Para as pessoas com perturbações da ansiedade, o medo do contágio, o contacto frequente com o tema da morte e a perda da sensação de segurança, estabilidade e controlo vieram acentuar inúmeras outras fragilidades comprometedoras do bem-estar. Recentemente, a atriz Sinead O’Connor fez um pedido de ajuda nas redes sociais, no qual expressou que estava a "morrer de fome" resultado da incapacidade em sair de casa, resultado da sua "luta contra a agorafobia".

Mas o que é a Agorafobia? Esta é uma perturbação da ansiedade que se define por um medo intenso de, em locais ou situações em que a saída possa estar comprometida e seja difícil pedir ajuda, ser invadido por sintomas de ansiedade. Tomem-se como exemplos destes sintomas a aceleração do batimento cardíaco, dor no peito, sensação de sufoco, dificuldades em respirar, tonturas, náuseas, suores, tremores, entre outros.

Não raras vezes, esta perturbação surge após um ataque de pânico, isto é, um episódio em que a pessoa sente que foi invadida por tamanha ansiedade que perdeu o controlo. Comummente, durante um ataque de pânico, as pessoas sentem que vão morrer e, após o episódio, surgem pensamentos intrusivos acerca da origem do episódio que tendem a causar mal-estar e a provocar mais ansiedade, criando um ciclo de mal-estar.  O medo de reviver novamente esta experiência aterradora provoca um acentuar da ansiedade e, por sua vez, o risco de um novo ataque de pânico torna-se consecutivamente maior.

Naturalmente que, mesmo num mundo sem pandemia, a Agorafobia apresenta um impacto negativo que limita a vida da pessoa, a qual se sente incapaz de, por exemplo, estar na fila do supermercado, usar transportes públicos, ir ao cinema ou frequentar espaços em que se encontram muitas pessoas. Enquanto algumas pessoas vivenciam mal-estar, mas sentem-se capazes de gerir a ansiedade nestas situações, outras têm ataques de pânico e o medo começa a generalizar-se para outras situações antes consideradas seguras, como conduzir o próprio carro. O medo pode crescer e atingir uma dimensão em que a pessoa se sente incapaz de sair de casa ou conseguir cumprir com tarefas anteriormente consideradas básicas, como ir às compras sem a companhia de alguém considerado de confiança pela pessoa. Em casos limite, a pessoa recusa-se a ficar em casa sozinha, dada a necessidade da presença do outro para obter segurança. Pensar sequer na ideia de estar sozinho e ter um ataque de pânico pode gerar ansiedade e, em alguns casos, acaba por ser vivenciado um novo ataque. Em poucas palavras, a pessoa deixa de ter a liberdade de viver em plenitude pelo medo de perder o controlo.

A pessoa é constantemente envolvida pela questão “e se voltar a acontecer?” e, como estratégia, recorre ao evitamento de todas as situações e locais potencialmente despoletadores de ansiedade, ou nos quais já vivenciou um ataque de pânico e, por isso, identifica como traumáticos.

A Agorafobia é uma perturbação progressiva, ou seja, que se vai alimentando da ansiedade e aumentando o seu poder e impacto na vida da pessoa. Por isso, existe o risco de serem desenvolvidas outras perturbações como a depressão, a perturbação obsessivo-compulsiva e a perturbação da ansiedade generalizada.

No contexto pandémico atual, em que existe um risco real de contrair um vírus e as medidas de segurança exigem o distanciamento social, torna-se particularmente difícil para as pessoas com estes sintomas lidar com a ansiedade e o risco de isolamento torna-se cada vez mais elevado.

Enfatize-se que esta perturbação tende a intensificar-se à medida que a pessoa limita a sua vida, com consequências no seu bem-estar, sentindo-se, cada vez mais, em pânico. Nestas circunstâncias, torna-se importante recorrer a ajuda psicológica, enquanto estratégia para alcançar um maior controlo sobre a ansiedade, descobrir a sua origem, identificar estratégias de autorregulação emocional e de relaxamento e, consecutivamente, recuperar o bem-estar e a plenitude. Se como vimos, a evolução da perturbação é gradual, quanto mais cedo procurar acompanhamento psicológico mais evitará sofrer numa autêntica bola de neve. A terapia possibilita, paralelamente, um maior autoconhecimento e desenvolvimento pessoal, potenciando o bem-estar em todos os domínios do funcionamento.

Concentre-se em si, cuide de si, recorra a ajuda especializada. Pode fazê-lo sem prescindir da segurança da sua casa, com recurso às consultas online, nas quais vai encontrar um lugar igualmente seguro e terapêutico para explorar todas as fragilidades vivenciadas. Neste contexto pandémico, a saúde mental é prioritária.

As explicações são de Sofia Gabriel e Mauro Paulino, da MIND | Psicologia Clínica e Forense.

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