São crianças com menos de doze meses “que a cada 10 dias recebem uma lata de leite em pó” de 750 gramas e a cesta básica alimentar para o agregado familiar, tudo oferecido pela paróquia no bairro de Mahate, na zona periférica da capital provincial, conta à Lusa.

Mas o ‘stock’ que a igreja tinha acabou no mês de agosto. “Este mês fiquei sem fundos e estou esperando” por “outras ajudas, para poder responder a estas famílias que sei que ainda não conseguiram ser integradas” pelos programas do Programa Alimentar Mundial (PAM) ou do Governo, descreve.

Há ainda crianças recebidas na paróquia a pedido do serviço de pediatria do hospital provincial.

Famílias já de si numerosas fazem o difícil exercício de ainda acolher parentes, amigos e até desconhecidos que têm fugido do conflito armado.

O caso dos bebés órfãos será um entre outros por entre 817.000 deslocados contabilizados pelas autoridades moçambicanas e com inúmeras necessidades: Oliver aponta para a escola básica comunitária da paróquia para ilustrar outros problemas.

A escola tinha capacidade para cerca de 200 alunos, mas hoje há quatro vezes mais devido aos ataques armados em Cabo Delgado.

A fuga em massa da população para Pemba fez com que aquela escola esteja a acolher 600 a 700 crianças deslocadas.

“A escola está a ser gerida pela Helpo”, organização não-governamental (ONG) portuguesa presente em Cabo Delgado, “em estreita colaboração com a paróquia”, referiu o padre.

As carências são muitas, as crianças representam cerca de metade dos deslocados e com os serviços de educação amputados ficam em risco as perspetivas estruturais da vida dos futuros adultos.

“Trabalhamos para reintegrar estas crianças, com apoio em uniformes, material escolar e alimentação: de quando em vez também se faz uma distribuição de alimentos”, refere Oliver.

Desde julho, o apoio de tropas do Ruanda e da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) tem permitido recuperar diversos locais ocupados por rebeldes, nomeadamente a vila de Mocímboa da Praia, que estava ocupada desde agosto de 2020.

O número de ataques reportados caiu e equipas técnicas têm conseguido ir para zonas até há poucos meses classificadas como inseguras para realizar levantamentos dos estragos provocados por quatro anos de insurgência.

Há apelos das entidades públicas para o regresso da população e o número de deslocados a chegar a Pemba e a outros locais abrandou, depois da última grande vaga, no final de março, após o ataque a Palma, vila dos projetos de gás.

Eduardo Oliver entende que só se pode restabelecer a paz na região se as assimetrias de desenvolvimento forem ultrapassadas.

“Se não se intervém diretamente nas causas do problema, não será possível o restabelecimento da paz e a violência voltará”, alertou.

“Aqui no norte quase não há escolas secundárias”, referiu, dando um exemplo de necessidades de investimento. Intervir nas causas requer fundamentalmente “políticas sociais, de desenvolvimento e investimento em educação”, concluiu.

A província de Cabo Delgado é rica em gás natural, mas aterrorizada desde 2017 por rebeldes armados, sendo alguns ataques reclamados pelo grupo extremista Estado Islâmico.

O conflito armado entre forças militares e insurgentes em Cabo Delgado já provocou mais de 3.100 mortes, segundo o projeto de registo de conflitos ACLED, e mais de 817 mil deslocados, de acordo com as autoridades moçambicanas.

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