São mochilas, cadernos de vários tipos, dossiês, compassos, dicionários, canetas, bolsas e bolsinhas para isto e para aquilo; material específico para desporto e outras áreas/disciplinas; pagamentos a fazer para atividades (depois das aulas) na escola, em centros de estudo, de ocupação de tempos livres. Como se tudo isto fosse normal, ainda encontrei numa farmácia o folheto - regresso às aulas – a anunciar, pasme-se pelo absurdo, suplementos para a memória e concentração como se fosse a coisa mais normal do mundo a dar a crianças e jovens do ensino básico. Mas a questão é: gasta-se mais nos manuais ou em tudo o resto? O que fundamenta a necessidade de gastos tão avultados?

Ora, há gastos e gastos. Não estando o trabalho dos pais organizado de modo compatível com os horários das crianças, há que pagar os custos da situação, não há volta a dar. A horas tardias, é chegar a casa de cara alegre, tratar dos banhos, do jantar e cama. A não ser que haja avós por perto, é assim e ponto final. Mas quanto a manuais e cadernos de fichas para as diferentes disciplinas e quanto à panóplia de materiais pedidos, é mesmo preciso que, desde o 1º ano de escolaridade, as famílias comprem tudo?

Se continuarmos a validar um modelo escolar e de sociedade orientados para o individualismo, para a competição, para o consumismo, claro que sim. Mas se quisermos alterar padrões que diminuem a qualidade de vida das crianças e das famílias a resposta será outra. Se cada turma for gerida como um coletivo e não como uma soma de vinte e alguns alunos, creio que não serão precisos, em cada sala, vinte e tal dicionários, vinte e tal cadernos de fichas por disciplina, vinte e tal conjuntos de lápis de cor e por aí fora.

Porquê? Não estamos a partir do vazio. Cada ano escolar não é um ano zero. Haverá materiais que não é preciso comprar porque já existem. Os professores sempre produziram materiais, ano após ano, na dinâmica pedagógica interna de cada escola, o que permite a existência de bolsas de materiais para ensino como fichas, ficheiros e arquivos para as diferentes disciplinas. As bibliotecas estão razoavelmente apetrechadas, o Ministério disponibiliza materiais de referência. Na internet encontram-se materiais sem conta, disponibilizados por escolas, professores, associações e outras instituições credíveis. Ultimamente multiplicam-se plataformas digitais. Veja-se a ENSINA RTP que pode servir Português, Ciências. História, Cidadania.

Assim sendo, usando da sua autonomia, cada escola poderia tomar decisões a este respeito. Com os representantes dos pais poderiam ser encontrados outros modos de organização e de gestão dos materiais já existentes e dos que seria necessário adquirir. Haveria certamente alguns materiais que todos teriam que ter e outros que não. Haveria, como sempre houve, professores e mesmo disciplinas que dispensariam a compra do manual porque a opção não é centrada num manual mas na diversidade de recursos, de suportes de ensino, de uma aula mais ajustada às necessidades dos alunos. A aquisição e a organização dos recursos seria encarada de outra forma. Palavras como PARTILHA e POUPANÇA teriam tradução prática. As crianças poderiam aprender desde cedo a viver, a entender e a interiorizar o valor e o sentido da partilha e da economia de recursos.

E não teria cada uma delas de carregar na mochila um dicionário, manuais que não são necessários todos os dias, bolsas e bolsinhas com lápis, canetas, marcadores e tantas outras coisas em viagem diária que dão uma carga de 6-7-8-9 quilos.

Vai continuar a manter-se tudo como está? Não há paciência nem saúde que aguente. E da carteira nem se fala!

Maria de Lurdes Monteiro

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