Pai de duas crianças, Nuno Pinto Martins cedo se confrontou com os desafios da parentalidade. Ao questionar-se sobre os melhores caminhos para educar os seus filhos, descobriu a Disciplina Positiva e mudou de vida. Abandonou a atividade de advogado e jornalista e dedicou-se a estudar e, depois, divulgar e ensinar os princípios da educação positiva com ações de formação que realiza pelo país. Neste seu livro, cujo subtítulo é justamente “Guia para Pais e Educadores”, Nuno Pinto Martins fundamenta as suas opções educativas e fornece pistas concretas para pôr em prática uma educação que rompe com os métodos tradicionais.

O modelo da Disciplina Positiva nasceu na década de 1970, nos Estados Unidos, fruto da investigação de Jane Nelsen e Lynn Lott, fundamentadas nas teorias de Adler e Dreikurs. Uma das ideias-chave é que devemos agir com as crianças com firmeza, mas com carinho. Outros dois princípios são o foco na solução e não na punição e procurar compreender as razões para o comportamento inadequado.

Embora cada criança seja única e, por isso mesmo, não haja receitas para educar, a importância da missão de pais e educadores é de tal magnitude que qualquer ajuda será sempre bem-vinda.

Uma rápida busca na internet devolve-nos um elevado número de conteúdos sobre questões da parentalidade e o mesmo se observa nas livrarias. Será que desaprendemos de ser pais, ou nunca o soubemos ser?

As crianças não vêm com manual de instruções e ninguém nos ensinou a sermos pais ou mães. “Educamos” por instinto e pondo em prática algo que está guardado dentro de nós há muito: a nossa própria educação. Mas quando constatamos que os métodos educativos tradicionais, baseados no controlo e na punição, não estão a resultar, vamos à procura de novas estratégias e “ferramentas”, porque queremos todos ser melhores mães e pais.

Educar Pela Positiva
Nuno Pinto Martins, autor do livro "Educar Pela Positiva".

Em educação não há certezas - afinal é de seres humanos que se trata - e a própria investigação não é conclusiva sobre os melhores métodos para educar alguém. De onde lhe vem a convicção que a Educação Positiva é o caminho certo?

Não há certezas, mesmo! Nem existem varinhas mágicas na educação. Educar é uma tarefa para a vida, um caminho que se renova todos os dias. Não há duas crianças iguais, cada uma é única, o que só aumenta a dificuldade de educar. Acredito plenamente neste caminho da educação positiva como a melhor forma de preparar as crianças de hoje para serem os adultos de amanhã, capacitando-as para enfrentarem os desafios do mundo moderno, onde terão de ser, designadamente, autónomas, responsáveis, cooperantes, capazes de gerir as suas emoções.

Mas como aprendem as crianças essas habilidades?

Essas habilidades sociais e de vida não se aprendem do ar, têm de ser ensinadas. Ao envolver as crianças na sua própria educação, permitindo que tenham voz e participem, estimulando-as (esta é uma das premissas da Disciplina Positiva, modelo educativo que defendo), estamos a ensinar-lhes isso mesmo. A minha convicção naquilo que acabo de referir tem saído reforçada dia após dia, sobretudo quando percebo o impacto que este modelo de educação tem tido na minha relação com os meus dois filhos, um menino de nove e uma menina de cinco anos.

O ´mau` comportamento não é mais do que a solução que a criança encontra para nos dizer ´estou aqui, quero sentir-me importante para ti, que pertenço aqui`.

Nunca como hoje se ouviram tantas queixas sobre “indisciplina” nas escolas e lamentos de pais desesperados face às birras das suas crias. Andarão os educadores e pais a ler os livros ou blogues errados?

É essa, também, a realidade que me chega através dos relatos de centenas de pais educadores, a maioria está à beira de um ataque de nervos. Não se tratará de lerem os livros ou blogues errados, mas antes do resultado da sociedade em que hoje vivemos. Pais cansados é igual a filhos stressados. Há cada vez menos tempo (e paciência) para educar, para ensinar, para simplesmente estar, ouvir, brincar. Quando chegamos a casa depois do trabalho e ainda temos pela frente um sem número de tarefas domésticas, é natural que não haja grande disponibilidade para o que deveria ser essencial… só que isto tem custos. Que exemplos passamos, diariamente, aos nossos miúdos? Que tempo de qualidade reservamos para eles? Vivemos a mil à hora e isso reflete-se nos comportamentos dos miúdos, que são chamadas de atenção. O "mau" comportamento não é mais do que a solução que a criança encontra para nos dizer "estou aqui, quero sentir-me importante para ti, que pertenço aqui".

“Pais cansados é igual a filhos stressados” - Nuno Martins, autor do livro “Educar pela positiva”

No seu livro enfatiza que cada criança é um ser único e que o melhor especialista na criança serão os seus pais. Será exequível aplicar a educação pela positiva em contexto de sala aula? De que forma a gestão dos comportamentos em contexto de sala de aula poderia beneficiar desses princípios?

Cada criança tem uma perceção única sobre o mundo que a rodeia, porque ela é baseada nas experiências (também únicas) que teve. Quando pedimos uma simples tarefa a um grupo de crianças, por exemplo, algumas poderão cumpri-la mostrando entusiasmo, outras poderão realizar essa tarefa sem grande vontade e outras tantas ainda poderão mostrar resistência/rebeldia. A resposta que darão depende da tal perceção única, dos seus conceitos pré-estabelecidos sobre o que lhes foi pedido. Em contexto de sala, isto revela-se num desafio acrescido, já que é difícil chegar a cada um dos alunos, sobretudo em grupos grandes. Mas não há especialista nos seus próprios alunos como o educador/professor! E como costumo dizer, não precisamos de “ganhar os miúdos” todos de uma vez, temos o ano letivo todo para o fazer!

