Rita Silva Freire é por estes dias uma mulher feliz. Aguarda o nascimento do seu segundo filho. Há quatro anos, Rita foi mãe do ´Manel`.  Na época, tal como agora, a jornalista, enfrentou uma multidão de perguntas pessoais a propósito do parto  Perguntas ansiosas, outras expetantes, outras ainda esperançosas. Para muitas das questões sobre o momento que, para a mulher, traça a fronteira entre a gravidez e o acolher o seu bebé nos braços, Rita Freire não encontrou respostas em livro.

Face ao exposto, Rita, atualmente a viver em Varsóvia, na Polónia, escreveu o seu livro. Fê-lo a muitas vozes. As das mulheres que nos revelam em “Trazer ao Mundo” (edição Contraponto), as suas histórias de partos, contadas na primeira pessoa.

Rita dá-nos a sua obra com um objetivo: “Levar essas histórias até às mulheres, descansá-las, mostrar-lhes que o dia do parto pode mesmo ser um dos dias mais felizes da sua vida”, como nos refere na conversa que mantemos com a mulher que não esquece que Portugal é um bom país para ter um filho. “Não podia querer ter o meu bebé noutro país. Quando corre bem, e normalmente corre, um parto é algo muito simples e natural. Mas, quando corre mal, é bom confiar nos profissionais que nos assistem”, sublinha.

Uma conversa onde também não fica à porta o tema da culpa, sobre as escolhas de cada mulher sobre o tipo de parto que quer ter. "Terá alguma dificuldade em perceber o que é melhor para si, e para o seu bebé, se ouvir, e ler, todas as opiniões que lhe chegam, além das dos médicos e enfermeiras que a acompanham". Também por isto, para esclarecer dúvidas, Rita quis dar aos escaparates o seu livro.

A abrir o seu livro, a Rita, enfatiza a expressão “a pior mãe”, face a todas as escolhas a que a mulher está sujeita e a facilidade com que avaliamos um caminho que não é o nosso. Quase que podemos dizer que hoje em dia a mulher encara o parto com sentimento de culpa. Como comenta?

Nunca tanto se falou de parentalidade como hoje. Se antes os conselhos e opiniões chegavam pela boca da mãe, sogra, irmãs, amigas e cunhadas, hoje, entre redes sociais e meios de comunicação social, chegam de todos os lados. E, por norma, estamos sempre a fazer alguma coisa errada aos olhos de alguém. O mesmo se aplica ao parto: O melhor é natural, cesariana é mais seguro, anestesia pode fazer mal ao bebé, a água é o melhor para alívio da dor, nem pensar ter bebé num hospital privado, os públicos estão cada vez pior... E por aí fora. Não sei se a mulher encara o parto com culpa. Mas, seguramente, terá alguma dificuldade em perceber o que é melhor para si, e para o seu bebé, se ouvir, e ler, todas as opiniões que lhe chegam, além das dos médicos e enfermeiras que a acompanham. É urgente libertar as mães da culpa. Neste livro tento esclarecer algumas dúvidas. Sem julgamentos ou preconceitos.

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Rita Silva Freire créditos: Raquel Wise

A leitura do seu livro alerta-nos para um comportamento quase esquizofrénico da sociedade. Por um lado, o empoderamento das mulheres dá-lhes, genericamente, liberdade de escolha para o parto que querem ter. Contudo, posteriormente, são censuradas pela escolha. Há, de facto, liberdade nessa escolha?

Há liberdade na escolha, claro que há. Mas não deixa de existir também a crítica dessa escolha. Quem nos diz que temos liberdade para escolher normalmente também tem uma opinião sobre a escolha que devemos fazer. Mas, se falamos especificamente de partos, há um limite para a escolha: aquilo que é o mais seguro, naquele momento, para o bebé. Ou seja, por mais que eu queira um parto normal, nem sempre isso é possível. Devemos sempre ouvir os profissionais que nos estão a acompanhar.

Hoje, graças à medicina, ao acompanhamento da grávida durante a gravidez, o parto é percepcionado como um evento seguro. Portugal é um país diferenciado, não nos sentimos em risco quando vamos ter um bebé.

Rita, estamos a complicar o parto, aquilo que na humanidade é intrinsecamente natural?

É natural, mas não nos podemos esquecer de que há cem anos muitas mulheres, e bebés, morriam no parto. Hoje, graças à medicina, ao acompanhamento da grávida durante a gravidez, o parto é percepcionado como um evento seguro. Portugal é um país diferenciado, não nos sentimos em risco quando vamos ter um bebé. E, por isso, queremos que essa experiência, além de segura, seja a melhor possível. Não acho que isso seja complicar.

Na pergunta anterior, toquei na questão “natural”, tendo consciente que em todas as sociedades o parto também é uma expressão da cultura. Olhando para o nosso país numa perspetiva cronológica, não podemos negar que temos dado passos qualitativos importantes nesta questão. Onde vê a Rita as principais virtudes na forma como encaramos e tratamos o parto em Portugal?

