Uma gravidez e a expectativa do parto são sempre momentos de grande felicidade e ansiedade por parte dos pais e de toda a família. Através do livro Nascer Saudável. Gravidez e Parto Informado, já disponível nas livrarias, Sandra Oliveira pretende ajudar todos os pais a esclarecer várias dúvidas relacionadas com esta experiência.

A autora é também a primeira e a única portuguesa com a certificação internacional da DONA International, a primeira e maior organização de doulas a nível mundial.

Nesta entrevista, Sandra Oliveira partilha a sua visão sobre parto informado, pós-parto e do papel da doula em Portugal.

Na sua opinião e experiência, quais são os maiores receios dos futuros pais em relação ao parto?
Os maiores receios envolvem primeiro o bebé e depois a mãe, e tudo o que diga respeito ao bem-estar dos dois. Alguns casais mais informados referem também como receios as práticas hospitalares desactualizadas e desrespeitadoras.

Para atenuar esses medos e receios, o que os pais devem fazer durante a gravidez?
Há medos que são impossíveis de eliminar quando se fala de parto. O mesmo já não se pode dizer das más práticas, aí o que os pais podem fazer é mesmo munirem-se da melhor informação existente, reforçarem a confiança e apoio, procurar o local de parto que mais lhes parecer adequado, e ao longo do processo fazerem por sentirem que estão a dar o seu melhor e a decidir em consciência.

As mulheres são mais ansiosas em relação ao parto? Ou os pais hoje em dia estão mais envolvidos?
Naturalmente que sendo o processo de parto algo que depende totalmente do corpo da mulher e do bebé que cresce dentro de si, são as mulheres que mais tempo mental e físico dedicam a um momento que sabem que lhes vai ser exigente, e que as marcará para sempre. São elas que, no limite, correm risco de vida, não os pais, convém não nos esquecermos disto.

Cruzo-me com pais com todo o tipo de atitudes, desde os que assumem que “isso é um assunto de mulheres”, aos que querem estar presentes em tudo o que envolve o processo. Temos que ter consciência que não é o envolvimento dos pais na gravidez e parto que faz deles melhores ou piores pais. Na minha opinião, os laços paternos dependem acima de tudo da capacidade que o homem tem de amor pelo próximo. Quando essa capacidade de amar e cuidar existe seja por quem for, por um filho será algo que lhe surge ainda mais naturalmente, e intrinsecamente para o resto da vida(...). Há que, sempre que possível, respeitar aquilo que cada casal apresenta como sendo a sua forma de estar na fase da vida que vivem, e evitar o mais possível os estigmas que a sociedade vai criando. Estigmas esses que se forem bem analisados podem ter contributos bem negativos na vida dos casais.

O que é um parto informado?
Um parto informado nos dias de hoje, infelizmente é mais uma necessidade que foi criada pela sociedade moderna. Sendo o parto um processo tão natural e biológico, não deveria de ser necessário ocuparmos tanto do nosso tempo em busca de informação, e deveria de ser algo que se passava entre pares, como foi durante tanto tempo. Mas nos dias de hoje, com a vida moderna da mulher/famílias, com o que a obstetrícia atual apresenta como cuidados, é efectivamente pertinente a mulher estar munida de conhecimentos básicos para que possa proteger-se e ao seu bebé. É importante ter informação essencial da fisiologia da gravidez, parto e pós parto. Conhecer sinais de risco, e estar actualizada do que são boas práticas nos cuidados que vai precisar.

Como podem obter essa informação?
Onde obter informação foi o principal objectivo do meu livro "Nascer Saudável". Desde que criei o meu programa de preparação para o parto em 2006, que na verdade é sim um programa de informação para o parto, que procurei colmatar essa lacuna no nosso país.

O site Bionascimento surgiu igualmente com esse propósito e tem disponível de forma gratuita um livro de inquestionável qualidade para se obter informação tanto na gravidez, como no parto: Guia para atenção efetiva na gravidez e no parto, cujos autores tiveram um importante papel na medicina baseada em bons fundamentos.

Conhecer a Biblioteca Cochrane é imprescindível para que se tenha informação de qualidade. As mulheres têm que ficar autónomas de onde encontrar informação de qualidade. É algo que lhes fica para a vida. Vejo nas mulheres grávidas uma excelente estratégia de combate à iliteracia na saúde, que em Portugal, ao que consta está na ordem dos 49%.

