Lembro-me de sair disparado da sala de aula, como se o toque da campainha fosse uma libertação. O intervalo era território sagrado – corríamos para os campos de futebol, de andebol, de basquetebol. A mesa de pingue-pongue era disputada como se fosse um troféu olímpico. O barulho era ensurdecedor, mas era o som da vida.
Hoje, ao passar por uma escola ao meio-dia, senti um arrepio. Os campos estavam vazios. A mesa de pingue-pongue intacta. Um silêncio quase litúrgico pairava no ar. As crianças, sentadas em pequenos grupos ou sozinhas, de cabeça baixa. Não em oração, mas hipnotizadas pelo brilho de um ecrã. Agarradas ao telemóvel como se fosse um prolongamento do corpo.
O recreio morreu. E ninguém foi ao funeral.
Ficou o silêncio e a ansiedade. Ficou a incapacidade de brincar sem ser através de um filtro. Hoje, os miúdos não fazem asneiras porque têm medo que alguém esteja a gravar. Não se soltam porque tudo pode virar ‘story’. O direito à espontaneidade foi substituído pelo pânico da exposição. E as consequências não são apenas nostálgicas – são clínicas.
Sabemos, com evidência científica, que o uso excessivo de telemóveis está associado ao aumento da inatividade física (Twenge & Campbell, 2018), à diminuição da qualidade do sono (Carter et al., 2016), à baixa concentração e até à depressão em idade escolar (Keles, McCrae & Grealish, 2020). É o novo ópio da infância – disponível 24h por dia, sem prescrição e sem controlo.
Ontem foram publicados os rankings das escolas e, ao ler uma notícia, achei-a esperançosa e reconfortante: a Escola Básica e Secundária Ferreira da Silva, no concelho de Oliveira de Azeméis, distrito de Aveiro, foi, em 2024, o estabelecimento de ensino público com melhor média nos exames nacionais. Desde 6 de janeiro, implementou a proibição total do uso de telemóveis em todo o recinto escolar – medida que antes se aplicava apenas à sala de aula. Resultado? As notas subiram. A interação entre alunos cresceu. O ruído voltou. Os recreios ganharam vida.
Disse o diretor: “Há muito barulho, muita ação – os alunos ganharam vida”. Disse um aluno: “Começámos a conhecer-nos cara a cara”. Disseram os pais: “Foi uma medida corajosa”.
Coragem. É disso que precisamos. Da parte dos diretores, das associações de pais, dos decisores políticos. Precisamos de mais escolas com recreios vivos. De mais Unidades Locais de Saúde, autarquias e Estado que apostem na saúde escolar. Os enfermeiros especialistas são, atualmente, os profissionais que mais intervêm no terreno no âmbito do Programa Nacional de Saúde Escolar, assegurando um acompanhamento regular, próximo e conhecedor dos contextos familiares e escolares. Fazem-no em complementaridade com psicólogos, nutricionistas, médicos de saúde pública e assistentes sociais, construindo respostas integradas. Algumas escolas privadas já contratam, a tempo inteiro, enfermeiros. Que espera o setor público?
Proibir telemóveis no recreio não é repressivo. É libertador. É permitir que a infância tenha espaço para acontecer.
Enquanto isso não acontece, ficamos com os campos vazios e os recreios calados.
A inação, essa sim, é perigosa.
Obrigado por ler este artigo. Agora desligue o ecrã. Vá dar uma caminhada. Leia um livro. Mexa-se. E se tiver filhos, pergunte-lhes:
“Hoje, no recreio… brincaste?”
Referências:
- Twenge, J. M., & Campbell, W. K. (2018). Associations between screen time and lower psychological well-being among children and adolescents: Evidence from a population-based study. Preventive Medicine Reports, 12, 271–283.
Ler o estudo - Carter, B., Rees, P., Hale, L., Bhattacharjee, D., & Paradkar, M. S. (2016). Association Between Portable Screen-Based Media Device Access or Use and Sleep Outcomes: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Pediatrics, 170(12), 1202–1208.
Ler o estudo - Keles, B., McCrae, N., & Grealish, A. (2020). A systematic review: the influence of social media on depression, anxiety and psychological distress in adolescents. International Journal of Adolescence and Youth, 25(1), 79–93.
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