Durante anos, impôs-se como
um vírus mortal, com um poder
destrutivo inigualável e difícil
de combater.

Hoje, o vírus da
Imunodeficiência Humana (VIH)
«deixou de ser uma condenação à morte
e passou a ser encarado como uma
doença crónica que pode ser manejada e
tratada medicamente», afirma Ricardo
Camacho, médico e investigador.

Quando infeta o organismo, o VIH
enfraquece o sistema imunitário, o
escudo que nos defende dos agentes
infeciosos, ao eliminar as células
que os reconhecem (células CD4).
Associadas à infeção pelo VIH surgem
geralmente as chamadas «doenças
oportunistas», como também as designa o responsável pelo Laboratório de Biologia
Molecular no Centro Hospitalar de
Lisboa Ocidental.

«Quanto mais tarde
for detetada a infeção, maior é a
probabilidade de se desenvolverem no
organismo», alerta Ricardo Camacho. «Perda de peso,
infeções gastrointestinais, hepatites e
alguns tipos de cancro como o linfoma
são exemplos de problemas que podem
decorrer do enfraquecimento do sistema
imunitário, causado pelo VIH», exemplifica.

Ponto de viragem

Em 1996, foi testada e aprovada uma nova
terapêutica, o tratamento antiretroviral
altamente ativo (HAART), que
combina três ou mais medicamentos,
conseguindo travar a replicação do
vírus e recuperar o sistema imunitário
do doente infetado. «Foi o ponto de
viragem no tratamento desta infeção»,
sublinha Ricardo Camacho.

A partir desta data, «os doentes infetados
por VIH tratados por este tipo de
terapêutica passaram a ter uma evolução
comparativa à de uma doença crónica»,
acrescenta o especialista, lembrando
que «antes deste tratamento, a esperança
média de vida de um doente, desde o
início da infeção, não ultrapassava os 15
anos. Atualmente, a esperança média de
vida destes doentes passou para mais do
dobro daquele valor».

O que mudou

Nos países onde a terapêutica foi
aplicada, o resultado foi uma redução
drástica do número de mortes e das
doenças oportunistas relacionadas
com a infeção do VIH. Todos os
medicamentos contra este vírus
tentam evitar que novas células sejam
infetadas, no entanto, estes atuam
de forma diferente e em diversos
estados do ciclo de vida do VIH.

«Esta
terapêutica suprime quase por completo
a replicação do vírus», assegura Ricardo
Camacho, explicando que «ao bloquear
a sua replicação, não se formam novos
vírus e não se infetam novas células,
invertendo assim o processo de
destruição das células».

Sempre alerta

Apesar dos avanços médicos que se
registaram nos últimos anos, a prevenção
mantém-se como um imperativo.
«Hoje a infeção por VIH é uma
doença tratável, mas continua a valer a
pena não estar infetado e fazer todos
os possíveis para prevenir a infeção.
A terapêutica melhorou muito mas
esta é uma doença que continua a
matar», frisa Ricardo Camacho. Só
em 2009, foram recebidos no Instituto
Dr. Ricardo Jorge, em Lisboa, mais
de 2 400 casos de infeção por VIH,
segundo dados disponibilizados pela
Coordenação Nacional para a Infeção
do VIH.

Atualmente, ainda há quem
acredite que a SIDA é uma doença
restrita aos grupos de risco, como os
homossexuais ou os toxicodependentes.
Mas a prevenção deve ser um passo a
seguir por todos, independentemente da
cor, situação económica ou orientação
sexual. De acordo com o mesmo estudo,
em 2009, registou-se um aumento dos casos de transmissão heterossexual e
um menor número de casos associados à
toxicodependência.

Veja na página seguinte: As diferentes velocidades a que evolui a infeção

Contra-ataque

A infeção pelo VIH evolui a
velocidades diferentes. De acordo com
o GAT (Grupo Português de Activistas
sobre Tratamentos de VIH/SIDA), na maioria dos casos o
tratamento começa quatro ou cinco
anos após a infeção, mas cerca de um
terço dos infetados pode permanecer
dez anos sem sintomas nem tratamento.

Tratar na altura certa e de forma correta
é o segredo do sucesso. Para isso, «é
essencial um diagnóstico precoce»,
alerta o especialista.

«Quanto mais tarde é detetada a doença,
menor é a eficácia da terapêutica e a
recuperação do sistema imunitário», sublinha.
Para decidir o início do tratamento,
os clínicos recorrem à contagem dos
linfócitos CD4 (células eliminadas pelo
vírus) e, segundo Ricardo Camacho,
nos últimos anos tem-se acentuado
a tendência para tratar cada vez mais
cedo. «Em pouco tempo, passámos
do limite de 200 células CD4, como
sinal de alarme para o início da
terapêutica, para 350 células e, mais
recentemente, para 500», exemplifica.

Durante os tratamentos é também vital
seguir a medicação rigorosamente.
Caso contrário, «o doente arrisca-se
a que o vírus desenvolva resistência
aos fármacos. Apesar de atualmente
existirem várias alternativas para tratar a
infeção, cumprir a terapêutica continua
a ser fundamental», sublinha.

Desafios imediatos

«Ao longo dos últimos anos,
desenvolveram-se novos fármacos,
mais potentes e menos tóxicos que
permitiram reduzir o número de
comprimidos administrados e facilitar
o cumprimento do tratamento», relata
o especialista. Ainda assim, o seu nível
de toxicidade suscita a preocupação dos
investigadores.

«Há medicamentos que
provocam, por exemplo, o aumento
dos níveis de colesterol e interferem
na função cardiovascular, outros que
afetam a função renal ou são tóxicos
para o fígado», explica Ricardo
Camacho. «Atualmente, estamos
a trabalhar para desenvolver novos
fármacos menos tóxicos, para diminuir
os efeitos secundários que afetam os
doentes». Retardar o envelhecimento
precoce que decorre da infeção pelo VIH é outro objetivo, pois «um
indivíduo infetado, mesmo tratado com
a terapêutica correta, envelhece mais
rapidamente do que um não infetado».

O futuro

A personalização da terapêutica é o
próximo passo. «Atualmente, esta
é definida de acordo com o estado
clínico de cada paciente, mas no
futuro, acredito que as medicações
sejam cada vez mais individualizadas»,
afirma Ricardo Camacho.

«Já há testes
laboratoriais que permitem dizer se um
medicamento vai ser tóxico ou não,
de acordo com o genoma do doente,
ou se vai ser eficaz, de acordo com o
genoma do vírus, e brevemente, vão
chegar novas tecnologias que permitem
uma análise ainda mais pormenorizada
que nos vai permitir determinar uma
terapêutica quase ideal para o doente»,
adianta o especialista.

Uma das outras
áreas em desenvolvimento é a da
monitorização da infeção. Segundo
Ricardo Camacho, «avanços recentes
na área da imunologia vão permitir
decisões mais informadas quanto ao
início da terapêutica, através de novos
marcadores laboratoriais, atualmente
em estudo».

Contactos úteis

Linha SOS SIDA
800 201 040

Linha SIDA
800 266 666

Internet:
www.sida.pt
www.ligacontrasida.pt
www.abraco.pt
www.gatportugal.org

Texto: Sofia Cardoso com Ricardo Camacho (virologista)

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