Textos: Patrícia de Sá Oliveira, Rita Afonso e Madalena Carvalho

Edição de texto: Daniela Costa


Este texto foi escrito a três mãos. Foi uma construção feita a partir dos testemunhos destas mães, testemunhos que não serão muito diferentes da realidade de outras casas portuguesas, e que têm vivido esta experiência num misto de aventura, frustração, receio e relativização. A palavra de ordem parece ser mesmo essa: relativizar.

Eu (Daniela) ainda sou aquilo que se pode chamar de uma mãe "under construction", como podem acompanhar nas minhas crónicas "Gravidez em tempo de pandemia", que tenho partilhado semanalmente. Estou mais para pré-mamã do que para Mãe (com M maiúsculo). Ainda vou aprender tudo sobre esta coisa de ser "Mãe".

Mas olho para as minhas colegas e vejo a sorte que tenho em ainda ter a minha criança "arrumada" e aconchegada na minha barriga. Mesmo que isso implique algumas manobras de contorcionismo da minha parte graças aos pontapés e esticar de pernas e braços que a bebé vai fazendo.

O que posso dizer é que olho para as minhas colegas com filhos e vejo isto como uma antevisão do que me vai acontecer ou uma espécie de realidade paralela de como poderia ter sido, se me tivesse antecipado um ano, por exemplo. E caramba, se este processo de confinamento não é fácil, com crianças na equação, vejo um cenário mais complexo, digamos assim.

Vejo isso quando tentamos ter uma reunião e há sempre uma criança (ou mais) a pedir atenção. Lá estão elas nos cantos dos ecrãs dos nossos computadores ou através de vozes vindas do além, a solicitar qualquer coisa urgente, que nunca pode esperar. Vejo as caras delas, com ar cansado, a pedirem paciência, para esperarem só um bocadinho, que têm de acabar o que estão a fazer primeiro. Não tenho dúvidas que chegam ao fim do dia com "a cabeça feita em água".

Estas partilhas são uma palavra (simbólica) para todas as mães espalhadas pelo país, em regime de teletrabalho e não só. Desculpem, pais, mas hoje, o dia é mesmo dedicado às mães.

Patrícia de Sá Oliveira

Creative director da Strazzera, parceira de conteúdos de moda e beleza do SAPO Lifestyle

Dia 31 de julho de 2019, depois de uns quantos momentos de desconfiança, decidi fazer o teste e lá estavam eles: dois tracinhos que eu já conhecia e que sabia que iriam mudar novamente a minha vida.

Não posso dizer que tenha sido uma gravidez fácil: os enjoos iniciais, alguns receios com suspeitas infundadas, uma casa em obras e outro filho para cuidar acabaram por não permitir que vivesse este momento a 100%. Mas o que não imaginava era o que estava para chegar nas últimas semanas de gravidez...

Com a casa na reta final, decidi que iria aproveitar as últimas semanas da melhor maneira até chegar este bebé. Mas o cenário que acabou por acontecer foi completamente diferente.

Com as notícias de uma pandemia mundial começou a instalar-se algum receio e no dia 12 de março decidi, por livre e espontânea vontade, dar início à minha quarentena. Estava a chegar às 37 semanas. As que se seguiram foram um misto de ansiedade e de medo.

Só saía para ir às consultas e o cenário que via a cada semana no hospital era, de facto, motivo para sair de lá em stress. A cada semana mais parecia que entrávamos num campo de batalha: máscaras, luvas, batas, linhas no chão, medição de febre, distância entre pessoas... E algo tão simples, como estar sentada numa sala de espera, passou a ser um momento de desconfiança.

Na consulta das 37 semanas o pai ainda pode entrar no hospital mas já foi aconselhado a não entrar no consultório. Nas seguintes, a espera dele foi feita no carro porque já não podia haver nenhum acompanhamento.

Entre pandemia, confinamento e estado de emergência, chegou o Dia da Mãe. E estes são seus os testemunhos
Arquivo pessoal.

Seguia-se o próximo passo: e o parto? Foram logo avisando que as directrizes a serem implementadas passariam por o pai não poder assistir, não poder estar presente nem dar assistência no trabalho de parto e não poder ficar com a mãe e o bebé depois deste nascer.

Sentimos que todos os nossos planos estavam a ir por água abaixo... Mas decidimos mentalizar-nos para este cenário e irmos vendo o ponto de situação à medida do que ia acontecendo. Nada melhorou até à data em que este bebé decidiu nascer.

