As épocas festivas estão directamente ligadas à união, à família. À parte de todo o consumismo inerente, o Natal simboliza tudo aquilo que, durante o ano, nos vamos esforçando por lembrar em vão. Ora porque o trabalho é muito, ora porque “amanhã logo vemos” – porque é demasiado característico do ser humano a promessa de se ser feliz depois.

O Natal vai claramente além do que significa realmente. Não vejo muita gente preocupada em questionar os 2019 anos de Jesus Cristo, já que nem os parabéns lhe cantam. Com a monopolização do mundo, muito provavelmente o local onde Jesus nasceu, em Belém, já é um hostel e a manjedoura já foi leiloada a um preço bastante inferior ao de uma banana com fita adesiva na parede, porque a arte não se questiona: sente-se.

Isto de nascer sem pecado dá muito mais trabalho, criam-se guerras que parecem não compensar o que se ganha em higiene.
O problema inerente à felicidade acoplada a uma época festiva marcada pela união, é quando tudo isso deixa de existir. A perda leva consigo o significado e inverte os papéis. Passamos a viver por comparação a tudo aquilo que já foi. A mesa vazia, o lugar desocupado, os olhares cruzadosque se falam sem se tocarem. Não se dialoga, não para se esquecer, mas com o intuito de não relembrar mais. Porque não é preciso. O ninho vazio leva à adaptação e ao desconforto de vivermos com ela. Passamos a não desfrutar do momento e a viver do ajuste e do consolo de frases pré-feitas, porque a morte vai sempre resumir-se ao paradoxo de “é a vida”.

Passamos a viver do passado, com receio do futuro. Imaginamos o ano que passou e, por comparação, tememos o próximo. O tempo traz a acalmia de nos permitirmos expressar, dos olhos não incitarem à chuva, de haver espaço para a homenagem e da memória se tornar (agora) mais companheira do que nunca. Sem querer, fá-los voltar e o sorriso surge, envergonhado, de quem os lembra.

As datas especiais estarão sempre envoltas na dicotomia da vida. Somos responsáveis por dar vida a quem esta nos tirou. Vive-se na consideração de “como gostariam que fosse” e, sem querer, tornamo-los presentes.

O Natal, mais do que nunca, é deles. Nós temos a função de o aproveitar, não esquecendo quem teve o desaire de ser apanhado pelo desenrolar da vida. Amanhã, logo vemos.

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