Só mais recentemente é que, depois de anos de incertezas, a comunidade científica começou, por fim, a perceber as muitas doenças, algumas delas bastante complexas, que afetam o sistema digestivo. Gradualmente, ao longo de décadas, ideias erradas sobre as causas e os tratamentos de doenças digestivas, que segundo as estimativas dos especialistas atingem cerca de 20% da população portuguesa, foram sendo substituídas por informações precisas e mais atualizadas.

Mas, apesar desse progresso, ainda existem mal-entendidos e ideias pré-concebidas que muitos têm como certas e, enquanto alguns mitos são inofensivos, há outros que podem ser perigosos, sobretudo se impedem que se previna uma determinada doença ou se recorra a um médico para o seu tratamento, como por vezes sucede. Com a ajuda de José Cotter, médico especialista em gastrenterologia, conheça os factos que o podem ajudar a defender-se e a proteger a sua saúde.

Alimentos picantes e stresse causam úlceras no estômago?

Podem agravar os sintomas da úlcera em algumas pessoas, mas não são a sua causa. A maioria das úlceras do estômago ou do duodeno é causada por uma infeção provocada pela bactéria Helicobacter pylori ou pela utilização de medicamentos anti-inflamatórios.

As bactérias causadoras das úlceras podem ser eliminadas com uma medicação que inclui antibióticos. Quando causadas pela toma de anti-infamatórios, podem ser curadas após a sua suspensão e com fármacos cicatrizantes.

Um intestino regular é sinónimo de uma evacuação por dia?

A frequência de evacuações nas pessoas normais e saudáveis é variável, podendo oscilar entre várias por dia a três por semana, desde que não diarreicas. Três evacuações por dia podem ser anormais em alguém que tem, desde há muito tempo, um movimento intestinal por dia. As pessoas com síndrome do intestino irritável podem ter uma variação do número de dejeções por dia, bem como alterações da consistência das fezes.

O uso habitual de clisteres é inofensivo?

Não está comprovado que seja inofensivo. Por outro lado, estudos demonstram que alguns laxantes podem prejudicar o cólon, se tomados frequentemente. Uma necessidade constante de clisteres não é normal, pelo que deve consultar um médico se for o caso.

A cirrose é causada apenas pelo alcoolismo?

O álcool é responsável apenas por uma parte dos casos de cirrose, que se traduz na destruição das células normais do fígado com consequente diminuição da sua função. Nas crianças, a cirrose pode resultar de fibrose cística, de atresia biliar, de doenças de armazenamento de glicogénio e/ou de outras doenças raras.

Nos adultos, a cirrose pode ser causada pelos vírus das hepatites B ou C, por uma cirrose biliar primária, por doenças de armazenamento anormal de metais, tal como ferro ou o cobre, como por vezes sucede e que está na origem da hemocromatose ou doença de Wilson. Também pode surgir como consequência tardia da obesidade.

A doença inflamatória intestinal é causada por problemas psicológicos?

Este é o nome genérico para duas doenças que causam inflamação no intestino, a doença de Crohn e a colite ulcerosa, cuja causa é desconhecida. Alguns investigadores defendem que a doença pode resultar de bactérias que interagem com o sistema imunitário.

Nenhuma evidência foi encontrada para apoiar a teoria de que é causada por tensão, ansiedade, ou qualquer outro fator psicológico, embora estes possam agravar o desconforto causado pela doença.

O que é a doença celíaca?

Trata-se de uma doença autoimune em que o glúten provoca uma reação inflamatória que altera a parede interior do intestino delgado, o que interfere com a absorção dos alimentos. Na infância, manifesta-se geralmente com diarreia, diminuição do crescimento e do desenvolvimento. Na idade adulta os sintomas podem incluir distensão abdominal, flatulência, diarreia e dor abdominal, anemia e osteoporose.

Pode causar sintomas inespecíficos durante vários anos antes de ser corretamente diagnosticada. Uma pessoa com doença celíaca não deve ingerir alimentos que contêm glúten, uma proteína do trigo, centeio e cevada, quer tenha sintomas ou não. Mesmo uma pequena quantidade de glúten pode causar danos, ainda que aparentemente não hajam sintomas.

Texto: Nazaré Tocha com José Cotter (médico gastrenterologista)

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