“O Estado [nicaraguense] ocultou entre 6.000 e 9.000 mortes provocadas pela covid-19, que foram registadas como outras patologias”, concluiu o estudo, intitulado “Covid-19 e opacidade: a fórmula da morte na Nicarágua”.

O estudo foi apresentado através de teleconferência.

Os investigadores do Observatório para a Transparência e Anticorrupção, que pediram anonimato por motivos de segurança, chegaram a essa conclusão ao comparar os dados divulgados pelo Governo de Daniel Ortega com estudos de mortalidade do Comité Científico Multidisciplinar, do Observatório do Cidadão Covid-19, da Fundação Nicaraguense para o Desenvolvimento Económico e Social (Funides), do jornal digital Confidencial e de estatísticas oficiais dos países vizinhos.

O sindicato dos médicos da Nicarágua tem estado no centro do debate pandémico devido às críticas ao governo e pelo menos 16 clínicos foram demitidos de hospitais públicos sem explicações, após exigir equipas de biossegurança e recomendar medidas de prevenção.

O Parlamento, controlado pelo governante da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), cancelou a personalidade jurídica de 24 organização não governamental (ONGs), a maioria delas médicas, a pedido do Executivo, após a vice-presidente da Nicarágua, Rosario Murillo (mulher de Daniel Ortega), acusá-las de serem “falsos médicos e com prognósticos falsos”.

De acordo com os investigadores, nos primeiros 20 meses da pandemia, o Ministério da Saúde da Nicarágua relatou 211 mortes por covid-19 e 5.947 infeções, enquanto o Observatório do Cidadão identificou 5.945 óbitos e 31.224 casos suspeitos.

“Isso [dados do Observatório do Cidadão] é 1,7 vezes mais casos suspeitos e 28 vezes mais mortes do que os relatados pelo Minsa [Observatório de Recursos Humanos], cujo número é muito baixo, provavelmente há um sub-registo”, disse investigado responsável pelo estudo, que lembrou que é improvável que tenha morrido exatamente um cidadão na Nicarágua todas as semanas desde outubro de 2020.

De acordo com o estudo, “enquanto no restantes países centro-americanos morrem entre seis e 11 pessoas todas as semanas para cada 10.000 habitantes, na Nicarágua ninguém morreu”.

O documento também apontou que o “sub-registo” possivelmente ocorreu porque “muitas infeções foram assintomáticas, foram tomadas como uma gripe comum ou não foram relatadas como covid-19”.

A isso acrescentou a dificuldade de acesso para realização de testes PCR, na Nicarágua, cuja gestão é exclusiva do Ministério da Saúde, e só estão disponíveis a 150 dólares (cerca de 132 euros) para quem viaja para o estrangeiro, como médicos e pacientes gravemente doentes.

A Nicarágua reflete o menor número de infeções na América Central, segundo dados oficiais.

O investigador insistiu que isso refletia a “opacidade” dos dados do covid-19, uma vez que, enquanto nos países vizinhos são realizados entre 56 e 111 testes de PCR por 1.000 habitantes, em nível local a média é “zero”.

O estudo também concluiu que há “responsabilidade das autoridades após a negação da pandemia, a omissão de medidas e, em seguida, uma ocultação da má gestão para vender à população que o Estado se preocupou com ela e fez todo o possível para a salvar”.

“As estatísticas oficiais são escassas, confusas e questionadas pela comunidade médica e pela Organização Pan-Americana da Saúde”, ressalvou, adiantando que “os dados públicos não permitem conhecer os grupos mais afetados ou o impacto sobre o pessoal de saúde”.

O documento acrescentou que “a crise da covid-19 mostrou as fragilidades estruturais do sistema de saúde da Nicarágua, mas também do regime político dominante caracterizado pela sua autoridade, sigilo, graves violações dos direitos humanos que provocaram uma grave crise humanitária, uma das mais notáveis na região [das Caraíbas]”.

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