20 de dezembro de 2013 - 09h35

Os trabalhadores sexuais masculinos de Lisboa são maioritariamente brasileiros, jovens e trabalham em apartamentos e na rua, sendo os seus clientes na maioria homens, casados e da classe média-alta, revela um estudo hoje divulgado.

O retrato dos trabalhadores sexuais masculinos é traçado num projeto de intervenção que está a ser realizado desde 2011 por uma equipa técnica da Liga Portuguesa Contra a Sida (LPCS) junto de 149 trabalhadores e cujos resultados foram divulgados na conferência promovida pela Liga “Encontros (In)Seguros).

Segundo o projeto “Encontros (In)Seguros”, estes trabalhadores têm uma média de 29 anos, são solteiros, desempregados, homossexuais, brasileiros, a maioria legais, com o ensino secundário e uma localização incerta.

A presidente da LPCS adiantou à agência Lusa que 37% dos trabalhadores estão em Portugal há mais de cinco anos e 32% há menos de cinco.

O trabalho sexual é a principal fonte de rendimentos destes trabalhadores, que se relacionam “emocionalmente e sexualmente entre eles”, adiantou Maria Eugénia Saraiva.

Segundo Eugénia Saraiva, o projeto visou “uma intervenção integrada junto dos homens que têm sexo com homens em contexto de trabalho sexual na cidade de Lisboa”.

Trata-se de uma população “escondida”, que leva uma vida à margem da sociedade, o que dificulta o acesso aos programas de prevenção dirigidos à população geral.

Segundo o investigador do projeto, Henrique Pereira, o estudo permitiu, pela primeira vez, caracterizar esta população em Lisboa.

Os resultados do projeto indicam que a criminalização do trabalho sexual pode constituir o fator com maior impacto na vulnerabilidade destes trabalhadores.

“Fatores como o estigma e a discriminação afastam os trabalhadores sexuais dos serviços de saúde, e a ocorrência de violações e outras formas de violência não são denunciadas por temerem o contacto com as forças de segurança”, explicou o investigador.

O projeto, cofinanciado pelo Programa ADIS/SIDA, constatou que os
trabalhadores sexuais apresentam-se “maioritariamente assertivos na
utilização do preservativo com clientes, descurando a sua utilização nas
relações emocionais com os companheiros”.

“Trata-se de uma necessidade de distinção entre a relação sexual
profissional e o envolvimento sexual numa relação afetiva”, sublinhou
Henrique Pereira.

Ao longo dos três anos, a equipa realizou 398 visitas a apartamentos e
distribuiu cerca de 11.000 preservativos, 5.500 gel lubrificante, 6.500
folhetos de prevenção e 400 cartazes.

Fez 39 encaminhamentos para valências da LPCS e 80 para parceiros, na sua maioria para realização do teste ao VIH.

“No total de trabalhadores sexuais masculinos reativos, em termos de
VIH, nós temos 12, e de número de trabalhadores sexuais masculinos para o
VIH após intervenção do projeto temos sete”, disse Eugénia Saraiva.

A equipa, constituída por um mediador, uma assistente social e uma
psicóloga, conseguiu chegar aos trabalhadores sexuais e aos clientes.

“As dúvidas destes utentes passavam pelas vias de transmissão do vírus
VIH, os locais da realização do teste, qual o período de janela para
poderem fazer o teste, as diferenças entre o VIH e a sida e a profilaxia
pós-exposição”, explicou Eugénia Saraiva.

O estudo concluiu que “os comportamentos de prevenção com os clientes
versus comportamentos de risco com os namorados têm de ser uma
prioridade e têm de ser apoiadas as instituições que têm trabalho nesta
área”, sublinhou.

Para Eugénia Saraiva, é “fundamental” a construção de programas
específicos de prevenção e promoção de saúde para esta população.

A prevalência de infeção por VIH/Sida é de 5% em trabalhadores sexuais e em homens que têm sexo com homens.

SAPO Saúde com Lusa

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