fatores externos, como a nossa própria perceção do desempenho e a relação que estabelecemos entre o resultado obtido e o esforço necessário.

Quando o valor atribuído ao trabalho da pessoa (que, muitas vezes, lamentavelmente, se transforma no valor da pessoa) está só e diretamente relacionado com a validação dada por terceiros, é fácil que a ausência dessa validação se transforme em sensação de insucesso, de fraude. O equilíbrio entre a validação que se recolhe do exterior e a validação interna é muito importante para manter uma perceção saudável do desempenho demonstrado.

5. Stress pós-traumático

Pode ainda acontecer que experiências passadas de mobbing ou crítica extrema e desajustada possam ter criado uma sensação constante de que se é uma fraude, que não se faz o suficiente ou que, a qualquer momento, alguém aparece para desmontar todo o bom desempenho conseguido. Ter estado sujeito a tais situações eventualmente “traumáticas” condiciona a imagem que a pessoa tem dela própria e o estado psicológico com que realiza a sua atividade profissional. Mesmo que, tendo passado por tais situações, a pessoa consiga manter o seu desempenho profissional, certamente que estará mais alerta para situações de “ameaça” que põem constantemente em causa o seu desempenho e favorecem o aparecimento da sensação de “impostor”.

Permita-se refletir sobre estes pontos (ou outros que queira considerar). Não deixe que esta síndrome impostora o limite no seu bem-estar e possa condicionar a sua saúde.

Catarina Janeiro - Psicóloga Clínica

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