Nos números. Tal como disse, somos um país diferenciado. A morte materna em Portugal é extremamente reduzida [7 por cada 100 mil] tal como a mortalidade infantil [2,7 crianças por cada mil com menos de um ano]. Não podia querer ter o meu bebé noutro país. Quando corre bem, e normalmente corre, um parto é algo muito simples e natural. Mas, quando corre mal, é bom confiar nos profissionais que nos assistem. E eu confio imenso nos hospitais, médicos e enfermeiros portugueses.

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Rita, há uma afirmação interessante da sua autoria no livro: Diz-nos que se o parto fosse assunto de homens, seria discutido até à exaustão. No caso das mulheres é tratado em surdina. Porquê?

As coisas estão a mudar, é verdade, e para melhor. Hoje fala-se de partos e de direitos da mulher no parto, é tema de jornais. Mas pouco aprofundado. Quantas reportagens já lemos sobre partos? Sobre o que realmente acontece? Não apenas sobre números de cesarianas no público e no privado, outros dados, o que corre mal. Sendo o parto uma das experiências mais marcantes da vida de uma mulher, como é possível que tantas de nós cheguem a esse dia sem saber com detalhe o que vai acontecer? Não há quase literatura sobre o assunto. E não falo da não-ficção. Quantas vezes lemos nós, num romance, a descrição de um parto? Os homens não falam disso – até porque só muito recentemente foram convidados a entrar num bloco de partos ou num quarto onde uma mulher está a ter um bebé, até há muito pouco tempo ficavam do lado de fora. E, se as mulheres escreverem sobre o tema, são logo empurradas para a chamada literatura feminina. Quem fala de literatura fala das outras áreas. A ideia de parto que nos é transmitida é a dos filmes: uma mulher aos gritos, meia tresloucada. Mas um parto não é assim. Ou não é necessariamente ou apenas assim. Se os homens parissem tenho a certeza que já teríamos lido, de todas as formas, a descrição de quanto dói uma contração. Assim ainda é muitas vezes visto, como tantas outras coisas, como uma coisa de mulheres. Isso está, e ainda bem, a mudar.

Bem, em rigor, o parto também é um assunto de homens. A questão é se eles, de facto, estão empenhados num papel ativo. Estão?

O que é um papel ativo? É apoiar e estar presente? Ou é tomar decisões pelas mulheres? Claro que o parto é um tema que lhes diz respeito, os filhos são também deles. Mas preocupa-me sempre os homens quererem  tomar decisões sobre o sistema reprodutor das mulheres. Apoiarem as mulheres é uma coisa, quererem decidir por elas é outra. O corpo é nosso. As dores são nossas. Imagine uma mulher que quer uma epidural e um homem dizer que ela pode bem aguentar a dor porque não quer pôr em causa a boa progressão do trabalho de parto ou que teme que faça mal ao seu bebé. E isto pode ser, apenas, o começo.

As coisas estão a mudar, é verdade, e para melhor. Hoje fala-se de partos e de direitos da mulher no parto, é tema de jornais. Mas pouco aprofundado. Quantas reportagens já lemos sobre partos? Sobre o que realmente acontece?

O papel do pai no parto tem mudado. Há muitos pais, efetivamente, empenhados em acompanhar a mulher, participar, ter uma atitude ativa. Mas, estará o nosso sistema nacional de saúde preparado para isso?

Pela lei vigente, a mulher tem direito, caso o deseje, a ter um acompanhante no parto, não necessariamente o pai, caso não exista uma situação médica que o impossibilite. Mas isso não é possível em todos os  hospitais. O que não está relacionado com o Sistema Nacional de Saúde mas com a estrutura arquitectónica dos hospitais que, quando foram feitos, há muitos anos, naturalmente não o previram. Até serem feitas obras nos blocos de parto, em muitos hospitais continua a não ser possível o pai, ou o acompanhante que a parturiente deseje, estar presente durante o parto.

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créditos: Contraponto

Amiúde, é debatida a questão de se estar a “abusar” no número de cesarianas, em detrimento do parto natural. Na sua opinião é lícito questionar essa escolha das mulheres?

A cesariana é uma cirurgia e tem riscos. Acho que, se não existirem critérios médicos para se realizar uma cesariana, a mulher deve ser informada de todos os riscos que corre ao fazer essa opção. Se continuar a ter essa vontade, quem sou eu para a questionar? Não me cabe a mim julgar. Aliás, o que defendo neste livro é exatamente o contrário: Que as mulheres não se julguem umas às outras e às suas escolhas. Deve ser uma decisão tomada entre a mulher e o seu médico. Em consciência. E em verdade. De parte a parte.

Também não faltam vozes na oposição aos partos em casa. A discussão do assunto toca muitas vezes em expressões como “irresponsabilidade da mulher”. Será que a podíamos ver a questão de outra forma, ou seja, porque não capacitar o sistema nacional de saúde de meios para esse parto acontecer?

