Rebuçados, gomas e chocolates são vendidos em Lisboa numa farmácia a fingir, com “farmacêuticos” a brincar, uma ideia doce, mas que especialistas em segurança consideram “perigosa” e capaz de levar ao consumo inadvertido de medicamentos.

“Temos boiões, caixinhas de blisters e caixinhas organizadoras de comprimidos, com as doses diárias ou semanais. Os blisters são selados com uma folha de alumínio, exatamente como comprimidos normais, e são rompidos para ter acesso ao produto, assim como se retira um comprimido como é habitual”, contou à Lusa Ricardo Belchior, sócio gerente da 'Funmácia'.

Sobre o risco de o seu negócio induzir mais as crianças ao consumo de medicamentos, um tipo de acidente que ocorre com regularidade, por julgarem tratar-se de doces, Ricardo Belchior garantiu que essa foi uma preocupação que teve.

“Estudámos bastante isso”, afirmou, dizendo acreditar que as crianças têm capacidade de perceber o que é bom e mau e que cabe aos adultos explicar isso, na educação que lhes dão.

“São os adultos que têm de dar essa educação às crianças e explicar aquilo que é bom e aquilo que é mau. É por isso que os comprimidos têm de estar fora do alcance das crianças. Os nossos doces não são associados aos medicamentos em si, mas às embalagens”, explicou.

O papel dos pais é, de facto, fundamental, na opinião da coordenadora do Centro de Informação Antivenenos (CIAV), Fátima Rato, que realça o facto de não deixar de ser “preocupante” a existência de doces à venda como se fossem medicamentos, uma vez que são a contradição do que se ensina.

“A mensagem deve ir sobretudo para os pais, que têm de ter noção de que, ao terem em casa este tipo de produtos, nestas embalagens, estão a ter um risco acrescido”, afirma.

Para a responsável, este tipo de produtos “não ajuda em nada” nos alertas feitos pelo CIAV, porque “a criança fica confusa".

"Dizem-lhe que não pode mexer nos medicamentos, que aquelas embalagens são só para quando está doente, e de repente aparecem embalagens semelhantes em tudo aos medicamentos”, com doces.

“É quase uma contradição em relação ao que os pais ensinam às crianças”, afirma, sublinhando que estes produtos são perigosos, nomeadamente no que respeita a crianças pequenas.

Quanto à opinião do gerente da 'Funmácia' sobre o entendimento que as crianças têm do que é bom e mau, a casuística mostra que não é bem assim, defende.

“Das intoxicações na idade pediátrica, dos 0 aos 15 anos, as que ficam na escala etária dos 1 aos 4 anos representam mais de 70% das intoxicações, pois essas crianças não têm ainda a capacidade distinguir o que é um medicamento do que não é”, especificou.

Citando os mesmos números, Sandra Nascimento, da Associação para a Promoção da Segurança Infantil (APSI), considera a existência deste negócio “um risco”.

“Apesar de se criar diferenciação das farmácias, o conceito é similar e é o que se pretende e é o que se promove”, critica a responsável, lembrando que as recomendações para evitar os acidentes de intoxicação em crianças passam por não incentivar a toma de medicamentos.

“Pergunto como é que uma criança tão pequena separa o contexto de fantasia de contexto real. Este conceito de loja de doces pode ajudar a dificultar a diferenciação do medicamento", afirmou.

Carla Varela, jurista da associação de defesa do consumidor (DECO), também considera a ideia “pouco feliz”, embora dentro da legalidade.

“Não me parece feliz a associação com uma farmácia. Acaba por promover confusão a venda de doces - muito direcionada para crianças – e a imitação de medicamentos”, afirmou.

Coisa diferente é saber se é legal ou não. Segundo a jurista, não existe legislação para este tipo de comércio, estando apenas prevista na lei a “imitação perigosa”, que se aplica às situações inversas: produtos não alimentares que, pelas semelhanças que apresentam com alimentos, podem levar ao seu consumo.

30 de janeiro de 2012

@Lusa

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