- O Almeida e o Vieira voltaram à prisão - disse-me o Fernandes da Silva, com cara de ontem. Sabia que estavam em cadeias diferentes, um em Bragança e o outro na Guarda, salvo erro.

- Um deles levou quatro, o outro levou sete - acrescentou o Matos de Oliveira.

- Anos?! - perguntei eu, espantado.

- Achas? Telemóveis. Um meteu quatro e o outro meteu sete no nalguedo. Sem arrotar. São uns profissionais, portanto.

Percebi, de imediato, que "voltar à prisão" não seria apenas um regresso ao cárcere, mas também um regresso à obstipação. A sorte de ambos foi terem sido apanhados por um guarda prisional. Se tinha sido um técnico da higiene e segurança no trabalho, tinham ali um problema para a vida. É que estes, quando pegam de ponta, não deixam ninguém trabalhar. Fechavam-lhes o ganha pão e nem mais um telemóvel conseguiam meter dentro da prisão.

Olhando para trás (expressão irónica neste contexto), percebo que há muito que deviam meter telemóveis no esfíncter. A última vez que liguei ao Vieira só ouvi "pu pu pu". Desliguei por pensar que estava interrompido, mas afinal devo ter ligado para o sexto telemóvel que devia ter a chamada em espera, por ainda ter cinco telemóveis à sua frente. Evitava ligar e desligar imediatamente, porque dar um toque a quem tem um telemóvel no ânus pode ser considerado toque rectal e ainda enviavam a conta das chamadas para o seguro de saúde.

Consta-se que o Vieira só foi apanhado por causa da sua teimosia. Se o plano correu mal foi porque os telemóveis caíram e, ao que parece, toda a gente o tinha avisado para trilhar os sete telemóveis com um oitavo, para fazer de cunha. Mas ele sai à avó paterna, que é teimosa como uma mula, e facilitou.

O que me espanta é que, quem os conhece, sabe que sempre foram uns bad boys. Viveram no limite, capazes de tirar a vida a alguém em troca de um papo seco e passaram a vida a amedrontar quem se regia por regras, o que os levou inevitavelmente à prisão. Era tamanha a valentia que não foram capazes de trocar dez euros para comprar uma mala a tiracolo para transportar os telemóveis, acabando por levar tudo no rabo.

O lado positivo é que ambos são a favor de medidas ambientais. Já os imagino a serem questionados no hipermercado:

- Quer um saquinho?

- Não é preciso, eu tenho onde levar. Tenho só de tirar 3 telemóveis para ganhar espaço.

Poupa-se um saco, estraga-se um pacote e ganha o ambiente. Quem tem estes princípios deve fazer a higiene na prisão com sabonete líquido, por ter uma consistência que demora mais a apanhar.

Passaram de valentes a alvo de escárnio. Ouve-se nos corredores da prisão que não foram comprar os telemóveis "à NOS", mas sim "à NUS", questionam se os telemóveis vinham com caixa e se o estabelecimento prisional lhes abriu um processo ou se já vinha aberto.

Não é que me queira meter na vida deles, nada disso. Mas, por uma questão de logística, se tinham forçosamente de meter algo no traseiro, não teria sido melhor levar um telemóvel desbloqueado e alguns cartões? Cada um sabe de si, é certo, são maneiras diferentes de ver a vida. O que deu conta do Almeida e do Vieira foi a Ryanair. Nunca foram bons a acondicionar a carga e acabavam sempre por mandar a bagagem para o porão.

Estes casos são o reflexo de uma sociedade já de si podre, que só valoriza o que vem nas notícias. Ainda não ouvi ninguém a falar dos outros reclusos que tiveram de levar no ânus os carregadores e as fichas triplas, porque os telemóveis não se carregam sozinhos.

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