Pode um simples cogumelo eliminar o vírus responsável pelo cancro do colo do útero? Um médico português provou que sim e explica-nos tudo sobre a sua descoberta! Coriolus versicolor. Assim se chama um cogumelo que pode ser encontrado nas florestas europeias, no norte da América e na Ásia e que, devido às suas características imunoestimulantes, já é usado na medicina tradicional chinesa há vários séculos.

No nosso país, contudo, o Coriolus versicolor começou a ser usado no tratamento do Papilomavírus Humano (HPV), o vírus responsável pelo cancro do colo do útero, no início de 2008. "Os resultados são bastante positivos, podendo ser uma enorme esperança para muitas mulheres", noticiava, meses depois, a revista Saber Viver na sua edição impressa. Em Portugal, o cancro do colo do útero mata uma mulher por dia.

Tratamentos convencionais

Até há poucos anos, a única opção terapêutica para tratar mulheres infetadas com o HPV era a cirurgia e implicava a excisão ou ablação das lesões do colo do útero, que eram retiradas através de métodos cirúrgicos, como o laser ou a criocirurgia, como explicou na altura à edição impressa da Saber Viver José Silva Couto, entrevistado chefe de serviço de ginecologia do Instituto Português de Oncologia (IPO) de Coimbra.

"Não tínhamos capacidade de intervenção sobre a infeção viral propriamente dita", refere. "Tratávamos as lesões, mas não tínhamos segurança no tratamento da infeção viral, que induz a lesão", acrescenta ainda o especialista. As limitações são óbvias, uma vez que, "inicialmente, uma lesão pode ser pré-cancerosa mas, se persistir ou não for tratada pode, levar ao cancro do colo", esclarece o especialista.

Avanços na prevenção

No início deste século, fez-se muita investigação ao nível da criação de imunidade do organismo, de forma a prevenir a doença. "Sabíamos que o estado imunitário do organismo era muito importante na erradicação da infeção. E em 2001/2002, as últimas novidades eram a vacina como preventivo primário, para evitar a infeção", refere o especialista. O único senão era, e ainda é, o facto de as vacinas terem uma ação específica.

Como foi descobrir que tinha cancro no colo do útero
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Levam à produção de anticorpos dirigidos a apenas dois tipos de vírus, o 16 e o 18. "Estava a trabalhar na investigação da vacina contra o cancro do colo do útero quando me convidaram para participar num simpósio em Londres sobre os cogumelos Coriolus versicolor e a sua ação imunoestimulante", recorda José Silva Couto. "A grande vantagem deste cogumelo é possuir uma ação não específica", sublinha. "Não se dirige apenas a uma estirpe de vírus, mas é capaz de criar imunidade contra todos os tipos de vírus", recorda.

"Foi a partir daí que fiquei seduzido pelo tema e aceitei colaborar com um laboratório que me convidou para fazer um ensaio clínico. 40 doentes com lesões de baixo grau seguiram um protocolo de tratamento que incluía seis comprimidos por dia durante um ano e exames regulares de três em três meses. Findo o prazo, 72,5% das pacientes já não apresentavam lesões e, em 90% dos casos, o vírus tinha desaparecido", diz.

Os resultados das investigações laboratoriais

Apesar destas conclusões, estes cogumelos "não são a cura para o cancro do colo do útero", avisava, contudo, na altura, o especialista. Os resultados excelentes que José Silva Couto e outros médicos conseguiram com este tratamento só acontecem em determinadas condições. "Isto não vai substituir os tratamentos convencionais nem a vacina", vaticinava o especialista no fim da década de 2000.

"Todos eles são tratamentos complementares que temos ao nosso alcance para obter melhores resultados e convém lembrar que os cogumelos só deverão ser usados em casos com indicações claras", sublinhava o especialista na altura. De facto, o tratamento com Coriolus versicolor "tem algumas limitações e a sua ação só funciona em determinadas situações", reconheceu à revista José Silva Couto.

Medicamento versus suplemento

Em termos técnicos, o Coriolus versicolor não é um medicamento mas, sim, um suplemento alimentar. Por esta razão, as doentes que iniciarem tratamento com este cogumelo terão de o pagar na sua totalidade. "As regras para a introdução de um medicamento no mercado são complicadas e, para a maioria dos medicamentos naturais, mais complicado é", afirmava, na altura, o ginecologista.

"Penso que a situação vai ser mais facilitada com uma diretiva da União Europeia que saiu recentemente", acrescentou na mesma ocasião à revista feminina. "Até lá, uma embalagem com 90 comprimidos, que corresponde a duas semanas de tratamento, continuará a custar cerca de 25 €. Mas há quem garanta que vale cada cêntimo", assegurava o artigo publicado na edição impressa da Saber Viver.

Alvos certeiros

Estes são os casos que podem beneficiar da ação deste cogumelo:

- Citologia com atipia de significado indeterminado

É uma citologia que não está normal, mas não garante que haja uma lesão de alto grau. "Se constatarmos que a doente é portadora de uma estirpe de HPV de alto risco, sabemos que terá fortes probabilidades de vir a ter uma lesão de alto grau a curto prazo", explica José Silva Couto, ginecologista.

O tratamento com o cogumelo criará imunidade contra o vírus e se a infecção desaparecer a doente não terá qualquer lesão. Até agora, nestes casos, "se não víamos uma lesão evidente, não podíamos tratar a doente", comenta.

- Conização

Se, após a realização de uma conização, uma intervenção em que se retira, com laser ou electrocirurgia, uma parte do colo do útero que apresenta uma lesão de alto grau, se verificar, através de análises, que a doente ainda é portadora de uma estirpe de HPV de alto risco, há grandes probabilidades de ter uma recidiva. Se, com o cogumelo, se eliminar a infeção a probabilidade diminui ou até desaparece.

- Lesões de baixo grau

Embora alguns especialistas defendam que este tipo de lesões não necessita de tratamento, mas apenas de vigilância. "Se a doente tiver uma estirpe de vírus de alto risco, deverá fazer este tratamento o mais rapidamente possível", alerta José Silva Couto.

"O princípio é sempre o mesmo: se existe um vírus de alto risco, a doente tem fortíssimas probabilidades de vir a ter uma lesão de alto grau. Enquanto tiver o vírus, essa probabilidade mantém-se. Se o vírus desaparecer, a probabilidade será muitíssimo
reduzida", sublinha.

- Condilomas bulbares

É uma espécie de verruga que surge frequentemente no colo do útero. Apesar de, por norma, não possuir potencial oncológico, é comum o seu reaparecimento após um tratamento cirúrgico. Na opinião do especialista, o tratamento imunológico para combater esse reaparecimento deve ser feito com coriolus versicolor.

Texto: Alexandra Pereira e Luis Batista Gonçalves (edição digital)