Nunca é uma situação fácil. «O divórcio dos pais é sempre uma experiência muito intensa para as crianças, entendida por elas consoante a idade e a maturidade, mas o modo como é transmitido é decisivo», sublinha a psicóloga Lúcia Bragança Paulino, autora do livro «Agora Tenho Duas Casas», publicado pela Arteplural Edições. A decisão deve ser comunicada calmamente, em conjunto e «sem pormenores sobre as suas motivações», aconselha. Até aos três anos, a criança não terá perceção clara do que aconteceu.

«As estruturas cerebrais responsáveis pelo processamento da memória só registam os acontecimentos após os quatro anos de idade», sublinha a especialista.  Mas, a partir daí, sobretudo após a entrada na pré- adolescência, há um sentimento de perda. Os adolescentes, em particular, sentem-se vítimas do processo. «Além de poderem perder contactos e conquistas, têm as emoções à flor da pele e encontram dificuldades em geri-las», descreve a psicóloga.

No entanto, passado o choque inicial, «após o luto pela família, se mãe e pai conseguirem resolver o conflito, a criança sentir-se-á melhor e mais segura», assegura a especialista. Se o processo for conduzido de forma civilizada e equilibrada, poderá haver outros benefícios, nomeadamente celebrações duplas (dois aniversários e duas celebrações de natal, por exemplo), novos laços afetivos com novos amigos e novas famílias, exercício e desenvolvimento da maturidade, da resiliência e da confiança.

Focar-se no que realmente importa

As estratégias que permitem que os filhos se adaptem sem demasiado sofrimento não são complicadas mas num contexto de divórcio os adultos estão demasiado envolvidos nos seus problemas e perdem, em muitos casos, o foco do que é mais importante, incluindo o bem-estar emocional das crianças.  «Os pais devem adotar um discurso positivo, referindo que é verdade que se vão divorciar/separar mas que a relação enquanto pais nunca deixará de existir», aconselha Lúcia Bragança Paulino.

Devem explicar que o seu amor pelos filhos se mantém inalterado, tal como as suas responsabilidades, e que estes não têm a menor culpa ou influência na decisão. Haverá muitas mudanças mas os papéis de mãe e pai não mudam. A criança vai descobrir que o casal, enquanto tal, deixa de existir mas abre-se mais espaço para fortalecer, desenvolver e potenciar as relações individuais mãe/criança e pai/criança.

Tudo se torna mais simples quando a comunicação entre pais é mais cordial. «Quando conseguem ultrapassar dissidências, a criança sente-se melhor e mais segura», assinala a especialista que lembra que se o ambiente familiar não era bom antes da separação, só poderá melhorar depois dela. A realidade prática de muitos casais acaba por o comprovar na prática, reconhecendo muitas das crianças que a situação que viviam anteriormente era insustentável.

Veja na página seguinte: O problema da custódia

A custódia

É a decisão mais importante num processo de divórcio e hoje defende-se que a criança deve beneficiar do acesso aos dois progenitores, mantendo relações estáveis com ambos. O modelo legal depende de vários fatores, «como a idade, a flexibilidade de horários dos adultos e o envolvimento do pai ou mãe antes do divórcio, mas a guarda partilhada é a solução mais preconizada», conta a psicóloga, segundo a qual, será o modelo em que a criança estará mais protegida, mais feliz e poderá adaptar-se com maior facilidade à separação dos pais e a novas dinâmicas familiares.

«A guarda partilhada», explica, «consiste numa alternância equitativa entre residências por parte da criança, na maioria dos casos, em igual número de dias entre a casa da mãe e a casa do pai, mas pode variar consoante a situação. Em Portugal, a mais comum é uma semana em cada casa, mas há outros modelos. Não obstante, mesmo nos casos sem guarda partilhada, havendo acordo entre os pais, pode-se partilhar o tempo em condições substancialmente iguais, ajustando férias, feriados, noites a meio da semana com o progenitor menos presente».