Também podemos questionar: O que leva as mulheres a querer ter o seu bebé em casa? Neste livro a enfermeira obstetra Luísa Sotto-Mayor sugere algo muito interessante: a hipótese de se ter um bebé num hospital como em casa. E cita o exemplo norueguês onde, diz, há dois tipos de sala de parto, a convencional e a natural, separadas por um corredor. A mulher que quer ter um parto natural sabe que ali vai ser acompanhada por enfermeiras-parteiras, ter um colchão no chão, banheira, tudo o que pode ter em casa, um parto natural, fisiológico, sem qualquer intervenção. Mas sabe também que, caso exista alguma complicação ou mude de ideias, lhe basta atravessar o corredor para estar numa sala de partos convencional, com médicos, epidurais, bloco operatório. Ou seja: a mulher está como se estivesse em casa com a vantagem de estar num hospital e poder ter resposta médica imediata caso alguma coisa corra mal. Segundo Luísa Sotto-Mayor, quase não há partos em casa na Noruega.

A cesariana é uma cirurgia e tem riscos. Acho que, se não existirem critérios médicos para se realizar uma cesariana, a mulher deve ser informada de todos os riscos que corre ao fazer essa opção.

Uma das razões que a levou a escrever o seu livro deveu-se ao facto de não ter encontrado uma obra com abordagem ao tema. A Rita humaniza-o. Na sua opinião, tudo o que está escrito sobre o parto trata-o como uma mera questão técnica?

Sim. Imagino que existam exceções que não encontrei. Só em Portugal publicam-se cerca de quinze mil livros por ano, imagine-se no mundo. Mas  eu não encontrei histórias, nada que contasse um parto na perspectiva da parturiente, o que se sente, desde a primeira contração. Como e quanto dói uma contração, o que dói um parto, como tudo decorre desde que se entra no hospital, quanto tempo demora, o que pode acontecer e como. Foi isso que quis fazer: Levar essas histórias até às mulheres, descansá-las, mostrar-lhes que o dia do parto pode mesmo ser um dos dias mais felizes da sua vida.

A Rita foca no seu livro a violência obstétrica. Esta é mais do que uma expressão física, certo?

“Quando o fizeste não te queixaste, porque é que agora estás aos gritos?”. Ao longo dos tempos, foram muitas as mulheres que ouviram isto durante o seu parto. A violência obstétrica [física ou verbal] sempre existiu, hoje há um conceito para a definir. Mas depois de todas as conversas que tive com várias mulheres acho que tudo melhorou: já não é um tema tabu e, portanto, é também uma preocupação dos profissionais de saúde. Mas a violência obstétrica passa, também, por não se dar à mulher toda a informação sobre o seu quadro clinico, não se obter o seu consentimento informado para certos procedimentos ou dar-lhe informação incompleta ou tendenciosa sobre as hipóteses que lhe são colocadas. Se um médico levar uma mulher a consentir numa cesariana sob falsos pretextos para sua conveniência isso é violência obstétrica. E pode ser feito com um sorriso.

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Ainda sobre a violência obstétrica, ficamos chocados com alguns relatos que nos traz no seu livro. Como é possível mantermos certas práticas? Considera a sociedade as vê como “normais”, por exemplo, a mulher tem de sofrer no parto e não as questiona ou debate?

Como disse acho que se, por um lado, se fala cada vez mais deste tema, por outro cada vez mais as mulheres e os seus direitos são respeitados. O que acontece é que, ao deixar de ser um tema tabu para passar a ser discutido, isso pode gerar a percepção que há cada vez mais episódios desses. Não me parece que seja o caso.

´Quando o fizeste não te queixaste, porque é que agora estás aos gritos?`. Ao longo dos tempos, foram muitas as mulheres que ouviram isto durante o seu parto. A violência obstétrica [física ou verbal] sempre existiu

Rita, depois de falar com perto de duas dezenas de mulheres a propósito de um momento tão seu, o do parto, o que mudou, em si, na forma de encarar esse ato?

Estou agora à espera de bebé e, tudo o que desejo, é ter um parto semelhante ao primeiro: Tranquilo, sem dor, acompanhado pelo meu obstetra e em segurança. No entanto, sei que tudo pode mudar a qualquer altura. Hoje estou mais informada sobre o que vai acontecer do que estava na minha primeira gravidez. Por um lado, já sei o que dói uma contração e quanto tempo pode decorrer entre a primeira contração e o nascimento do bebé. Por outro lado, depois de ter falado com tantas mulheres, com médicos, enfermeiros, sei que há muitas maneiras de nascer. E que todas elas trazem uma enorme felicidade aos pais. Mesmo quando o parto não corre como o esperado. O dia em que nascem, saudáveis e em segurança, os nossos filhos é um dos dias mais felizes da nossa vida. Não há nada melhor que os ter no colo.

Um dos relatos incluídos no livro é o da gravidez e parto da própria Rita. Tendo de sintetizar em poucas palavras esse período o que nos transmite?

Essa felicidade. O parto do meu filho foi perfeito – para mim. Ele nasceu bem, saudável, de forma tranquila. Ou pelo menos foi essa a minha percepção. De repente, num segundo, tudo mudou: De dois passámos a três. Essa felicidade é incomparável. Tenho a certeza de que se o parto tivesse sido diferente, se o resultado fosse o mesmo, a felicidade seria igual. A partir do momento em que somos mães, deixamos de controlar muitas coisas. O parto, muitas vezes, é uma delas.

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