O nosso quotidiano é repleto de escolhas. Podem ser simples e rotineiras, como escolher a roupa a vestir de acordo com a ocasião, ou mais complexas e difíceis, como mudar de emprego ou sair de uma relação conturbada. Naturalmente, quanto maior e mais intrincado o impacto da situação na nossa vida, maior poderá ser a dificuldade na tomada de decisão. Contudo, há algo que nos concede um poder quase “sobrenatural”: o poder escolher.

Viktor Frankl, psiquiatra judeu prisioneiro no Campo de Concentração de Auschwitz, na sua obra “O Homem em busca de um sentido”, descreveu o nosso poder de escolha, como “a última das liberdades humanas – a possibilidade de escolhermos a nossa atitude em quaisquer circunstâncias, de escolhermos a nossa maneira de fazer as coisas.” Frankl ilustra esta passagem com testemunhos poderosos referindo atos de bondade e compaixão da parte de guardas dos campos de concentração para com os prisioneiros e, no lado oposto, exemplos de crueldade e sadismo de prisioneiros para com outros prisioneiros. Ou seja, mesmo nas situações mais difíceis, é tudo uma questão de escolher o que é importante para nós, de acordo com os nossos valores e objetivos de vida.

Assim, independentemente do quão desafiante pode ser uma situação, podemos sempre escolher uma de três opções.

Opção 1: Saímos

Afastamo-nos da situação em busca de algo que funcione melhor para nós, em busca de uma vida melhor, plena e gratificante.

Contudo, nem sempre sair é uma opção que temos disponível. Pode não ser possível, podemos não querer ou não ver como uma opção que nos traga melhorias significativas. Partindo do exemplo de Viktor Frankl, sair não seria, definitivamente, uma opção, nem para os prisioneiros, nem para os guardas do campo. Nessas situações, passamos de três para duas opções disponíveis.

Opção 2: Ficamos e vivemos segundo os nossos valores

Esta opção implica, naturalmente, um conjunto de procedimentos mais complexos. Se há algo que é desagradável, difícil, e que me impede de viver uma vida plena e gratificante, como posso melhorar as minhas condições?

Em primeiro lugar é importante aceitar a situação em que estamos. Se não pode ser mudada ou não podemos controlá-la, podemos aceitá-la. Isto implica criar, dentro de nós, espaço para a angústia e até a dor que daí possa resultar e que poderá ser, realmente, inevitável.

Por outro lado, podemos passar à ação, mudando aquilo que for possível para melhorar a situação. Neste passo, os nossos valores podem assumir um papel determinante, uma vez que nos motivam e nos guiam nas nossas ações e no sentido dos nossos objetivos.

Opção 3: Ficamos e desistimos

Deixamos tudo como está, desistindo de tentar agir de forma eficaz. Insistimos em ações que não melhoram a nossa situação ou, inclusivamente, a tornam pior. E todos nós, num ou noutro momento da nossa vida, já optámos por não mudar, continuar com atitudes que pioram a situação e/ou que vão contra os nossos valores, ou desistimos de lutar. Faz parte de se ser Humano e não deixa de ser uma escolha. Contudo, podemos sempre rever as situações e voltar a escolher de acordo com as nossas possibilidades.

Este é o nosso poder: o poder de poder escolher. Aquele que estará sempre presente e que nos abre as portas para uma vida rica, plena e gratificante, mesmo (ou talvez, principalmente) quando nos deparamos com situações difíceis.

João Ferreira da Silva - Psicólogo clínico

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