E se o divórcio for litigioso?

«A resposta será sempre o foco na criança e não na problemática entre o ex-casal», considera a psicóloga.  «Se o relacionamento presencial entre pais é difícil, nos momentos de entrega da criança, por exemplo, este deve ser evitado e a transição poderá ser feita num local neutro, como a escola. A criança deve sentir que os pais agem como uma equipa, mesmo que assim não seja». É essencial «evitar qualquer tipo de comunicação que possa gerar um conflito à frente da criança».

Outra das regras passa por «não criticar o estilo de vida do ex-companheiro na sua presença e respeitar os horários do outro progenitor, assim como  discutir hipóteses de alteração de horários diretamente com o outro progenitor e nunca por intermédio da criança», recomenda ainda a especialista, que defende que os pais não devem incutir medos nem receios nas crianças e muito menos utilizá-las como arma de arremesso ou de vingança.

Parentalidade positiva

Não será fácil para os pais colocar as necessidades da criança sempre acima dos seus próprios medos e sentimentos intensos, mas um esforço para a resolução de conflitos é determinante para o seu bom desenvolvimento psico-emocional, considera Lúcia Bragança Paulino, psicóloga, que enuncia três conselhos de parentalidade positiva que os casais em processo de separação devem ter em conta:

1. Comunicar de forma positiva com o outro progenitor em tudo o que seja do interesse da criança.

2. Incentivar o desenvolvimento da relação da criança com o outro progenitor.

3. Apoiar a relação da criança com o outro progenitor, confiando nas suas capacidades.

Veja na página seguinte: O trabalho de equipa que os ex-casais devem fazer

O trabalho de equipa que os ex-casais devem fazer:

«Será essencial separar os papéis de pai/mãe dos de antigo marido/mulher», indica Lúcia Bragança Paulino, psicóloga. Descubra aqui como e partilhe-o com o seu ex-companheiro(a). As crianças agradecem. Estas são as ações a empreender em conjunto:

- Comuniquem a decisão em conjunto quando estiver bem ponderada, com calma. Demonstrem segurança em relação à decisão, assumam a responsabilidade da mesma e expliquem à criança que nada afeta o amor que ambos têm por ela. Não entrem em pormenores sobre as razões que os levaram à separação ou divórcio.

- Elaborem um plano sobre as rotinas do filho (ou filhos), nomeadamente sobre questões como as idas para a escola, o Natal e o dia de anos. As regras devem ser semelhantes nas duas casas, o que pressupõe diálogo entre adultos.

- Ajudem a criança a exteriorizar o que sente. Os pais devem proporcionar espaço para a criança verbalizar os seus sentimentos (por exemplo, através de desenhos). Falem com ela, leiam e comentem livros, ou filmes que abordem a temática da família.

- Mostrem disponibilidade para contactar a criança quando está com o outro progenitor e/ou ser contactado por iniciativa da criança.

- Permitam que a criança leve brinquedos, objetos e/ou roupas preferidas para a outra casa.

- Não expressem ressentimento. A zanga e o ressentimento devem permanecer num processo individual de luto, não envolvendo a criança neste clima de emoções negativas face ao outro progenitor.

- Não utilizem a criança como mensageira. Quando a comunicação entre pais é feita através da criança, ela tem de carregar o peso do conflito.

Sinais de alarme que indiciam que alguma coisa não está bem

Durante um processo de divórcio ou no seu seguimento, é possível e natural que a criança se sinta confusa, ansiosa, triste ou até zangada. Se notar que o seu filho apresenta algum sintoma fora do comum, leve-o a um psicólogo. Estes são os comportamentos a que deve estar atento:

- Quebra no desempenho escolar

- Isolamento entre pares  (que dificulta  a superação)

- Regressões e birras

- Humor triste

- Resistência em colaborar na nova vida familiar

Texto: Leonor Macedo com Lúcia Bragança Paulino (psicóloga)

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