Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) a adolescência é o período que ocorre entre os 10 e os 19 anos de idade. Um período que me atrevo a caracterizar por um turbilhão de mudanças a nível biológico, a nível fisiológico e também a nível psicológico. Então será importante encorajar e apoiar os pais a abordarem a temática da sexualidade dos seus adolescentes como uma das mais valiosas intervenções. Claro está que são necessárias informações fidedignas e confiáveis que numa grande parte das vezes as podem pedir a profissionais de saúde.

A relutância em falar sobre sexualidade com os filhos é ainda um fator limitante, e de uma vergonha protelada no tempo, causando alguma ansiedade quer por parte dos pais, quer por parte dos filhos. Se lhes conseguimos passar um conjunto de experiências e conhecimentos em outros domínios da vida, porque é que abordar a sexualidade é muitas vezes um tema adiado sem data limite para ser discutido?

Não precisamos necessariamente de marcar um dia na agenda para abordar o tema, são várias as interações que podem funcionar como gatilho para abordar o tema com naturalidade e veracidade. Segundo a Academia Americana de Pediatria a comunicação sobre sexualidade deve começar a ser feita a partir dos 11 anos de idade. Esta comunicação não deverá acontecer como um único ato isolado, mas como resultado de várias interações, ao longo dos anos, durante conversas quotidianas, de forma a que sejam dadas respostas claras sempre que estas situações surgirem (por exemplo, uma notícia sobre uma violação, campanhas publicitárias, sexting). O objetivo passa sobretudo por elucidar e reforçar conceitos que serão memorizados e mais tarde desenvolvidos a nível cognitivo.

Falar de sexualidade não é sinónimo exclusivo de falar sobre sexo. É muito mais amplo. É de importância extrema abordar diferentes tópicos como: as emoções, as mudanças físicas no corpo, o respeito mútuo, a intimidade, o consentimento, o prazer, o amor, autoestima, e ainda todas as informações e explicações técnicas e alertas.

Desde muito cedo devemos chamar os órgãos sexuais pelos seus nomes verdadeiros (pénis, testículos, vagina, vulva, clítoris). Ao usarmos o eufemismo a informação que é recebida é que essas partes do corpo são constrangedoras e vergonhosas. O uso dos termos anatómicos corretos beneficia em termos de desenvolvimento de autoestima, sensação de segurança, mas também de orgulho e respeito. A melhor abordagem é aquela que é clara, factual e aberta.

É recomendado que os pais comecem por falar nas alterações físicas, abordando as alterações hormonais, morfológicas e emocionais. Adolescentes informados serão adolescentes preparados: é bem mais saudável estar preparado do que surpreso para estas mudanças, desde o odor corporal, ao crescimento dos pelos púbicos, ao crescimento das mamas...). As visitas a profissionais de saúde também podem ajudar quer pais, quer adolescentes a perceberem as fases normais da puberdade.

Todo e qualquer adolescente é vulnerável à rejeição, à violência ou assédio, especialmente adolescentes com orientação sexual ou identidade de género estereotipadas pela sociedade. Estas situações quer através dos meios de comunicação social ou da escola são oportunidades para abrir discussão familiar sobre as diferenças, sem que sejam feitas suposições de que o filho seja isto ou aquilo. Estas temáticas abordadas de forma clara e respeitosa sobre o apoio incondicional têm um efeito positivo em todos os adolescentes, sejam eles heterossexuais, lésbicas, gays, bissexuais ou transgéneros. Em qualquer orientação sexual ou identificação de género deve ser expresso o amor incondicional.

A masturbação deve ser também incluída nestas discussões. Além de ser normal é sinal de boa saúde. É uma excelente forma de descobrir a própria sexualidade, de expressar naturalmente os impulsos sexuais e satisfaze-los, sem risco de gravidez e de infeções sexualmente transmissíveis (IST) - desde que não haja partilha de objetos entre pares - e com inúmeros benefícios a nível de regulação emocional.

Quando surgem os relacionamentos a estratégia deverá passar pelo passo a passo, ao invés de se fazer tudo de uma vez. Abordando novamente a importância do respeito mútuo, e a diminuição de riscos maiores, a título de exemplo a relação sexual com penetração, apresentando duplo risco: gravidez e IST. E neste sentido deverá ser incentivado o uso de métodos contracetivos, dando a conhecer as várias possibilidades, quer na prevenção de uma gravidez indesejada, quer na prevenção de IST. Ao contrário das crenças populares, fornecer informações sobre anticoncepção e de emergência não aumenta a atividade sexual, ajuda sim a prevenir gravidezes indesejadas.

O adolescente deve ser estimulado a expressar claramente a sua discordância, os seus desejos e o respeito pelo próprio ritmo. Havendo ainda uma articulação com a importância de pedir permissão antes de tocar noutra pessoa ou iniciar uma atividade sexual. Os adolescentes devem ser incentivados a abordar os aspetos positivos das suas relações, como o respeito, a descoberta do outro e de si mesmo, a intimidade, o prazer e a ternura, permitindo que se preparem para os primeiros e novos relacionamentos, ajudando-os a reconhecer o que é e o que não é aceitável.

Um artigo do médico Sérgio Neves, pediatra e especialista em medicina do adolescente.

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