Desde 1988, em que foi publicado um relatório sobre estudos que demonstraram que o tabaco (a nicotina) causava dependência, que o tabagismo é considerado uma doença. Nessa sequência, em 1992, a Organização Mundial de Saúde (OMS) incluiu o tabagismo no grupo dos transtornos mentais e comportamentais decorrentes do uso de substâncias psicoativas, na Décima Revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-10).

Assim, o tabagismo é reconhecido como uma doença crónica gerada pela dependência da nicotina, e constitui, presentemente, a primeira causa isolada evitável de doença e de morte prematura nos países desenvolvidos, contribuindo para seis das oito primeiras causas de morte a nível mundial.

Segundo a OMS, o tabaco mata atualmente cerca de 7 milhões de pessoas todos os anos e poderá vir a matar mais de 8 milhões por ano, até 2030, se não forem intensificados os esforços de prevenção e controlo. De acordo com estimativas do Institute of Health Metrics and Evaluation, no ano de 2016, o tabaco contribuiu para a morte de mais de 11 800 pessoas residentes em Portugal, por doenças provocadas ou agravadas pelo consumo ou pela exposição ao fumo do tabaco.

O tabaco fumado em qualquer uma de suas formas causa até 1/3 de todos os casos de cancro e 90% de todos os cancros do pulmão. Os cancros mais frequentemente associados ao tabagismo são: pulmão, boca, lábio, língua, laringe, faringe, esófago, estômago, cólon, pâncreas, bexiga, rins, cólo do útero, entre outros.

É, também, causa de outras doenças do aparelho respiratório, como a bronquite crónica (75-80%), a asma e o enfisema; e de doenças do aparelho circulatório, como os acidentes vasculares cerebrais, o enfarte agudo do miocárdio (25%), a angina de peito e a doença arterial periférica (a qual pode levar a amputação de membros), e, por consequência, incapacidade e morte.

O tabaco lesa o endotélio, que é a camada que reveste internamente os vasos sanguíneos, o que facilita o aparecimento e progressão das placas de aterosclerose, que vão estreitando as artérias e provocando a sua oclusão. Também interfere com a produção de óxido nítrico nas artérias, levando o espasmo das mesmas. Tudo isto leva a que o sangue circule com mais dificuldade, facilitando ainda a formação de coágulos dentro dos vasos sanguíneos.

Por outro lado, embora ainda não haja evidência segura de que o tabaco contribua para a hipertensão arterial crónica, é um facto que eleva a pressão arterial imediatamente após cada fumaça, a qual se mantém temporariamente alta, o que também contribuiu para a lesão vascular. Acresce que o tabaco diminui a eficácia dos medicamentos anti-hipertensores.

Existe evidência de que o tabaco aumenta a resistência periférica à insulina e que diminui a eficácia dos fármacos antidiabéticos, pelo que é um fator de risco evitável para diabetes, a qual é uma doença que contribui muito e precocemente, entre outras consequências, para o desenvolvimento da aterosclerose.

Não é, pois, de admirar que o tabaco aumente o risco de todas as doenças secundárias à falta de irrigação de sangue. Assim, comparados aos não fumadores, estima-se que o tabagismo aumenta o risco de:

  • desenvolver doença coronária (responsável pelos enfartes do miocárdio) em 2 a 4 vezes;
  • desenvolver acidente vascular cerebral em 2 a 4 vezes; 
  • no homem, desenvolver cancro do pulmão em 23 vezes;
  • na mulher, desenvolver cancro do pulmão em 13 vezes; e
  • morrer de doenças pulmonares obstrutivas crónicas (como bronquite crónica e enfisema) em 12 a 13 vezes.

Vale a pena ainda referir o seguinte:

  • Na mulher, o tabagismo torna em média a menopausa 3 a 4 anos mais precoce
  • Na gravidez, o consumo regular de tabaco aumenta o risco de aborto espontâneo, de gravidez ectópica, de prematuridade, de baixo peso à nascença e de mortalidade perinatal. A nicotina e o alcatrão concentram-se três vezes mais no líquido amniótico do que na mãe, o que quer dizer que por cada 5 cigarros, o bebé “fuma” 15...

Há algum número de cigarros que desde que não seja ultrapassado não é prejudicial?

Nenhuma quantidade é segura. Na realidade, os efeitos do tabaco fazem-se sentir de imediato, fumaça a fumaça, para além de ser cumulativo, ao longo do período de consumo de tabaco, pelo que o risco individual é tanto maior quanto mais longo for o hábito.