O que é que os pais podem esperar do seu livro Nascer Saudável, tendo em conta que na sinopse pode ler-se: "Nascer Saudável" trata do tema da gravidez e do parto como nunca outro livro o fez em Portugal".
É verdade, nunca outro livro em Portugal deu a conhecer às mulheres grávidas e a quem o lesse, a Biblioteca Cochrane. Nunca outro livro abordou de forma tão direta e simples questões tão práticas como as rotinas hospitalares versus os fundamentos existentes do chamado “parto normal”, do parto fisiológico e do parto por cesariana. Com o "Nascer Saudável" procurei passar para o formato livro muito do que tenho aprendido com as mulheres que tenho acompanhado no parto, e com todos estes anos de pesquisas que o papel de ativista me exige. É um livro que tem em si também um sentido crítico sobre o nosso “estado da nação”. No livro convido os leitores a aprenderem a questionar, e a terem autodeterminação na sua saúde, neste caso, na gravidez e parto.

Que conselhos dá a uma mulher que espera ter um parto natural, e a que vai ter de fazer uma cesariana?
Uma cesariana, sendo uma intervenção de salvamento, é sempre uma possibilidade que temos que ter em conta nas nossas expectativas para o parto. O primeiro conselho que consigo dar é que siga a sua intuição e que faça o que sente que quer e consegue perante a situação. Para uma mulher que desejava um parto natural, é importantíssimo que sinta que esgotou todas as possibilidades, e que a cesariana foi mesmo um recurso e intervenção necessária. Muitas vezes para estas mulheres, quando não há indicação clínica contrária, entrar em trabalho de parto é algo a assegurar.

Deverá pedir aos profissionais que tenham presente que apesar de uma cirurgia é um momento que se vai lembrar até ao fim dos seus dias, logo, durante toda a operação ela e o bebé deverão ser o foco e o tema de comunicação dentro do bloco operatório. Aconselho que procure estar acompanhada, se a situação clínica o permitir, tal como a nossa legislação já prevê. Perante o cenário de cesariana, há que garantir aquilo que se sabe ser importante para o bebé, nomeadamente, permitir que o cordão umbilical seja clampeado o mais tarde possível, e depois, contacto pele-a-pele imediato, para que o bebé possa ser respeitado nas suas necessidades essenciais na adaptação à vida extra-uterina. Isto também é possível e igualmente necessário, se não mais até, numa cesariana. Muito contacto pele-a-pele e não é por horas, é por dias. E claro, focar-se num bom início da amamentação, que sabemos que é fulcral para o sistema imunitário do bebé, e para a sua saúde física e emocional.

Sugiro que procurem ter apoio para o pós-parto que muitas vezes é ainda mais exigente. Sou suspeita, mas aconselho vivamente essas mulheres a terem uma doula de parto e de pós-parto também. A doula irá ser é uma guardiã das memórias destas fases tão importantes da maternidade.

A Sandra é a única doula certificada internacionalmente. Como é que o papel da doula é visto em Portugal?
Sou a primeira e a única portuguesa com a certificação internacional da DONA International, a primeira e maior organização de doulas a nível mundial. Felizmente, pela parte que me toca e também por doulas formadas por mim, sinto que é um papel cada vez melhor visto, e é com enorme satisfação e gratidão que já são muitas as vezes que me sinto parte integrante da equipa, que quer prezar a qualidade dos cuidados e apoio que são prestados à mulher-bebé, e ao pai. Mas há ainda muito por fazer. A questão gira em redor do mesmo: iliteracia na saúde. Enquanto as pessoas não souberem como encontrar informação de qualidade, não vão conseguir entender o quanto a figura da doula pode ter um importante papel na saúde materna, e até numa perspectiva de saúde pública. O apoio que as doulas prestam no parto (apoio contínuo e personalizado), é das revisões sistemáticas com mais anos na Biblioteca Cochrane, apontado como uma medida sem efeitos adversos, e com fortes benefícios na redução de intervenções desnecessárias.

Tendo em conta que teve um parto hospitalar e outro em casa, o que nos pode dizer sobre estas duas experiências tão diferentes?
Foram efectivamente experiências bem diferentes, vividas debaixo de contextos muito díspares, e separadas entre si por oito anos, e muitas vivências. Felizmente as duas foram sentidas como muito positivas. Ambas com vantagens e desvantagens. A primeira vivida de uma forma muito intuitiva, a segunda de forma informada, apesar que hoje talvez tivesse tomado decisões diferentes. A primeira foi a que me deu maior satisfação como mulher, a segunda como mãe.

O parto em casa ainda é um "mito" em Portugal?
Não. O parto em casa em Portugal é uma realidade. Existe, e apesar de ser uma escolha de minorias deveria de ser tratado com muita seriedade por parte das nossas políticas da saúde. O parto em casa preocupa-me muito. A ausência de regulamentação no que toca a boas práticas ( e isto aplica-se também ao parto hospitalar) deixa os casais muito desprotegidos, e entregues a profissionais que podem estar a exercer sem ética, e a violarem a legis artis. O parto em casa merece uma discussão pública séria, fundamentada e urgente, que envolva políticos, profissionais e claro, utentes.

Livro
Livro "Nascer Saudável", de Sandra Oliveira créditos: Edições Chá das Cinco

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