No ano passado, o cientista chinês He Jiankui provocou indignação generalizada entre os médicos e investigadores ao revelar os resultados de uma experiência em que alterou o ADN de duas meninas gémeas, levando as autoridades em Pequim a anunciar uma moratória à prática.

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O investigador usou uma ferramenta de edição de genes conhecida como CRISPR-Cas9 para inserir uma variante modificada de um gene CCR5 - conhecida como Delta32 - no cromossoma das meninas em estágio embrionário, o que significa que agora as crianças são imunes ao vírus da Sida.

Mas um novo estudo abrangente sobre a composição genética e informações sobre registos de óbitos sugere que indivíduos portadores da mutação D32 enfrentam um risco 20% maior de morte prematura em comparação com a população global.

He Jiankui
He Jiankui, cientista chinês créditos: ANTHONY WALLACE/Getty Images

Cientista da Universidade de Berkeley, na Califórnia, examinaram os dados de saúde de 409 mil pessoas de ascendência britânica e analisaram essa mutação que ocorre naturalmente em cerca de 1% da população.

No estudo, descobriram que os indivíduos com essa mutação tinham 21% mais hipóteses de morrer antes dos 76 anos do que aqueles que não a possuíam.  A análise também revelou que os portadores da D32 tinham uma probabilidade significativamente maior de morrer de doenças que são muito mais comuns do que a infeção por VIH, principalmente a gripe.

"O custo da resistência ao VIH pode ser uma maior suscetibilidade a outras doenças, talvez mais comuns", escreveram os autores do estudo.

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A investigação, publicada na revista Nature Medicine, não explica por que motivo a mutação aumenta o risco de mortalidade, mas os autores dizem que há uma clara tendência estatística que deve desencorajar repetições da experiência de He.

"A introdução de novas ou derivadas mutações em humanos usando a tecnologia CRISPR-Cas9 (...) tem um risco considerável, mesmo se as mutações proporcionarem uma vantagem percebida", comentam.

A China anunciou em novembro que ordenou que as pessoas envolvidas na experiência das gémeas suspendessem as suas atividades, determinando que este "viola seriamente" a lei nacional e a ética médica.

David Curtis, professor honorário do Instituto de Genética da University College London, disse que o novo estudo fornece uma visão clara das possíveis consequências não intencionais da edição genética em humanos. "Há muitos outros exemplos na medicina em que uma intervenção destinada a tratar uma condição causa inadvertidamente grandes problemas inesperados em outros lugares", disse Curtis, que não participou do estudo.

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