As doenças da tiroide atingem, em todo o mundo, mais de 300 milhões de pessoas. Só em Portugal estima-se que afetem cerca de um milhão de pessoas. Números preocupantes, sobretudo se pensarmos que existem apenas cerca de 170 endocrinologistas em Portugal e que, apesar das doenças da tiróide serem muito frequentes, são pouco conhecidas e valorizadas. Além disso, muitas pessoas não sabem o que é a tiroide nem reconhecem a sua função no organismo. Comecemos então pelo início.

Sabe o que é a tiroide? Sabia que é uma glândula em forma de borboleta localizada na base do pescoço, à frente da traqueia e abaixo da maçã de adão. Pois é, é aqui que tudo começa. Quando a tiroide aumenta excessivamente a sua produção, estamos perante uma situação de hipertiroidismo, que pode manifestar-se por mais batimentos cardíacos, tremores, transpiração abundante, mais calor, cansaço marcado, emagrecimento e maior número de dejeções.

Por outro lado, sintomas como cansaço, lentificação global, obstipação, rouquidão, pele seca, cabelo quebradiço, podem relacionar-se com a diminuição da produção de hormonas tiroideias, constituindo o quadro de hipotiroidismo. De acordo com Isabel Torres, endocrinologista do Hospital Lusíadas Porto, são as mulheres as mais afetadas pelas perturbações do funcionamento da tiroide.

Para que serve?

A tiroide controla o metabolismo através da produção de duas hormonas, a triodotironina (também conhecida como T3) e a tiroxina (também conhecida como T4). A T4 tem apenas um efeito ligeiro na aceleração da velocidade dos processos metabólicos do corpo e converte-se no fígado e em outros órgãos numa forma metabolicamente mais activa, a T3. As hormonas tiroideias são essenciais para o funcionamento adequado de todos os tecidos e órgãos.

Estas permitem ao organismo utilizar as suas reservas de energia de modo eficiente, mantendo- o quente e assegurando um bom funcionamento dos músculos. Quando a produção de T3 e T4 pela tiroide diminui (hipotiroidismo), a produção de TSH (hormona estimuladora da tiróide) pela hipófise (glândula localizada na base do cérebro) aumenta.

Pelo contrário, se a tiroide produz hormonas em excesso (hipertiroidismo), a produção de TSH pela hipófise diminui. É deste modo que o organismo tenta regular o funcionamento da tiróide, mantendo os níveis de hormonas tiroideias no sangue dentro dos valores normais.

Como se diagnostica?

É importante valorizar devidamente a tiroide pois são muitas as doenças que lhe estão associadas. Felizmente, «são fáceis diagnosticar e de tratar», assegurou à Prevenir Jácome de Castro, diretor do Serviço de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo do Hospital Militar Principal, «porque os endocrinologistas têm uma grande capacidade de intervenção», justifica.

Para tal, em primeiro lugar, há que «falar com os doentes para conseguirmos perceber do que se queixam», defende o especialista. Posteriormente, deve-se desmistificar o mito de que são necessários muitos exames para a realização de um diagnóstico correto. «Temos de agir com parcimónia. Para alguns doentes, a prescrição de uma ecografia é útil mas não valerá a pena solicitar muitos mais exames de imagem», diz-nos.

Veja na página seguinte: As principais doenças da tiroide

As principais doenças da tiroide

Há dois grandes grupos de doenças da tiroide. Aquele em que a tiróide funciona mal (demais no caso do hipertiroidismo ou de menos no caso do hipotiroidismo) e aquele em que a tiróide cresce de forma desordenada com possibilidade de surgirem nódulos. «Uma análise ao sangue permite avaliar a quantidade de hormonas produzidas pela tiroide, auxiliando o médico no diagnóstico e na definição do melhor tratamento a seguir», explica a especialista.

