Crónica anterior: Gravidez em tempo de pandemia. Bem-vinda ao maravilhoso mundo das teleconsultas


Não sei onde foi parar o tempo, deixei de contar. Entrei em quarentena no dia 11 de março e de repente passaram dois meses. Ou nove semanas. Estava de 24 e já cheguei às 33. Desde aí, as medidas apertaram, chegou a primavera, a hora mudou, temos mais tempo de sol, tivemos belos dias de inverno em plena primavera, abril cumpriu a tradição das "águas mil", maio começou e já estamos quase a meio do mês. Vivi as últimas semanas do segundo trimestre e entrei nos derradeiros e últimos meses de gravidez. Mas sou só eu que tenho a sensação de que, apesar de muito ter mudado, os dias são todos iguais?

Lembram-se quando me queixava de passar demasiado tempo ao computador? Pois bem, passadas duas semanas, o sentimento é o mesmo. Deixámos de estar em Estado de Emergência, mas a minha rotina não mudou, só as minhas formas: estou em franco crescimento o que significa que a vida continua e segue o seu rumo. A miúda cresce de dia para dia.

No entanto, descobri que há uma questão, que me passava completamente ao lado, antes de engravidar, e que se chama mala da maternidade.

Há duas perguntas que muito se têm repetido nas últimas semanas (meses): “Já escolheram o nome?” (está na melhor de três, mas só quando ela nascer) e “Já fizeste a mala?” (também serve a variação “já têm/começaram a preparar as coisas?”).

Tentarem encontrar uma resposta para a data ideal para fazer a mala funciona mais ou menos como acertar nos números do Totoloto: uns sítios dizem 30 semanas, outros 32, outros 34, outros 36. É à nossa escolha, é a conclusão a que chego. Basicamente, o que nos devem querer dizer é "a partir do terceiro trimestre, e antes de lhe rebentarem as águas ou entrar em trabalho de parto, faça o favor de a fazer". E, nesta roleta russa de semanas, volta e meia lá surge a pergunta: “Então e a mala”?

Uma das minhas colegas, mãe de três, mandou-me uma mensagem que dizia algo tão simples como: 'Ela só vai precisar dos pais calmos e felizes, e em especial de ti. O resto faz-se e nua não fica de certeza'

A mala não está feita. E não vai estar para já. Felizmente ou infelizmente, quem tem as roupas de bebé é a minha mãe, que as vai lavar, e ainda tenho coisas para recolher. Quando há umas semanas lhe falei da questão da roupa (estive dois meses sem estar com os meus pais, afinal estávamos em confinamento, separados por mais de 100 quilómetros), ela respondeu-me com um "mas queres isso já para quê? Depois as roupas ficam nas gavetas a ganhar cheiro!". Eu sabia que tinha ido buscar o meu lado prático a algum lado.

Deixem-me que explique uma coisa. Eu (nós, enquanto casal, na realidade) sou aquela pessoa que faz a mala na noite antes de ir de férias ou de viagem. Demoro uns dez minutos. Já aconteceu várias vezes fazê-la no próprio dia e seguir. Aliás, somos aquele casal que divide a mesma mala de viagem quando vai de férias. Malas separadas só quando implica idas de avião pela questão dos líquidos (nem mala de porão levamos). Não somos minimalistas, somos práticos.

Nestas viagens em conjunto, 100% das vezes é ele que a começa. A única coisa que eu tenho de fazer é meter a roupa que vou vestir e tratar do nécessaire (porque é ele a meter coisas até rebentar e eu a tirar). Portanto, aqueles que me dizem “não esperes que ele faça a mala se acontecer algum imprevisto” podem descansar.

Depois do tal texto de há duas semanas, recebi algum feedback. Uma das minhas colegas, mãe de três (leiam aqui a testemunho dela a propósito do artigo que preparámos para o Dia da Mãe), mandou-me uma mensagem que dizia algo tão simples como: “Ela só vai precisar dos pais calmos e felizes, e em especial de ti. O resto faz-se e nua não fica de certeza.”

Era o que precisava ouvir. E esta é a maior mensagem que posso partilhar com todas as mulheres que estão na mesma situação que eu.

Perdoem-me, mas o meu chip ainda não está aí, ainda estou com o modo “trabalho” ativo, e a verdade é que meses fechada em casa não me permitiram tentar começar a preparar coisas, mesmo que quisesse. Porque não era suposto sair e posso dizer que 95% das coisas que tenho até agora são emprestadas ou doadas. Logo, não havia nada que eu pudesse fazer, sem ser mandar vir coisas online que provavelmente não vou precisar assim tanto.

