Há um lugar na relação a dois de paixão, no qual a empatia, parece criar um silêncio comunicativo que é revelador do outro e da qualidade da relação. Um dois que momentaneamente se torna um, num continuo de ritmo, som e sentir.

O espaço de silêncio parece ser preenchido por ressonâncias invisíveis, que aparentemente parecem esmorecer as fronteiras da individualidade que delimitam através da linguagem a noção de eu em contraposição ao outro. O lugar no qual digo - eu sinto! - dá lugar a um - nós sentimos! - numa aparente fusão de identidades.

A empatia e a sua dimensão de contágio emocional, liga as duas margens, do rio que nos separa, sem a necessidade da ponte verbal, que normalmente transporta significados à procura de uma narrativa conjunta. As margens estreitam-se, apagam-se, unem-se, não através de uma ponte, mas através de um movimento tectónico transitório que molda em sintonia, uma margem à outra.

Em 2010 Marina Abramovic, numa performance no MoMA em Nova Iorque, intitulada o Artista está Presente, colocou a nu o processo de contágio emocional, enquanto dimensão empática. O dispositivo era simples. O artista sentava-se, em silêncio, perante uma mesa de madeira, na qual do lado oposto permanecia uma cadeira vazia.

Os visitantes do museu eram convidados pelo contexto, a sentarem-se e a procurarem o contacto ocular com a artista. A simplicidade da instalação, contrasta com a intensidade da experiência relacional, vivida na sala do MoMa ao longo de oito horas por dia, durante praticamente três meses, mais de mil pessoas se sentaram à procura do olhar da artista.

Um dos momentos emblemáticos, foi quando Ulay ex-companheiro de Marina, inesperadamente se senta do outro lado da mesa. É impossível enquanto observador, não sentir o movimento tectónico que encurta o espaço, entre Marina e Ulay, criando um estado momentâneo de fusão. Ilustração de ausência de espaço, que contrasta com a performance intitulada, Expansão no Espaço, apresentada em 1977, no museu de arte moderna e Bona, na qual Marina e Ulay, projetam os seus corpos em sentido oposto, contra uma parede, de forma ampliar o espaço existente entre eles.

Foi esta ilustração de ausência de espaço, de fusão transitória, dificilmente traduzível por palavras, associada à experiência de contágio emocional empático que reuniu no Craveiral Farmhouse em pleno Litoral Alentejano, músicos, artistas, neurocientistas numa residência artística.

Um encontro ambicioso, na medida que procura concretizar um sentir, fora da linguagem verbal, que regula uma parte da nossa comunicação quotidiana, mais emocional.

Por desafio dos meus amigos Ana Freitas Reis e Bruno Ferreira, autores, organizadores e curadores do projeto Espaldar, rumamos ao Alentejo para assistir à apresentação dos trabalhos de uma residência artística intitulado Laboratório de Empatia. A ideia era mergulhar numa linguagem diferente e captar novas inspirações para o nosso trabalho com casais.

O contexto não podia ser melhor, o Craveiral Farmhouse, perto de São Teotónio no Alentejo é um espaço único, imerso na natureza, no qual os sons desarmónicos da cidade dão lugar a uma sonoridade distinta que convida a uma amplificação dos nossos sentidos. Fomos encontrar os nossos anfitriões numa estrutura modular, de observação da natureza implementado no meio da herdade.

O espaço tenha sido, apropriado por músicos, cientistas, artistas visuais e pela sua parafernália tecnológica, que se espalhava em autoestradas de cabos, ligando monitores, instrumentos, computadores, num entrelaçado difícil de descodificar. Adivinhava-se um contraste interessante entre tecnologia e natureza emocional.

Ao fim da tarde, Luís Clara Gomes, músico conhecido pelo projeto Moullinex, Tiago Quendera investigador na Fundação Champalimaud, e Francisco Teixeira fundador da Muarts uma empresa tecnológica nacional focada na aplicação neurofeedbak a vários contextos, fazem uma breve síntese da hipótese de trabalho que os orientou ao longo da semana.

