"É um tecido que compromete. Usar wax é sempre uma mensagem. A história social de África é contada através do desenho [...], é uma maneira de entender as sociedades", explica em entrevista à AFP a antropóloga Anne Grosfilley, que acaba de publicar em França o livro "Wax. 500 tissus" e de colaborar com um desfile da maison Dior.

Através do desenho do alfabeto, por exemplo, esse tecido colorido conta a história colonial. "Naquela época usava-se o alfabeto para demonstrar que faziam parte da nova geração de pessoas letradas. Hoje isso pode ser também uma forma de reivindicação: com a influência do Boko Haram as raparigas não têm acesso à escola", diz Anne Grosfilley, que estuda há 25 anos a moda africana e a história do wax.

Unhas e mala

As mulheres africanas utilizam os desenhos estampados no tecido wax "como meio de comunicação não verbal". O estampado "As unhas de Madame Thérèse" presta homenagem à esposa do primeiro presidente da Costa do Marfim, que teria prometido desfigurar com as próprias mãos a suposta amante do seu marido.

O padrão "desvalorização", com notas de francos CFA, teve um apelo particular a partir de 1994, após a decisão do Banco de França em dividir por dois o valor dessa moeda de câmbio vigente em 14 países de África. As mulheres africanas usavam tecidos com esses estampados para mostrar que se sentiam depreciadas e desvalorizadas como pessoas.

Entre o último sucesso de vendas está o wax "Bolsa de Michelle Obama" que reproduz uma peça de luxo em couro utilizada pela admirada ex-Primeira-Dama dos Estados Unidos.

O tecido através do qual as mulheres expressam as suas esperanças e a sua raiva despertou o interesse da diretora artística da Dior, a italiana Maria Grazia Chiuri, uma feminista comprometida que, em abril, incluiu as peças no desfile da coleção cruzeiro da Dior realizado em Marraquexe, Marrocos.

Dior e atelier de refugiados

O padrão de pássaros em pleno voo, inspirado nos tecidos usados pela cantora e militante política sul-africana Miriam Makeba, foi um das peças que desfilaram pela passerelle da Dior.

"A ideia era não trabalhar com desenhos pré-existentes", explica Anne Grosfilley, que visitou juntamente com Maria Grazia Chiuri a fábrica Uniwax em Abidjan, "a única que tem perfeita rastreabilidade africana: algodão cultivado em África, fiado e tecido em Benin e impresso na Costa do Marfim".

Ainda que os estilistas franceses Jean Paul Gaultier e Agnès B, para além da marca britânica Burberry, terem utilizado wax nas suas coleções, a aproximação da Dior "é única".

"É a primeira vez que se trabalha com o wax feito em África, com os africanos a criar novos desenhos reinterpretando os códigos Dior", diz a antropóloga. "Um tecido considerado africano é tão luxuoso quanto outros materiais de luxo italianos ou franceses utilizados pela maison Dior".

Preocupada em evitar cair na armadilha da apropriação cultural, Maria Grazia Chiuri abriu o seu desfile nas ruínas de um antigo palácio de Marraquexe com uma criação assinada pelo estilista africano Pathé'O, que voltou a colocar o wax na moda em África no final dos anos 1980.

Como não é originário de África e não está ancorado em nenhum país em particular, o wax tem "uma força pan-africana. Todos os africanos, os afrodescendentes e as diásporas reconhecem-se nele" e estrelas como Beyoncé e Rihanna já o usaram.

O verdadeiro tecido wax, estampado com cera, com as "suas perfeitas imperfeições, que não tem lado direito ou avesso" representa apenas 5% de um mercado repleto de cópias fabricadas na Ásia.

"Verdadeiro ou falso, as pessoas sempre querem dizer algo com o wax", diz a antropóloga, que usava um casaco com forro de wax confeccionado por imigrantes à espera da sua regularização no atelier "Talking Hands", na cidade italiana de Treviso.

Clique na galeria e veja algumas das propostas da coleção Cruise da Dior apresentadas no dia 29 de abril em Marraquexe.

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