Na última semana, consegui ir recolhendo mais umas coisas que me tinham ficado de emprestar e ainda há recolhas para fazer. Portanto, aos poucos a coisa vai-se compondo. Não tenho a roupa lavada, mas depressa isso se consegue. Quem tem uma mãe tem tudo, não é o que se diz? E a minha está disponível para ajudar nessa parte.

O quarto também está a anos-luz de estar pronto. Mas também não faz mal, sabem porquê? Porque ela não o vai usar nos primeiros meses. A prioridade é montar o berço, daqueles que se acopla à cama (estão a ver qual é) e que também me emprestaram. Fi-lo este fim de semana que passou e não antes para não estar a ocupar espaço no quarto.

Eu digo na brincadeira que esta é a minha primeira gravidez mas já estou com o espírito de terceiro filho: só não levo as coisas num saco de plástico porque não é o melhor exemplo de sustentabilidade.

Mas tenho sacos de pano, daqueles normais, sem nomes, dias ou frases bordadas do tipo “a minha primeira roupa”. O meu namorado quando ouviu isso, convenceu-se que a primeira roupa era uma coisa especial qualquer que tinhamos de ver o que era. É literalmente "a primeira roupa". Depois virá a segunda, a terceira e por aí fora, até começar a repetir as peças.

Nada contra as mães que gostam desses detalhes, mas não somos todas iguais. Estamos constantemente a ser bombardeadas com publicidade a coisas (graças às pesquisas e à publicidade segmentada) que quase acreditamos que precisamos mesmo delas como condição essencial e obrigatória. E se calhar não precisamos.

Definitivamente não era assim que eu pensava que as coisas iam acontecer. Mas esse pensamento parece que aconteceu noutra vida, já foi há tanto tempo, que me recuso a contar porque só ajuda a que fique (mais) abatida

Há umas semanas, o meu namorado entrou em modo pânico depois de mais uma sessão de perguntas: “Já começaram a preparar as coisas? Já têm "isto"? Já têm "aquilo"? Já fizeste a lista do que precisas?”, "Já tens a mala?". A criança ia chegar e não tinha o quarto pronto. Expliquei-lhe que se calhar há coisas mais importantes a tratar primeiro do que a decoração e que só não tínhamos mais básicos e essenciais porque simplesmente não os podíamos ir buscar. Acalmou.

O meu estado de espírito é este: sinto-me mentalmente esgotada. Porque os dias são todos iguais, porque, como estamos em teletrabalho, acabamos por trabalhar mais (é mais difícil desligarmo-nos), porque o tempo vai passando entre a melancolia dos dias de chuva e a pouca vontade de sair de casa por causa da nova logística que temos de obedecer. Porque ainda estamos nas 33 semanas (até às 40 ainda faltam sete) mas também porque já estamos nas 33 (os dias voaram e falta menos tempo para a criança nascer do que aquele que passei em casa).

Definitivamente não era assim que eu pensava que as coisas iam acontecer. Mas esse pensamento parece que aconteceu noutra vida, já foi há tanto tempo, que me recuso a contar porque só ajuda a que fique (mais) abatida.

Não sei quanto a outras grávidas mas volta e meia aparecem-me aquelas mulheres no Instagram (lá estão as pesquisas a funcionar contra mim), que já têm um enxoval e um quarto de bebé todo bonito, prontos às 24 semanas.

Se o conseguiram estão de parabéns. Mas para quem ainda não conseguiu, repitam comigo: “Não faz mal. Os nossos bebés só precisam de pais calmos e felizes e sobretudo de nós (mães). O resto faz-se. Ou vai-se fazendo (ninguém nasce a saber ser pai e ser mãe) que nós estamos neste barco pela primeira vez”.

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Daniela Costa chegou ao SAPO em agosto de 2013, depois de uma passagem por produtoras de televisão em que fez um pouco de tudo: desde programas para a RTP 2 sobre agricultura, pescas e desenvolvimento rural, programas sobre lusofonia, na RTP África ou programas para a RTP Internacional sobre o melhor que se fazia em Portugal nos anos de crise financeira, entre outros. Entrou na equipa do SAPO Lifestyle, em novembro de 2015, e desde fevereiro de 2017 que assume a função de editora.

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