Educar Pela Positiva

O que entende por «ganhar os miúdos»?

Entrar no mundo deles e construir com eles uma verdadeira equipa. A chave para uma melhor gestão das relações em sala passa por envolver as crianças neste processo, permitindo que participem nele, por exemplo colaborando na elaboração das próprias regras da sala e até das consequências para o incumprimento dessas regras acordadas. É claro que o resultado final terá de ir sempre ao encontro daquilo que o educador/professor considere ser razoável, já que é a este que cabe orientar o processo e deverá ter a última palavra. Acredito que adultos e crianças têm o mesmo valor, mas diferentes papéis e isso tem de ficar bem vincado na relação.

A chave para uma melhor gestão das relações em sala passa por envolver as crianças neste processo, permitindo que participem nele, por exemplo colaborando na elaboração das próprias regras da sala.

O conhecido provérbio africano, que aliás cita no seu livro, diz que «É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança». Assim sendo, angustia-o pensar que os seus filhos, noutros contextos e situações, nomeadamente no infantário, na escola ou até mesmo com outros adultos de referência, poderão ser sujeitos a diferentes normas ou princípios educativos? Poderá, de alguma forma, a criança sentir-se confusa com formas contraditórias de reagir face a um mesmo comportamento?

Esse confronto com diferentes modelos ou estilos educativos é inevitável, por isso não é algo que me angustie, pelo contrário. Quando se tornarem adultos, também terão de lidar com pessoas muito diferentes, com diferentes princípios, valores e educação, e nessa altura terão de fazer escolhas. O mesmo se passa enquanto crianças, em que começam desde cedo a saber distinguir as regras em diferentes contextos, a adaptar-se às circunstâncias e a fazer as tais escolhas.

Educar Pela Positiva

Como pode um pai reagir face a um educador que usa formas de condicionamento clássico, como o castigo e a recompensa, como forma de regular comportamentos?

Considero que quem deve definir as regras em sala é o educador, pelo que os pais não devem interferir. No entanto, sempre que os pais discordem de algo que vá contra aquilo que defendem ou em que acreditam, devem manifestá-lo de forma construtiva em reunião solicitada para o efeito, procurando perceber o porquê de determinadas opções ou ações e manifestando as suas preocupações. Em última instância, se as opções do educador forem radicalmente opostas aos princípios e convicções defendidos pelos pais, poderão estes, então, ponderar uma mudança de escola.

Quem deve definir as regras em sala é o educador, pelo que os pais não devem interferir.

Quem convive com professores e educadores já ouviu, certamente, desabafos do tipo "Ah, se fosse meu filho não fazia isto!", "Os pais agora têm medo dos filhos, deixam-nos fazer tudo!" ou "Faltou-lhe a palmada no momento certo!". Há alguma situação em que se justifique o recurso à palmada? Usada assim como uma espécie de "bomba atómica"?

A palmada "no momento certo" leva à agressividade "no momento certo". Comportamento gera comportamento e ao batermos estamos a validar essa ação, como que a dizer: "Quando estiveres zangado, frustrado ou irritado, é válido que batas, porque eu também o faço". É natural que, um dia, o filho a quem levantámos a mão nos levante a mão também…

As frases típicas que refere indiciam a realidade atual, passámos de uma geração de pais demasiado autoritários para uma geração de pais demasiado permissivos. A Disciplina Positiva pretende romper com estes dois modelos educativos de extremos e permitir aos pais e aos educadores encontrarem um equilíbrio, um terreno intermédio, que se baseia desde logo na ideia chave de firmeza e carinho ao mesmo tempo. Porque todas as crianças precisam de regras, limites e rotinas, mas só conseguimos estabelecer tudo isso com eficácia se respeitarmos a criança e conseguirmos mostrar-lhe que o amor por ela é incondicional (e não condicionado pelo seu comportamento).

educar pela positiva

Da sua experiência como formador e contacto com pais e professores parece-lhe que há disponibilidade para uma mudança de atitude face à forma como se educa? Qual seria a melhor forma de passar a mensagem sobre os benefícios da educação pela positiva?

Sinto essa vontade de mudança todas as semanas, pela adesão cada vez maior de pais e educadores aos workshops e palestras interativas que levo de norte a sul do país! Mas mudar é difícil, não basta querer. É preciso sairmos da zona de conforto, exige paciência e persistência, e isso dá trabalho. Não tento convencer ninguém sobre os «benefícios» deste modelo educativo, nem ensinar ninguém a educar. Apenas pretendo levar a que os pais e educadores façam uma reflexão profunda sobre o seu papel (onde estão, para onde querem ir e o que precisam de fazer para lá chegar), apresentando-lhes também um conjunto de estratégias e ferramentas para que encontrem as suas próprias respostas aos desafios que enfrentam na educação. Mas sem quererem ser perfeitos. Como já foi referido acima, são eles os verdadeiros especialistas nos seus filhos e educandos.

Entrevista de Isabel Reis


Isabel Reis é licenciada em Comunicação Social, tem pós-graduação em Edição e Mestrado em Educação. Atualmente, desempenha funções como educadora de infância e é tradutora e jornalista free lancer.

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