“A pandemia tornou claro que esta crise é uma crise das mulheres. (…) A violência doméstica aumentou pelo menos 30% na maioria dos países europeus. Além disso, o fardo do trabalho doméstico que já era feito, em larga medida, por mulheres, também ganhou outras dimensões, como conciliar a telescola e o teletrabalho. E, no mercado de trabalho, eram, e são, as mulheres as heroínas da sociedade que estão na linha da frente: 75% dos empregos com relevância sistémica são levados a cabo por mulheres, de hospitais a lares, professoras, empregadas de limpeza e lojistas”, diz à Lusa Evelyn Regner na véspera do Dia Internacional da Mulher.

A eurodeputada da Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas (S&D, na sigla em inglês) no Parlamento Europeu (PE) considera assim que a atual pandemia de covid-19 “aumentou dramaticamente” as desigualdades já existentes entre homens e mulheres, sublinhando que “setores com um grande número de mulheres” foram os que mais sofreram com o desemprego derivado da pandemia.

“As mulheres foram empurradas para fora do mercado de trabalho, arriscando a sua independência económica, tão crucial para conseguir afastar as mulheres de círculos viciosos de violência doméstica”, aponta Evelyn Regner.

Nesse âmbito, a eurodeputada defende que os Planos Nacionais de Recuperação e Resiliência (PRR) devem ser utilizados para “ajudar as mulheres” e “mitigar os efeitos adversos da pandemia” na igualdade de género, uma ideia avançada pela Comissão Europeia que insta os Estados-membros a utilizarem os fundos do PRR para promover avanços nessa área.

“Cabe agora aos Governos nacionais pô-lo em prática: demos-lhes um quadro e agora precisam de implementar uma transversalização da dimensão de género. Um pacto de cuidados para a Europa, que insista em trabalhos de alta qualidade nos cuidados das crianças aos mais idosos, beneficiaria não apenas as mulheres, mas o conjunto da sociedade e a transição verde e digital”, frisa.

A responsável saúda assim os esforços da atual presidência portuguesa do Conselho da UE, que se comprometeu a “garantir que o Pilar Social [da UE] atenta à perspetiva de género”, nas palavras da ministra da Presidência, Mariana Vieira da Silva, durante uma audiência, em 27 de janeiro, na comissão a que Evelyn Regner preside.

Referindo que a presidência portuguesa está a “mostrar muita ambição” na questão da igualdade de género, a eurodeputada salienta ser “exatamente” isso que a UE “precisa agora”.

“Espero que o compromisso leve a ações no Conselho e nós [Parlamento Europeu] estamos prontos para fazer avançar dossiês bloqueados, como a diretiva relativa às mulheres em conselhos de administração, mas também outras iniciativas para promover os direitos das mulheres e a igualdade de género”, frisa.

A eurodeputada reconhece, no entanto, que a oposição de certos Estados-membros na causa dos direitos das mulheres se mantém “feroz”: na Polónia, por exemplo, entrou em vigor a 28 de janeiro uma lei que proíbe de facto os abortos, permitindo que a gravidez seja apenas interrompida em casos de violação, incesto ou quando a vida da mãe está em perigo.

“Por isso, as vozes dos progressistas têm de se manter fortes e muito audíveis. Estas crises podem tornar-se numa oportunidade para intensificar ações contra a violência de género. Neste aspeto, esperamos uma proposta da Comissão Europeia até ao final deste ano e, finalmente, durante esta semana, apresentaram uma diretiva para combater a diferença nos salários entre homens e mulheres”, informa.

Até porque, segundo a eurodeputada, ainda que seja difícil antever a maneira como a “pandemia irá afetar e remodelar” a sociedade, há “sinais preocupantes” tendo em conta que as “gerações mais jovens” ficaram mais expostas “à violência e ao desespero”.

“Haverá definitivamente um impacto negativo duradouro se não mitigarmos isto imediatamente. É por isso que estamos tão ativos na promoção de mais ações em todas as áreas da igualdade de género”, afirma.

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