A maior parte das infeções respiratórias pode ser tratada em casa, evitando assim novas situações de contágio.

Os sintomas da maioria das infeções respiratórias são de curta duração (estes manifestam-se em média num período que varia entre um a três dias) e desaparecem, na maior parte dos casos, ao fim desse período e sem se agravarem.

As medidas a adotar, na ausência de sinais de gravidade, passam por baixar a febre (com um antipirético), se esta for superior a 39º ou se a criança estiver prostrada, e limpar o nariz com nebulizador de água do mar para facilitar a libertação de secreções (se tiver aparelho de aerossóis, poderá fazer atmosfera húmida, só com soro). Contudo, perante sinais de maior gravidade, deve contactar o médico, o serviço telefónico Saúde 24 (808 24 24 24) ou dirigir-se a um centro de saúde ou hospital.

Os sinais de gravidade são:

  • Febre muito alta e/ou prolongada
  • Idade da criança abaixo de um ano (sobretudo abaixo dos seis meses)
  • Falta de ar
  • Pieira  acentuada
  • Prostração
  • Sinais de má oxigenação (estar arroxeada, muito cansada, apática)
  • Recusa de mamar ou de comer
  • Respiração em esforço e tosse muito intensa

Talvez já soubesse como atuar e quais os sinais de alarme que justificam procurar ajuda médica, mas há muito mais a saber. De seguida, encontra ideias comuns sobre a forma como se deve atuar face a uma infeção respiratória. Verifique se estão corretas.

«Nas crianças, só deve tentar baixar a febre a partir dos 39ºC (retal) ou 38,5ºC (axilar)»

Esta ideia está correta. A febre é uma reação fisiológica do corpo face à agressão microbiana (geralmente maior quando são bactérias, menor nos vírus).

É, portanto, um mecanismo de defesa, uma vez que os micróbios morrem mais facilmente, as defesas imunológicas atuam melhor, o corpo é obrigado a repouso e até os medicamentos se tornam mais eficazes.

Por isso, só deve administrar antipiréticos para baixar a febre a partir dos 39ºC graus (retal) ou 38,5ºC (axilar).

«As fungadelas são inofensivas»

Se acredita que esta frase está correta desengane-se. Quando a criança funga envia secreções para o ouvido, aumentando o entupimento da trompa de Eustáquio (canal que areja o ouvido médio) e potenciando o risco de otite serosa e também de otite infeciosa, dado que as secreções nasais e dos adenoides têm microrganismos. A limpeza regular do nariz, ensinando desde cedo a criança a assoar-se e explicando-lhe que não deve fungar, são medidas preventivas fundamentais.

«Quando as crianças têm tosse deve sempre dar-lhes xarope»

Nem sempre. A tosse é um mecanismo reflexo do sistema respiratório, que pode traduzir duas situações diferentes:

- Irritação das terminações nervosas por «ferida» da mucosa respiratória ou por alergia (provoca tosse seca e irritativa).

- Ativação do sistema de limpeza para ajudar a empurrar as secreções para a faringe, para serem engolidas (nos adultos, cuspidas).

Esta última não deve ser impedida (como por exemplo quando se administra um antitússico), mas antes ajudada, com a fluidificação das secreções (e os aerossóis ainda são a melhor forma de as hidratar). Não devem ser administrados xaropes antitússicos sem conselho médico, salvo quando os pais já têm conhecimentos e experiência de situações anteriores, devidamente observadas e debatidas com o médico-assistente. Nas laringites, por exemplo, em que há a conhecida «tosse de cão», são necessários xaropes.

«Se o seu filho adoeceu pela segunda ou terceira vez consecutiva ou está com febre há dois dias, deve dar-lhe antibiótico»

Não caia nesse erro. A esmagadora maioria das infeções
respiratórias é de origem viral e não bacteriana. Os antibióticos matam
bactérias. Se não há bactérias patogénicas, irão matar as bactérias boas
e abrir caminho a outras infeções.

Por isso, nunca deve administrar medicamentos, para além do
antipirético habitual (e só nas doses recomendadas, para evitar
intoxicações), sem prescrição médica.

O mau uso e abuso de antibióticos está a causar problemas
terapêuticos muito complicados, com a eclosão de estirpes resistentes,
exigindo fármacos cada vez mais potentes, mais caros e com mais efeitos
colaterais indesejáveis.

Texto: Joana Martinho e Ana Esteves com Mário Cordeiro (pediatra e professor na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa)