Num enorme descampado à beira da rodovia, entre nuvens de poeira levantada por dezenas de camiões, 400 trabalhadores trabalham dia e noite desde julho.

Os misturadores de concreto giram a todo vapor, as mangueiras lançam galões e galões de cimento, e os soldas soltam fagulhas das altas colunas que compõem o esqueleto do prédio.

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"Há dois meses, não havia nada aqui", diz Alejo Mirando, diretor-geral de Infraestrutura da região de Madrid, principal foco da epidemia na Espanha nos meses de março e abril.

Com um custo de mais de 50 milhões de euros, o Hospital Isabel Zendal, agora apelidado de "hospital pandémico", terá 45.000 m2 para acolher mais de 1.000 doentes em caso de crise de saúde.

Janelas para controlar pacientes sem infeção, enormes saguões sem quartos individuais, salas de pressão negativa para necropsias: a arquitetura é toda pensada para "evitar a transmissão de carga viral" e é inspirada no pavilhão de congressos Ifema, explica Mirando, referindo-se ao espaço convertido em hospital de campanha entre março e maio.

Prometido para preparar melhor a região para uma segunda onda da pandemia, o hospital será entregue tarde demais para atender ao aumento de pacientes, que o sistema de saúde já tem de administrar.

"À beira do colapso"

"Estamos preocupados com o estado da saúde pública e com a evolução da epidemia em Madrid", admitiu o chefe do governo espanhol, Pedro Sánchez, na última segunda-feira (31).

Com mais de 6,5 milhões de habitantes, Madrid representa, desde o início da pandemia, cerca de um terço das 29.000 mortes por COVID-19 no país. Na semana passada, 73 dos 191 óbitos foram registados na região da capital.

"A situação é muito, muito preocupante", concorda a Silvia Durán, porta-voz da associação de médicos Amyts, apontando a "rápida progressão" da curva de contágio, "semelhante à do início da pandemia".

"Os centros de saúde [com a função de atenção primária] são os que, neste momento, estão a conter esta segunda onda", mas "os hospitais já estão a preparar-se", com 16% das camas ocupados por pacientes com COVID-19 (contra 6% no restante do país), explica.

"Estamos à beira do colapso", alerta José Molero, do sindicato CSIT. "O próximo nível vai ser quando a população for diretamente para o hospital e não passar pelos postos de atendimento primário", afirma.

Enquanto isso, os médicos reclamam contra a falta de pessoal, de recursos e de descanso. Estão "exaustos", exaustos porque recebem "até 60 pacientes" por dia, diz.

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"Área de alto risco"

Densamente povoada e altamente conectada com o restante do país, Madrid é "uma área de alto risco", afirmou o epidemiologista-chefe do Ministério da Saúde, Fernando Simón, na segunda-feira.

Apesar do cenário atual, o governo regional, responsável pela gestão da saúde, pede calma. A situação não é "comparável aos meses de março e abril", já que os positivos são muito mais jovens, e a taxa de mortalidade, muito inferior, alegou o ministro regional da Saúde, Enrique Ruiz Escudero, esta sexta-feira.

Na sequência, o ministro anunciou novas medidas, como limitar reuniões privadas em ambientes fechados e ao ar livre a dez pessoas, ou proibir dançar em casamentos.

Governada pelo conservador Partido Popular, a região acabou por pedir ajuda para o rastreio dos contactos de pessoas contaminadas, recebendo 150 militares disponibilizados pelo governo de Pedro Sánchez. O anúncio foi insuficiente.

Um coletivo médico pensa processar o governo regional e centenas de profissionais pediram que "aja para evitar um novo colapso do sistema". Os profissionais de saúde também pedem mais contratações e incentivam o trabalho remoto, quando possível, para evitar serem infetados.

"Somos nós que vamos adoecer", adverte Silvia Durán, lembrando que Espanha teve o recorde mundial de profissionais de saúde infetados em abril (20% do total), segundo relatório da Agência Europeia de Saúde.

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