Dos fatores de risco ao tratamento

O cancro do pâncreas é a terceira neoplasia maligna do sistema digestivo mais frequente em Portugal, com uma taxa de incidência estimada em 1400 novos casos/ano. Caracteriza-se por sintomas inespecíficos (dor abdominal, anorexia, emagrecimento, astenia) ou inexistentes em fases iniciais, o que explica que ao diagnóstico, a maioria dos doentes apresentem doença avançada, e apenas 20% sejam candidatos a tratamento cirúrgico.

O risco de cancro do pâncreas aumenta com a idade, surgindo na maioria dos casos depois dos 70 anos, sendo mais frequente no sexo masculino. O tabagismo é o principal fator de risco adquirido, seguido da obesidade. O consumo de álcool, sobretudo em doentes com pancreatite crónica, a diabetes mellitus, a ingestão de gorduras (sobretudo de origem animal), e o sedentarismo são outros fatores de risco modificáveis. A história familiar está presente em cerca de 10% dos doentes, contudo menos de 5% dos casos estão associados a síndromes genéticos hereditários.

Em doentes com suspeita de cancro do pâncreas, a tomografia computadorizada e a ressonância magnética são muitas vezes usadas como exames iniciais. Em doentes com lesões identificadas, a ecoendoscopia permite caracterizar melhor essas lesões, permitindo avaliar simultaneamente o restante parênquima pancreático e a realização de biópsias transendoscópicas, para obtenção de material histológico. Em subgrupos específicos de doentes com elevado risco de cancro do pâncreas (pela história familiar ou pela identificação de determinados síndromas hereditários) poderá ser considerado a realização de programas de rastreio, mas apenas no âmbito de programas de investigação.

A abordagem terapêutica deve ser individualizada, tendo em consideração as características do doente e do próprio tumor. O único tratamento curativo é a cirurgia. Na maioria dos doentes, o tratamento passa pela realização de quimioterapia, muitas vezes isoladamente, ou em combinação com radioterapia. Um progresso importante, é que os novos esquemas de quimioterapia, realizados antes da cirurgia, têm otimizado os resultados do tratamento, reduzindo o volume tumoral e aumentando a proporção de tumores potencialmente ressecáveis. A inclusão em ensaios clínicos deve ser, sempre que possível, equacionada em qualquer fase da doença, o que já é possível em várias instituições portuguesas.

O que nos espera?

Na última década assistimos a grandes progressos na investigação molecular do cancro do pâncreas, com a identificação de biomarcadores com potencial relevância diagnóstica e prognóstica e reformulação de novos alvos terapêuticos. Apesar das dificuldades no diagnóstico e tratamento, a sobrevida tem melhorado, de forma lenta, mas consistente. Cerca de dois terços dos principais fatores de risco associados ao cancro do pâncreas são potencialmente modificáveis, proporcionando uma oportunidade única para reduzir a incidência desta doença.

A proporção de doentes candidatos a uma cirurgia potencialmente curativa tem aumentado e estes serão os doentes que apresentam o prognóstico mais favorável. Novos dados de investigação têm permitido identificar marcadores moleculares com valor preditivo na resposta ao tratamento e poderão dirigir a seleção de fármacos anti tumorais de acordo com a sensibilidade das células cancerígenas. É possível que a história natural e o prognóstico desta doença sejam profundamente alterados nos próximos anos.

Um artigo do médico Eduardo Rodrigues-Pinto, especialista em Gastrenterologia e membro da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG).

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