Já foi referido que o tabaco aumenta o risco de numerosas doenças, nomeadamente do cancro do pulmão. Estima-se que os fumadores de 1 a 14 cigarros, 15 a 24 cigarros e mais de 25 cigarros diários têm, respetivamente, risco 8, 14 e 24 vezes maior de morte por este tipo de cancro do que pessoas que nunca fumaram. 

Salienta-se que também o fumador passivo está exposto aos malefícios do tabaco: o fumo ambiental do tabaco é nocivo para a saúde das pessoas expostas como referido previamente, sendo que se estima que os não fumadores cronicamente expostos ao fumo do tabaco apresentam um risco 30% maior de desenvolverem cancro do pulmão do que um não fumador não exposto, e um risco 24% maior de desenvolverem doenças cardiovasculares. 

Também os filhos de pais fumadores, quando comparados aos filhos de não fumadores, apresentam maior incidência de infeções e de outros problemas respiratórios, e taxas ligeiramente menores de função pulmonar à medida que o pulmão se desenvolve.

Assim, não existe, de acordo com a OMS, um nível seguro de exposição.  A proteção da exposição ao fumo ambiental do tabaco constitui, por este motivo, um imperativo no contexto das políticas de saúde pública. Não devemos esquecer que as substâncias do fumo do cigarro persistem no ar durante cerca de 6 horas após o cigarro ser fumado, e que também permanecem nas roupas, mobiliário, etc.

Quais as técnicas mais usadas e mais eficazes para deixar de fumar? Pode explicar um pouco essas técnicas?

Em primeiro lugar, é importante salientar que nunca é tarde demais para deixar de fumar: os benefícios existem em qualquer idade, embora quanto mais cedo se parar, maiores os benefícios.

Em segundo lugar, é importante saber que, por muito difícil que seja deixar de fumar, a falta do tabaco e os sintomas de privação do tabaco não são perigosos para a saúde.

As técnicas para deixar de fumar centram-se no doente, com a ajuda e orientação do profissional de saúde, baseando-se no apoio comportamental, no ensino, e no uso de medicação que diminui o desconforto dos sintomas de abstinência.

Por conseguinte, para deixar de fumar, o fumador tem de estar motivado, tem de querer deixar de fumar. Deve tomar conhecimento dos malefícios do tabaco para o coração e para a saúde em geral, saber que é possível parar de fumar mesmo após algumas tentativas sem sucesso, entender os níveis de dependência e que a necessidade imperiosa de fumar vem e passa, pelo que é muito importante que conheça as técnicas que auxiliam a parar de fumar, que aprenda a identificar as circunstâncias que estimulam a vontade de fumar e evitá-las. Deve Identificar e refletir sobre os motivos pessoais que estimulam a vontade de parar de fumar, buscar orientações sobre Programas de Tratamento do Tabagismo e conhecer os benefícios obtidos ao parar de fumar.

O profissional de saúde ajuda nesse processo motivacional e de conhecimento sobre a doença, fornecendo informação, dando apoio psicossocial, estabelecendo com o doente estratégias de cessação (quer comportamentais, quer com apoio farmacológico), e acompanhando o doente.

Dentro da terapêutica farmacológica de primeira linha, sempre utilizada em conjunto com a terapêutica motivacional e de acompanhamento não farmacológica, existem:

  • Os substitutos da nicotina, em formulações de administração por via oral (pastilhas, comprimidos, gomas) ou por via transdérmica (adesivos), em doses várias, que atuam por repor a dose diária de nicotina habitualmente consumida, diminuindo os sintomas de privação e ajudando o doente nas primeiras 8 a 12 semanas de tratamento, iniciando-se no dia da cessação tabágica. É fundamental o ensino da sua correta utilização, não estando estes fármacos sujeitos a receita médica
  • O agonista parcial para os recetores nicotínicos neuronais, que por um lado bloqueia os receptores mas também os estimula, diminuindo os sintomas de privação. De prescrição médica obrigatória, habitualmente, o tratamento inicia-se uma a duas semanas antes de deixar de fumar e prolonga-se por doze semanas.
  • O inibidor seletivo da recaptação neuronal das catecolaminas: diminui a imperiosidade de fumar e assim como o síndrome de privação. Deve ser iniciado ainda quando a pessoa fuma e está deve deixar de fumar durante as primeiras duas semanas de tratamento, preferencialmente na segunda semana. Também é um fármaco sujeito a receita médica obrigatória e a duração do tratamento é de oito a doze semanas.

A estratégia farmacológica depende das características clínicas do doente e os fármacos podem ser usados em associação, quando justificado, para aumentar a taxa de sucesso de cessação tabágica e para diminuir a possibilidade de recaída.

