Com o cuidado que o desgaste provocado pelo tempo impõe, Carlos Pina folheia uma revista com capa datada de 1944. No interior, num canto de página, uma notícia breve emoldura uma fotografia entre caracteres tipográficos. Reconhecemos de imediato a fachada de A Carioca, casa especializada em cafés e chás que, desde 1936, abre a sua porta no número 9 da Rua da Misericórdia, antiga Rua do Mundo. Carlos Pina desfia memórias, um arquivo que junta aos poucos e que resgata do baú da memória, década a década, esta casa lisboeta.

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Foi em 1993 que o atual proprietário de A Carioca assumiu os destinos da casa convertendo-a numa empresa de cariz familiar e dirigindo-a com as suas duas filhas. Carlos Pina juntou A Carioca ao negócio que geria há algumas décadas, a torrefacção Negrita. Fez-se, assim, um casamento que trouxe um novo fôlego a um estabelecimento que enfrentava na altura algumas dificuldades.

A Carioca não obstante as beneficiações que sofreu, mantém o charme da década de 30 do século passado. Não dá as costas ao bulício da Lisboa deste século XXI. Mas mantém-se de pé firme no carisma que os mais 80 anos de vida lhe trouxeram e que ao invés de destoarem na capital renovada, chamam a atenção por se nos afigurarem como uma porta genuína para um outro tempo.

A Carioca: Um cantinho lisboeta onde o café tem sabor e aroma a memória
créditos: Sérgio Calleja

Na fachada do edifício pombalino destacam-se duas montras debruadas a caixilhos de vermelho vivo. Como entorno, portentosas paredes de mármore negro, raiado de veios brancos. Dentro, o balcão de madeiras vaidosamente tratadas com cera, corre o comprimento de toda a loja. Sobre o balcão descansam a balança e moinhos de café tradicionais, todos de um vermelho garrido, com chaminés em alumínio.

Próximo ao balcão não passa despercebida uma enorme máquina de moagem. Carlos Pina esclarece-nos: “esmaga a cevada através de duas mós no interior. É um processo semelhante ao das mós dos moinhos de vento”.

Ao fundo do estabelecimento, grandes painéis trabalhados em vidro e com evidente gosto pela Arte Nova, evocam a vocação d´A Carioca. Lemos “os melhores chás e cafés”, suportados em imagem por figuras estilizadas e chávenas fumegantes. Atrás do balcão sobressaem com aparato os armários em madeira, com recetáculos embutidos para chá avulso. A decorar, uma parafernália de elementos orientais.

Nas prateleiras, para além das embalagens de chá, dos chocolates e dos rebuçados em grandes boiões de vidro, destacam-se os acessórios para café. Balões, lamparinas, moinhos, bules, latinhas, apenas para citar alguns dos artefactos que mimam esta bebida com história milenar.

Alguns lotes puros ganharam fama e tradição. O “Palace”, o “Presidente”, o “Tavares”, têm servido os gostos de muitas figuras públicas e instituições, da Presidência da República, à Fundação Mário Soares e à Fundação Oriente.

A Carioca ocupa-se do café desde o grão verde, tratando da torragem, ainda na Negrita, antes de chegar à loja. Ai, grãos de diferentes tonalidades e tamanhos, aguardarem o momento da moagem, libertando o aroma que torna esta bebida inconfundível.

Alguns lotes puros ganharam fama e tradição. O “Palace”, o “Presidente”, o “Tavares”, têm servido os gostos de muitas figuras públicas e instituições, da Presidência da República, à Fundação Mário Soares e à Fundação Oriente.

A Carioca: Um cantinho lisboeta onde o café tem sabor e aroma a memória
créditos: Sérgio Calleja

Com o intuito de alargar o mercado, Carlos Pina introduziu outros lotes. O “Bar”, o “Expresso”, o “Carioca”, o “Rubi”, um lote de “elite”, esclarece o proprietário, o “Ouro” e o “2000”, os dois últimos verdadeiros topos de gama.

Há, também, cafés aromatizados, com Avelã, com Irish Coffee, embora com “menos adeptos”, confessa Carlos Pina. Há perto de duas décadas “A Carioca antecipou a moda dos chás”, diz-nos o proprietário, que acrescenta: “temos cerca de 80 variedades, desde os chás aromáticos, como o Rosas da China, ao chá branco, o vermelho e o verde”.

A Carioca

Rua da Misericórdia, 9, em Lisboa

Contacto: Tel.: 213 420 377

A clientela não vai faltando, alguma dela “quase parte da família” como confidencia o proprietário. Manter esta cumplicidade é tarefa fácil para os colaboradores, alguns deles com mais de 30 anos de casa, “conhecem os gostos do cliente e aconselham com conhecimento de causa”, revela Carlos Pina. A clientela também inclui turistas estrangeiros, alguns reincidentes na procura da casa, nas suas visitas a Lisboa.

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