Os números são assustadores. Mais de 50% da população mundial será obesa em 2025. Ainda assim, apesar de ser uma batalha difícil de vencer, também não é um objetivo impossível de atingir. "Sendo uma doença crónica, a obesidade requer tratamento multidisciplinar, com médicos, nutricionistas, psicólogos e psiquiatras, para toda a vida", sublinhou, em declarações à Prevenir, à Prevenir, Paula Freitas, a presidente da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO).

O primeiro passo a adotar está mais do que identificado. "O indivíduo deve dirigir-se aos cuidados primários de saúde e falar com o seu médico de família, que fará uma avaliação, verificando se se trata de uma obesidade exógena (estimulada por fatores externos ao organismo) ou se há alguma doença na sua origem e quais as repercussões que esta já tem na sua saúde", esclarece Paula Freitas.

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A lista inclui problemas de saúde como a diabetes, a hipertensão, o colesterol alto, o ácido úrico aumentado e as alterações nas articulações, situações que também comprometem o dia a dia das pessoas com excesso de peso. "Na dúvida, o doente poderá ser referenciado para uma consulta de, por exemplo, endocrinologia", realça a especialista, que aponta ainda os objetivos do tratamento.

"Tendo em conta que o peso tende a aumentar com a idade, o objetivo mínimo do tratamento seria impedir um maior ganho de peso. Contudo, o principal objetivo é promover a perda de peso, de modo a diminuir os fatores de risco que lhe estão associados, e, posteriormente, a sua manutenção a longo prazo para garantir uma melhoria na qualidade de vida", refere a presidente da SPEO.

Basta perder 5% do peso para haver benefícios

A percentagem não é grande. "No tratamento da obesidade, o mais importante não é a perda de peso, mas sim a redução ou mesmo a eliminação de doenças que lhe estão associadas, melhorando a qualidade de vida do doente. Para tal, basta que o doente perca entre 5% a 1% do seu peso, sendo que os benefícios aumentam quanto maior  for a perda de peso",  indica Paula Freitas, presidente da SPEO.

O que acontece logo no organismo é notório. Além da redução do risco de diabetes tipo 2, há também uma redução dos fatores de risco cardiovascular, melhorias do perfil lipídico, da pressão arterial e da severidade da apneia do sono, para além de melhorias na qualidade de vida em termos de saúde. Vantagens essenciais na melhoria da qualidade de vida das pessoas com excesso e peso.

O estilo de vida é a base de tudo

Independentemente do tipo de tratamento utilizado, cirúrgico ou farmacológico, uma coisa é certa. "A adoção de hábitos de vida saudáveis e equilibrados, com orientações no que toca ao consumo alimentar e à prática regular de exercício físico, é essencial não só para os indivíduos obesos, como para quem tem excesso de peso", explica Paula Freitas. Uma constatação que abre portas a uma outra.

"A intervenção dietética, aliada à prática regular de exercício físico, consegue reduções de peso na ordem dos 3% a 5%", explica Paula Freitas. (Re)aprender a comer passa a ser uma nova realidade para quem pretende fazer descer os números da balança. "As orientações dadas ao doente no que toca à sua reeducação alimentar devem ser estruturadas e individualizadas", sublinha.

"Contudo, há estratégias que habitualmente utilizamos para que o doente consiga adotar de forma progressiva hábitos mais saudáveis", refere ainda a presidente da SPEO. Negociar hábitos é outra etapa essencial. "Numa primeira fase, tentamos negociar com o doente, avaliando os erros que mais comete e definindo objetivos", esclarece a especialista portuguesa.

"Por exemplo, se consome muitos refrigerantes, propomos que os reduza numa determinada quantidade até à consulta seguinte, até que abandone o seu consumo por completo", exemplifica. Cortar nas calorias é outra das imposições. "Muitas vezes, a única coisa que se faz é restringir 500 calorias diárias ao que o indivíduo normalmente ingere", afirma a especialista.

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Registar as refeições é outro dos conselhos. "Outra estratégia que podemos adotar são os diários alimentares, onde os doentes descreverem a sua alimentação", afirma a presidente da SPEO, que também aponta o exercício físico como uma parte fundamental do processo. "Para alguém que é sedentário e não faz qualquer tipo de exercício, só o facto de passar a passear o cão todos os dias já é positivo", sublinha, contudo.

"O mínimo que podemos aconselhar seria que o doente fizesse entre 45 e 60 minutos de marcha, cinco dias por semana. No entanto, para obter resultados visíveis, o ideal seria ter seguimento de um fisiologista do exercício físico, que poderá elaborar um plano adaptado às limitações funcionais do doente obeso, por exemplo, a nível articular", refere a presidente da SPEO.