Quando se deixa de fumar, o que acontece no corpo? Ou seja, como recupera?

A cessação de fumar reduz consideravelmente o risco de morte por causas associadas ao tabaco, sendo que os fumadores morrem cerca de 10 anos mais cedo do que aqueles que nunca fumaram.

Deixar de fumar antes dos 30-34 anos de idade repõe a esperança média de vida ao nível do não fumador. Mesmo em idades superiores, é sempre benéfico e leva sempre a recuperação de anos de esperança de vida.

Após 20 minutos sem fumar, a pressão arterial e a frequência cardíaca voltam ao normal.

Após 12 horas, os níveis de monóxido de carbono no sangue normalizam.

Após 2 semanas a 3 meses sem fumar, a função pulmonar melhora, a circulação sanguínea melhora e a capacidade ao esforço aumenta; o risco de enfarte do miocárdio desce, e o paladar o o olfato melhoram. Os doentes diabéticos passam a controlar melhor a sua doença.

Após 1 a 9 meses, há uma sensação gradual de bem-estar geral, de mais vitalidade; a tosse e a falta de ar diminuem a respiração torna-se mais fácil.

Após um ano, o risco de ataque cardíaco desce para metade do valor prévio.

Após 2 a 5 anos, o risco de acidente vascular cerebral diminui, tornando-se semelhante ao dados não fumadores.

Após 5 anos, o risco de úlceras do estômago diminui, bem como o risco de cancro da bexiga, da boca, do esófago e da laringe reduz-se para metade.

Após 10 anos, diminui em 50% o risco de cancro do pulmão comparativamente com as pessoas que continuam a fumar. Reduz-se, também, o risco de cancro do pâncreas e do rim.

Após 15 anos, o risco enfarte do miocárdio torna-se idêntico ao do não fumador, do mesmo sexo e idade.

A ansiedade e a depressão diminuem, numa dimensão igual ou superior à de fármacos antidepressivos utilizados para o tratamento de perturbações do humor e da ansiedade.

Diminui o risco de demência vascular e de doença de Alzheimer.

Aumenta a fertilidade.

Na gravidez, o risco de bebé com baixo peso à nascença, de nado-morto e de mortalidade infantil nos primeiros 28 dias de vida desce para o normal se a mulher deixar de fumar antes de engravidar ou no primeiro trimestre da gravidez. 

Qual a composição de um cigarro?

O fumo do tabaco é uma mistura complexa e dinâmica de gases e partículas, na qual foram identificadas mais de 4000 substâncias. Destas, mais de 40 (como: nitrosaminas, acetaldeídos, cloreto de vinilo, arsénico, chumbo, níquel, cádmio, benzopirenos, estireno, etc) podem provocar cancro em diferentes localizações. 

Centenas são tóxicas e nocivas para todo o organismo humano, em particular para o sistema respiratório, o sistema cérebro e cardiovascular e a função sexual e reprodutiva. 

A nicotina é uma substância psicoativa, tóxica, que atinge o cérebro em poucos segundos após a sua entrada na corrente sanguínea, depois de inalada ou absorvida através das mucosas ou da pele. Vai-se ligar a receptores cerebrais que desencadeiam uma sensação de bem-estar, alívio e segurança. O seu uso prolongado produz alterações estruturais e funcionais no cérebro, tornando tão difícil e ambivalente (“quero, mas não consigo”) deixar de fumar.

Aos produtos do tabaco são também adicionadas diversas substâncias, como a amónia, o cacau, a glicerina, o mentol, a baunilha, aromatizantes, entre outras, cujas consequências para a saúde, uma vez queimadas e inaladas, nem sempre são bem conhecidas.

Mensagens finais

  • O tabagismo é uma doença de toxicodependência, autoinfligida, crónica e “contagiosa” para os não fumadores.
  • Constitui a maior causa de doença e de morte evitável no mundo.
  • O único modo seguro de fumar é mesmo não fumar, nem estar em contacto com ambientes “infetados” pelo fumo do tabaco.
  • Nunca é tarde demais para deixar de fumar: deixar de fumar é sempre benéfico para a saúde.
  • Deixar de fumar não é fácil, mas há consultas de apoio comportamental e medicamentos que aumentam muito o sucesso de não voltar a fumar.
  • Quer deixar de fumar? Excelente decisão! Não se esqueça de procurar ajuda: os profissionais de saúde estão à sua espera.

Um artigo da médica Mónica Mendes Pedro, especialista em Cardiologia.

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