Estas são as principais doenças da tiroide:

- Hipotiroidismo

É uma doença frequentemente autoimune em que as hormonas da tiroide estão em quantidade insuficiente em circulação e comprometem o normal funcionamento do organismo. «Este começa a produzir algumas substâncias intituladas de anti-corpos que inibem o seu funcionamento. Estima-se que 1% a 2% da população portuguesa sofra de hipotiroidismo», afirma Jácome de Castro. A lista de sintomas inclui um aumento da sensibilidade ao frio, fadiga, cansaço e queixas neurológicas.

Mas não se fica por aqui, podendo gerar um estado depressivo, prisão de ventre, alterações musculares, formigueiros, aumento de peso, alterações menstruais e/ou diminuição da frequência cardíaca, entre outros. Geralmente, o diagnóstico é confirmado através de um simples exame de sangue. Os valores que ajudam no diagnóstico do hipotiroidismo são a dosagem de TSH e a dosagem de T4 (tiroxina).

O diagnóstico de hipotiroidismo é confirmado quando o paciente apresenta TSH elevado e T4 baixo. «É muito gratificante tratar estes doentes porque conseguimos assegurar-lhes uma melhor qualidade de vida. Para isso, precisamos de diagnosticar, tratar e acompanhar os doentes, com a medicina geral e familiar», defende Jácome de Castro. O tratamento passa pela substituição das hormonas tiroideias.

«Com um bom tratamento, os doentes deverão ser capazes de ter uma vida normal», afirma o endocrinologista do Grupo de Estudos da Tiróide. Quando não tratado, o hipotiroidismo, não só diminui a qualidade de vida, como pode ter sérias complicações, entre as quais um ritmo cardíaco tão baixo que pode levar ao coma, alterações da tensão arterial e dos níveis de colesterol, que podem resultar em doenças cardíacas, infertilidade e doença de Alzheimer.

Veja na página seguinte: Os sintomas e a forma de diagnóstico do hipertiroidismo

- Hipertiroidismo

É uma perturbação causada pelo excesso de hormonas tiroideias no sangue. Ocorre quando a glândula tiroide ese encontra hiperativa. Esta patologia pode adoptar diversas formas que incluem a doença de Graves e o bócio tóxico nodular. Os principais sintomas são o nervosismo, insónias, ansiedade, irritabilidade, o aumento da frequência cardíaca, perda de peso, o aumento de apetite e/ou a intolerância ao calor.

A doença pode ser detetada com um simples teste de sangue para pesquisar os níveis de TSH. Apesar do tratamento ser eficaz, muitos pacientes ainda não estão diagnosticados e continuam a sofrer enquanto os seus sintomas estão a ser confundidos com outros quadros sistomatológicos, podendo passar anos com diagnósticos completamente errados, o que provoca um aumento da gravidade do problema.

Não existe um tratamento igual para todos os doentes com hipertiroidismo. A terapêutica, normalmente, é escolhida em função do tipo e severidade da patologia, da idade e das outras possíveis patologias do paciente. No caso do hipertiroidismo durante a gravidez, «exige uma vigilância muito mais apertada», explica Jácome de Castro.

 Dos nódulos ao cancro da tiroide

«Os nódulos com menos de um centímetro não têm significado clínico. A partir desse limite, os doentes devem ser referenciados ao endocrinologista e vigiados regularmente pelos clínicos gerais», indica o especialista. O cancro da tiroide apresenta-se, na maior parte das vezes, sob a forma de um nódulo. Ocasionalmente, sob a forma de gânglio linfático cervical aumentado, rouquidão, dificuldade em engolir ou respirar.

Em 90% dos casos, este tipo de cancro tem um bom prognóstico, pois a cirurgia é, na maior parte das vezes, curativa, não causa dor nem incapacidade e o tratamento de readiação é, geralmente, eficaz. O carcinoma da tiroide é mais frequente em pessoas que receberam tratamento de radiação na cabeça, no pescoço ou no peito. «A esmagadora maioria dos nódulos não são malignos e os que o são podem ser tratáveis na generalidade dos casos», conclui Jácome de Castro.

Texto: Cláudia Pinto com revisão científicade Jácome de Castro (coordenador do Grupo de Estudos de Tiróide da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo, SPEDM)

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