Dizer que a vida é madrasta transmite-nos o seu lado depreciativo, ao mesmo tempo que nos mostra a ingratidão da nossa língua. Há madrastas bem melhores que a vida de muitas mães. Usamos muitas expressões e acreditamos na sua carga negativa, quase da mesma forma em que acreditamos num bom amigo. Adjectivar um amigo de "bom" ou é um pleonasmo ou andamos a banalizar a amizade. Os amigos querem-nos bem e tentam sempre ajudar, mesmo que errem pelo excesso de zelo.

"Toma este medicamento que eu tive os mesmos sintomas e fiquei bem", "deixa o computador em minha casa que eu vi na internet como arranjar isso", "vi no Youtube como consertar o teu ar condicionado" ou "compras umas cervejas e vamos a tua casa arranjar o telhado". A contenção de custos obrigou-nos a saber reinventar, apesar de já termos o factor de risco de sermos portugueses. Invadir a profissão alheia é perigoso. Achamos legítimo fazê-lo por nos sentirmos capazes, mas ilegítimo quando invadem a nossa, com riscos acrescidos pela má prática. Imaginem que esta capacidade de ser biscateiro do labor alheio chega ao consultório sentimental das revistas cor-de-rosa e temos pessoas a dar conselhos de áreas que não dominam:

Rui, 32 anos: “Tenho 32 anos e sou um homem saudável. Comecei a viver com uma mulher e começámos a falar em ter filhos. No entanto, assaltou-me o medo de que eu possa ser estéril, pois tenho um tio que é. Gostaria de saber como se faz o teste de infertilidade.”

O melhor conselho que lhe posso dar é nunca ingressar na função pública. Senão, ao tempo que vai passar a coçar os testículos, vai ter orgasmos de 5 em 5 minutos

Biscateiro do labor alheio: "Olá Rui. Devemos sempre confirmar o problema de base. Confirme primeiro se o seu tio é mesmo estéril. Diga-lhe para ter relações com a sua esposa. Se ela engravidar, problema resolvido. Ah, e não se preocupe: já sabe que pai é quem cria. Se se confirmar que o seu tio é mesmo infértil, volte a escrever-me, porque assim já temos dados mais concretos." 

Há uma segurança invejável em quem não domina os assuntos, transversal a qualquer temática, inclusive do foro testicular:

João, 27 anos: "Quando estamos a fazer sexo e ela me acaricia os testículos eu tenho logo um orgasmo, por mais que tente aguentar-me. Será que devo encarar isto como um problema? Aconselha-me a procurar ajuda médica? Por favor, ajude-me…" 

Biscateiro do labor alheio: "Olá João. Não se preocupe que eu ajudo-o. O melhor conselho que lhe posso dar é nunca ingressar na função pública. Senão, ao tempo que vai passar a coçar os testículos, vai ter orgasmos de 5 em 5 minutos." 

Para criar empatia com outra pessoa sobre um problema que não se domina, é importante criar uma relação estreita com os problemas do dia-a-dia:

Renato, 25 anos: “Quando tenho relações sexuais ejaculo muito rapidamente e não tenho a mesma reacção sexual que tinha dantes. Tenho apenas 28 anos, o que me deixa assustado.”

Biscateiro do labor alheio: "Olá Renato. Não se preocupe e, desde já, dou-lhe os meus parabéns porque, para todos os efeitos, cumpriu com aquilo a que se comprometeu. Pense que fica com o resto do dia livre, tempo que lhe vai ser bastante útil para as burocracias existentes neste país. Não imagina a fila que estava ontem na loja do cidadão..."

Experimente fazer banhos de assento com azeite. É o que a minha avó costuma fazer cá em casa na consoada, quando o bacalhau fica seco

Apelar a memórias familiares é sempre uma forma eficaz de fomentar um argumento que desconhecemos:

Natércia, 49 anos: "Sou casada há cinco anos e ultimamente tenho tido problemas no trabalho que se estão a reflectir em casa. Chego cansada e quando tentamos fazer amor não tenho lubrificação suficiente.”

Biscateiro do labor alheio: "Olá Natércia. Experimente fazer banhos de assento com azeite. É o que a minha avó costuma fazer cá em casa na consoada, quando o bacalhau fica seco. É um truque caseiro que nos alegra sempre a ceia de Natal."

Fraccionar uma resposta transmite segurança e facilita-a:

Anabela, 60 anos: "Já tenho 60 anos mas conheci um senhor com quem gosto muito de estar. Os sentimentos dele são recíprocos e estamos a pensar em casar. No entanto, sinto-me receosa, porque ainda sou virgem. Ainda estou a tempo de iniciar a minha vida sexual? Que cuidados devo ter?"

Biscateiro do labor alheio: "Olá Anabela. Quanto aos cuidados, deve ter três:

1 - Cuidado para não acordar os vizinhos;

2 - Cuidado para, quando tiver um orgasmo, não tocar em nada que tenha corrente eléctrica. Com tanta energia acumulada pode meter o quadro eléctrico do prédio abaixo;

3- Em 60 anos muita coisa mudou, incluindo a depilação. Se optar por não se depilar, unte-se toda com mel. Com tanto terreno para desbravar, só mesmo um urso."

Exercer uma área que não dominamos é arriscado. Era o mesmo que termos políticos em cargos importantes, sem conhecimentos nem qualidades para tal, a decidir o futuro do país. A sorte é que isso não acontece, caso contrário precisaríamos de um consultório sentimental do Estado por este fecundar o povo, sem qualquer tipo consentimento.

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