O acompanhamento psicológico é outro dos vértices deste plano. "É feito sempre que um doente esteja sinalizado para tal. A nível hospitalar, o acompanhamento psicológico está indicado para os doentes submetidos a cirurgia bariátrica, antes e após a intervenção. Além disso, também deve ser feito no casos de indivíduos com compulsão alimentar", explica Paula Freitas.

Os medicamentos para tratar a obesidade a que pode recorrer

Nem todos servem. "Para que seja aprovado, um fármaco para o tratamento da obesidade tem de demonstrar eficácia na redução do peso de, no mínimo, 5%, assim como segurança para o doente, sobretudo do ponto de vista cardiovascular e psiquiátrico", revela a presidente da SPEO. Os que se seguem são os únicos medicamentos de prescrição médica aprovados para combater a obesidade.

"O tratamento farmacológico está indicado para obesos com IMC superior a 27 kg/m2 com doenças associadas ou com IMC superior a 30 kg/m2", esclarece a especialista, que aponta como exemplo um fármaco que já existia no mercado, o Orlistato. "Atua a nível gastrointestinal, promovendo a excreção de cerca de 30% da gordura ingerida através das fezes e, consequentemente, a perda de peso", elucida.

Tem, contudo, uma desvantagem. "Não é comparticipado. Atualmente é um medicamento de venda livre", explica Paula Freitas. Os resultados até agora obtidos são promissores. "Nos estudos realizados, doentes perderam, em média, 6,9 quilos. A sua eficácia é mais reduzida em pessoas que fazem uma dieta com baixo teor de gordura", esclarece a presidente da SPEO.

O medicamento apenas atua na presença da gordura proveniente dos alimentos e, por isso, a sua toma deve ser feita a cada uma das três refeições principais. Os efeitos secundários também são conhecidos e, à semelhança de outros fármacos, não podem ser descurados. Pode causar alterações nos hábitos intestinais, tais como fezes gordurosas, devido à eliminação da gordura não digerida nas fezes.

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Liraglutido, outro medicamento a considerar por quem pretende travar a obesidade, é uma das novidades no mercado. "É um fármaco de prescrição médica que atua sobretudo a nível do sistema nervoso central na redução do apetite e no aumento da saciedade. Também atua a nível gastrointestinal, diminuindo a sua motilidade, o que aumenta a saciedade", garante Paula Freitas.

"É um análogo do GLP-1, uma hormona produzida no intestino quando ingerimos alimentos e que atua reduzindo o apetite e que se encontra diminuída em obesos ou diabéticos", explica a presidente da SPEO. O medicamento não é comparticipado e custa cerca de 250 € por embalagem. O preço a pagar para conseguir alcançar resultados que já se tornaram públicos.

"Permitiu perdas de peso na ordem dos 12 quilos e, em termos de percentagens, uma perda 8% face ao peso inicial. 81% dos indivíduos mantiveram o peso perdido", afirma Paula Freitas. "Deve ser tomado na dose dos 3 miligramas e, para evitar a ocorrência de certos efeitos secundários [náusea, vómito e/ou diarreia, por exemplo], é feita uma escalada progressiva para que haja uma habituação do organismo", diz.

A cirurgia como último recurso

Antes de ser submetido a cirurgia bariátrica, a Organização Mundial de Saúde (OMS) determina que o doente deve tentar perder peso através de planos alimentares, atividade física, psicoterapia, mudança de hábitos  e medicação durante pelo menos dois anos, como descrevemos anteriormente. Apenas quando nenhuma destas opções resulta, o doente é sinalizado para cirurgia.

"A cirurgia bariátrica, que permite uma redução do peso superior a 15% ou 20%, está indicada para doentes com um IMC superior a 35 kg/m2 com doenças associadas ou um IMC superior a 40 kg/m2", esclarece a presidente da SPEO. O tipo de cirurgia, que pode passar por uma banda gástrica, por um sleeve gástrico ou por um bypass gástrico, será determinado de acordo com o perfil clínico do doente.

Para assegurar a eficácia da cirurgia e alcançar os objetivos pretendidos, é fundamental o acompanhamento de uma equipa multidisciplinar, composta por uma pool de médicos, nutricionistas, cirurgiões e psicólogos, que irá avaliar o doente em todos estes aspetos e os seus hábitos diários, definindo quais deverá mudar, e estabelecer planos alimentares pré e pós-operatórios. O doente necessita de acompanhamento ao longo de todo o processo, principalmente durante os primeiros três anos.

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