Colocaram questões sobre o processo empático, mais concretamente sobre os fenómenos de contágio emocional e desafiaram-nos a pensar até que ponto o processo empático pode ser amplificado na sua intensidade e duração.

O objetivo seria, tendo por base a performance da Marina Abromovic, apresentada no MoMA em 2010, a possibilidade de medir e representar visualmente o processo de empatia. Imaginemos por segundos que é possível. Então qual seria o impacto que teria nos participantes a visualização em tempo real, do processo de sincronização dos estados fisiológicos.

Por outras palavras, será que a criação de um feedback visual da experiência, amplifica a intensidade da própria experiência? E se mergulharmos, toda a experiência, num contexto musical, no qual músicos ao vivo, inspirados pelas imagens, podem modelar em som as harmonias ou desarmonias que observam através da representação visual projetada. Já está a ficar difícil de imaginar? - Sim. Podem ir à página do Espaldar no Instagram e vejam a experiência gravada no IGTV.

Ficamos por momentos na dúvida se o que vimos é mais ciência ou arte, talvez as duas numa linguagem fundida. Uma coisa foi clara para nós que assistimos ao vivo, existiu um fenómeno de contágio emocional, que saltou do espaço do laboratório e nos contagiou a todos que do lado de fora assistíamos à performance. Pairava no ar a vontade de fica noite dentro a dançar ao som dos músicos orientados pelo Luís Clara Gomes, e de nos sintonizarmos todos num mesmo cumprimento de onda, empático, como que num regresso às pistas de dança, agora tão longínquas com a pandemia.

O frio da noite, quebrou o estado emocional, procurámos abrigo junto à lareira e regressamos aos nossos pensamentos. Será este estado emocional de quase transcendência no qual os limites da individualidade parecem ficar difusos que tantas vezes chamamos paixão? Parece-nos que há em algum romantismo, esta ideia de sintonia emocional, no qual os dois corpos dos amados parecem comportar-se a um só ritmo. Uma sensualidade na ausência do espaço.

É esta física, que na residência do Espaldar traduziram em arte, que por vezes nos chega ao consultório como sintoma. O casal perde, no olhar do outro a sintonia emocional necessária a criar momentos de paixão. O olhar no fundo do olho transforma-se, num processo curto circuitado por pensamentos, crenças, medos que criam obstáculos ao processo de contágio emocional. Sentir o que outro sente, torna-se uma impossibilidade! Ver nos, através do olhar do outro, torna-se insuportável! É construída uma muralha no lugar onde antigamente existia um encontro.

No romance de Marina e Ulay no final de doze anos de vida em conjunto, dos quais os últimos três, são descritos como sendo de desencontro, ambos os artistas decidem criar um momento de despedida. Uma caminhada que ambos iniciam, em lados opostos da grande muralha da china, durante aproximadamente 90 dias andaram até se encontrarem no centro da muralha, para um adeus. Na despedida Marina terá dito que só queria regressar a casa, Ulay terá dito que queira continuar a caminhar o resto da sua vida. Durante vinte e dois anos, Marina e Ulay nunca mais se encontraram.

A dimensão física da muralha é talvez a melhor metáfora, para a dimensão intransponível do desencontro, que duas pessoas sentem, quando já não são capazes de viverem no olhar do outro. É esta a perda que tanto dói no fim do romance, que na nossa sala assistimos em tantos prelúdios de divórcio.

Há um momento que o espaço de contacto, torna-se impossível, não há movimento tectónico que aproxime nem uma ponte verbal que ligue. A sala da terapia, transforma-se em espaço de luto, no qual a empatia da paixão dá lugar ao espaço.

Vinte e dois anos depois, Ulay sentou-se, numa cadeira vazia à frente de Marina.

Artigo de Pedro Vaz Santos, Psicólogo Clínico

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