Pode ser novidade para alguns, mas os testículos dos meninos nascem dentro da barriga, num local muito próximo onde repousam as suas congéneres femininas - os ovários. Sim, estes órgãos do feto masculino, antes de se diferenciarem em testículos, como os conhecemos, são muito parecidos com os ovários. É por ação dos androgénios e outras hormonas, que começam a sua longa viagem até à sua confortável bolsa, a bolsa escrotal.

A navegação popularizou canais, como o da Mancha - que separa a Grã-Bretanha e o Norte de França, e o canal de Suez, que une o Mar Mediterrâneo e o Mar Vermelho. A embriologia popularizou o canal inguinal, um estreito que une a cavidade abdominal à bolsa escrotal e que corre por baixo do que chamamos comumente a virilha: o canal inguinal.

Porque é que os pais e mães devem conhecer esta viagem? Porque este canal pode trazer problemas. Na maioria dos casos, os testículos dos recém-nascidos já terminaram esta viagem por altura do nascimento. No entanto, 3% dos meninos nascem com um ou ambos os testículos mal descidos, uma patologia também chamada de criptorquidia, ou testículo escondido. Se até aos 6 meses de vida o testículo não estiver em posição escrotal, ele deve ser ajudado cirurgicamente. A correção cirúrgica precoce, entre os 6 e os 12 meses, parece prevenir problemas futuros de fertilidade e de aparecimento de carcinoma testicular.

Outro problema comum nos meninos é o encerramento incompleto do canal inguinal. Sim, após o testículo se alojar na bolsa testicular, o canal por onde desceu deverá encerrar completamente. Se isso não acontecer, outros conteúdos indesejáveis podem aparecer no escroto. Quando aparece intestino ou gordura, chamamos de hérnia inguinal. Quando apenas passa líquido peritoneal, chamamos de hidrocelo comunicante. A correção cirúrgica das hérnias inguinais deve ser realizada o mais precocemente possível, devido ao risco de encarceramento. Isto é, ao risco do intestino ou da gordura ficarem presos na bolsa escrotal, levando a um quadro de dor, vómitos, inflamação, necrose, que podem progredir para sépsis e morte. No caso dos hidrocelos, poder-se-á aguardar dois ou mais anos pela sua resolução completa.

Por vezes, o encerramento incompleto do canal inguinal pode deixar que o testículo se mova, de vez em quando, para o canal inguinal, o chamado testículo retrátil. Trata-se, na maioria das vezes, de uma situação benigna e que só tem indicação cirúrgica se doer ou se tiver suspeita de hérnia concumitante. De qualquer forma, deve ser vigiado. Com o crescimento da criança, pode ficar progressivamente mais alto, o chamado testículo ascendente, ou mesmo torcer. Neste caso, é uma emergência cirúrgica. Qualquer criança, grande ou pequena, que apresente dor, rubor e edema/inchaço testicular, deve ser imediatamente observado pelo médico.

Provavelmente não sabia que esta viagem testicular poderia ser tão atribulada. Felizmente, a cirurgia pediátrica tem evoluído ao ponto de podermos fazer a maioria destas cirurgias de forma minimamente invasiva e com o menor desconforto para a criança. Todas as patologias que falámos neste artigo podem ser realizadas em cirurgia de ambulatório, isto é, sem pernoita hospitalar. Dependendo da idade e da presença ou ausência de outras doenças, a maioria das crianças é operada e tem alta após 4 horas.

Pais e mães, não se assustem, mas  estejam atentos a estes sinais de alerta que devem motivar a procura imediata do médico: tumefações inguinais ou escrotais que não via previamente, dor ao tocar e rubor ou vermelhidão.

Um artigo do médico João Moreira Pinto, Cirurgião Pediátrico no Hospital CUF Porto e Clínica CUF Leiria.

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