O estado de saúde do músico é fundamental para que este consiga partilhar a sua arte com o melhor desempenho possível. O aparecimento de lesões, mesmo quando estas são ligeiras, pode limitar a qualidade da performance, pelo que a prevenção e o tratamento atempado e adequado das lesões deve ser uma prioridade. Tocar com dor não é uma inevitabilidade e tem solução, saiba como.

É frequente o músico desenvolver dor ou lesões.  Porquê?

De acordo com estudos internacionais, cerca de 86-89% dos músicos desenvolve dor ou algum tipo de lesão relacionada com a prática artística ou que interfere com a capacidade de tocar o instrumento. Isto é relevante não só pela elevada prevalência, mas também porque essas lesões podem diminuir significativamente a qualidade da performance e a qualidade de vida do músico, sendo que, por vezes, conduz mesmo ao término da carreira artística. Têm sido estudados potenciais fatores que predispõem ao desenvolvimento de lesões, a salientar: movimentos de repetição e microtraumatismos, problemas posturais, tocar durante longos períodos sem interrupções, sedentarismo, estratégias de estudo ou técnica menos adequados e o tratamento inadequado ou tardio de lesões prévias.

Quais são as lesões mais comuns nos músicos?

Os principais problemas são musculosqueléticos e neurológicos (tendinite, alterações posturais, contraturas, distonia focal do músico, lesões nervosas, problemas da embocadura, entre outras). Os músicos podem ainda apresentar problemas de voz, de audição, de pele, dentários, ansiedade relacionada com a performance ou outros.

O que fazer quando surge dor ou desconforto?

Quando isso acontece significa que algo não está bem e, portanto, o músico deve procurar atempadamente cuidados médicos capazes de realizar uma avaliação e intervenção especializada. “No pain no gain” não é uma premissa que se aplique à saúde dos músicos pois não é normal o músico sentir dor ou desconforto a tocar.

É importante referir que alguns problemas podem não se apresentar como dor, mas sim como formigueiros, dormência, falta de força, fadiga, dificuldade em assumir uma postura correta, dificuldade na coordenação (dos dedos, da embocadura), ou outros sintomas. São habitualmente o reflexo de lesões que devem ser tratadas rapidamente para travar este ciclo “vicioso” (dor-incapacidade-agravamento das lesões-agravamento da dor e das limitações).

Os músicos devem ser acompanhados por médicos especializados nesta área. Porquê?

Há quem considere que os músicos são “atletas de alta competição". Na verdade, tal como os atletas, eles estão sujeitos a grandes exigências físicas e psicológicas, acrescido de algumas particularidades características do contexto artístico. Assim como os atletas necessitam de cuidados especializados de medicina desportiva, também os artistas necessitam de cuidados especializados de medicina das artes performativas. A abordagem do músico deve incluir a avaliação da performance, pois alguns dos problemas apenas se podem diagnosticar corretamente quando se avalia o músico a tocar.

A abordagem mais generalista mostra-se frequentemente insuficiente para tratar convenientemente estes problemas ou prevenir a sua recorrência, dado que a maioria são decorrentes ou agravados por aspetos da prática artística ou condicionam limitação da qualidade da performance. Os cuidados médicos devem, assim, ser centrados na prevenção, intervenção especializada, avaliação e otimização da performance artística e promoção do retorno à atividade artística sem limitações.

Um artigo da médica Ana Zão, coordenadora do Centro Internacional de Medicina das Artes do Instituto CUF Porto.

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