Em dias normais, Sidónia Botelho costuma fazer aquele percurso “em dez minutos”. Hoje, saiu “eram sensivelmente 08:20”. Às 09:52, quando falou à Lusa, ainda faltava algum tempo até chegar à rotunda onde é feito o controlo de quem pode passar de Ponta Delgada, onde mora, para a Ribeira Grande, onde trabalha.

É na rotunda Joaquim Marques da EN1-3A, mais conhecida por Estrada Regional da Ribeira Grande, que se encontra um dos pontos de controlo da cerca sanitária, que vigora a partir de hoje até, pelo menos, dia 17 de abril, limitando a circulação entre concelhos a profissionais de saúde, jornalistas em funções, ao abastecimento de bens essenciais à população da ilha e à manutenção da atividade de setores tidos por fundamentais, como a pecuária ou as pescas.

Este é um ponto de interceção entre três concelhos da ilha, sendo a principal ligação entre Ponta Delgada e Ribeira Grande, e um ponto de ligação também ao concelho da Lagoa, através de uma estrada secundária.

Ponta Delgada tinha, em 2018, quase 68 mil habitantes, sendo o maior município dos Açores, de acordo com os dados da PORDATA, que registam cerca de 32.700 habitantes na Ribeira Grande, o segundo maior concelho de São Miguel. O município da costa norte de São Miguel, que faz fronteira com Ponta Delgada a ocidente, Nordeste a oriente, Povoação a sudeste e Lagoa a sul, concentra 14 freguesias, sendo Rabo de Peixe a mais povoada, com quase 9 mil habitantes, apontam os censos de 2011.

Na ilha verde, em termos de população, segue-se a Lagoa, com mais de 14.600 habitantes, divididos por cinco freguesias. Este concelho é limitado por Ponta Delgada, a oeste, Vila Franca do Campo, a leste, e Ribeira Grande, a norte.

Na primeira manhã em que a circulação entre os seis concelhos da ilha de São Miguel está restrita a trabalhadores de setores essenciais, Emanuel Sousa teve de ir de Vila Franca até “a essa rotunda mais à frente, para ir buscar um funcionário que está lá retido, porque não tem a declaração”.

Noutro dia qualquer, iria até Ponta Delgada sem problemas. Hoje teve de fazer um desvio até à fronteira com a Ribeira Grande.

“Já passei por dois concelhos. Tive de mostrar as declarações, mas correu bem”, dizia o trabalhador da construção civil, que se encontrava, ainda, no início da fila.

Também no início da fila estava Sara Lima, uma professora da Escola Básica Integrada de Rabo de Peixe que não tinha uma declaração que justificasse a sua circulação, mas tinha a esperança de passar.

“Eu gostava muito de conseguir porque só soube deste cerco ontem e não tive tempo para vir trazer alguns alimentos a uma família que necessita. Gostava muito de passar, porque, agora vão ser 15 dias complicados para estas pessoas. É uma família de pescadores, que já não vai ao mar há um mês, e é muito complicado, porque têm crianças para alimentar”, explicou.

Sem justificação, vai tentar falar com o agente. “Se não conseguir, como há um agente da polícia de Rabo de Peixe que faz a intermediação entre professores e famílias, pode ser que consiga levar isto a esta família”, afirma.

Enquanto Sidónia Botelho e tantos outros tentavam chegar aos seus locais de trabalho, e Sara Lima tentava fazer chegar alimentos a quem deles precisa, Adelino Vieira tentava chegar a casa, em Rabo de Peixe, depois de um turno noturno, que terminou às 08:30.

“Concordo com estas medidas, mas não estou a concordar com isto assim. Não tem lógica. Uma pessoa sai às 08:30, que ir para casa e está aqui”, desabafa o segurança.

O mesmo se passa com Maria Pedro, que trabalha “com idosos” e terminou a sua noite de trabalho às 08:00.

“Estou aqui há quase duas horas. Se for para o bem de nós todos, acho que sim, mas podia haver outro sistema. Ou mais zonas, ou mais pessoal”, aferiu.

Num dia em que vigora um aviso amarelo, devido a precipitação, a Lusa verificou no local que, neste ponto 'fronteiriço', o controlo era assegurado por dois agentes da PSP, que, debaixo de chuva torrencial, tentavam dar vazão a uma fila que, no sentido Ponta Delgada – Ribeira Grande, ia já com duas horas de espera.

A cerca sanitária foi decretada na quinta-feira, pelo Governo Regional dos Açores, para evitar o perigo de transmissão ativa comunitária da covid-19 na ilha de São Miguel, a maior dos Açores, com 137 mil habitantes.

A Autoridade de Saúde dos Açores elevou hoje para 66 o número de casos positivos de covid-19 na região, com mais três novos casos na ilha de São Miguel, a mais populosa do arquipélago.

O novo coronavírus, responsável pela pandemia da covid-19, já infetou mais de 940 mil pessoas em todo o mundo, das quais morreram mais de 47 mil.

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