Eram 23h20, do dia 3 de abril, quando enviei mensagem ao meu médico a dizer que as contrações tinham chegado nesse dia e que, naquele momento, já estavam regulares de 15 em 15 minutos. Fui encaminhada por ele para as urgências para ser observada.

Chegámos ao hospital e a urgência de obstetrícia tinha mudado para outro local, exatamente para prevenir contágios junto da urgência normal. Assim que entrámos, já com exercícios de respiração porque as dores estavam bastante fortes, foi dito ao pai que não passaria dali. Só o voltei a ver 34 horas depois.

Mandaram-me sentar na sala de espera enquanto faziam a minha admissão, para depois fazer a triagem e ser encaminhada para o edifício onde são feitos os internamentos para partos. Contei com o apoio das enfermeiras e auxiliares que me deram a mão e apoio enquanto esperava e era observada. Passado cerca de uma hora foi decidido que já ficaria lá pois as contrações estavam bastante fortes e regulares.

As horas que se seguiram foram passadas entre chamadas telefónicas, mensagens e videochamadas. Estive todo o tempo sozinha no quarto, em trabalho de parto. Um obrigada às enfermeiras que fizeram muito bem o seu papel e ainda tiravam um tempinho para me fazer companhia e confortar.

Desde videochamadas on hold, sempre que vinha mais uma contração, até a bolsa rebentar em direto num zoom entre amigas, tudo aconteceu...

Depois de 18h em trabalho de parto e pouca evolução da dilatação o médico percebeu, pelos batimentos cardíacos, que o bebé estava a começar a acusar sofrimento e por isso teríamos que partir para uma cesariana porque algo não o estava a deixar descer e fazer o caminho natural de um parto normal.

O pai, mesmo sabendo que não podia entrar, pôs-se a caminho do hospital, para sentir que estava mais próximo de nós. E lá fui eu, sozinha, para o bloco de partos, com o telefone na mão e o pedido de que registassem o momento em que o bebé nascesse. Ele chegou às 19h09 do dia 4 de abril de 2020, no meio desta pandemia mundial. E eu finalmente pude descansar.

Entre pandemia, confinamento e estado de emergência, chegou o Dia da Mãe. E estes são seus os testemunhos
Arquivo pessoal.

Ainda com as mãos presas e sob o efeito da anestesia consegui enviar as primeiras fotos para o grupo que tinha sido criado no Whatsapp com amigos e família sobre as novidades do nascimento do mais pequenino.

Fomos os dois para o recobro e achei que era o último momento nosso, mas fui informada que se o pai entrasse para nos ver já não podia sair mais. Ele não estava preparado para ficar e, como temos mais um filho, decidimos que só viria no dia seguinte.

Eram 10h da manhã quando entrou no quarto para o conhecer. Ficámos o dia todo juntos e na manhã seguinte tivemos ordem para deixar o hospital. Apesar de não termos cumprido as 72h habituais depois de uma cesariana, uma vez que estava tudo bem, decidiram deixar-nos ir embora mais cedo, para um ambiente seguro.

Entre pandemia, confinamento e estado de emergência, chegou o Dia da Mãe. E estes são seus os testemunhos
Arquivo pessoal.

Em casa, e como mãe de segunda viagem, tudo foi mais fácil: já não havia o stress das entradas e saídas do hospital e o contacto com diferentes pessoas.

Quanto à família e aos amigos, puderam conhecer este bebé através do vidro do carro, num momento misto de amor, felicidade, tristeza e injustiça.

Segunda-feira, 4 de maio, faz um mês que nasceu. Não houve sessão de fotos da gravidez, não houve Baby Shower e não sabemos quando poderemos fazer um Welcome Baby para que possa conhecer os colos e os beijinhos dos que já gostam tanto dele e não lhe podem tocar.

Este mês tem sido bastante tranquilo. O facto de termos a experiência de um primeiro filho tem ajudado imenso. Estamos a ser criativos: pesamos o bebé num tabuleiro, na nossa balança digital, e só fomos ao centro de saúde duas vezes – a primeira para fazer o teste do pezinho e primeira consulta e a 2a para levar a primeira vacina e consulta do 1o mês.

O facto de estarmos todos em casa tem ajudado na adaptação do irmão mais velho e sentimo-nos muito mais tranquilos e seguros do que nas últimas semanas da gravidez.

Entre pandemia, confinamento e estado de emergência, chegou o Dia da Mãe. E estes são seus os testemunhos
Arquivo pessoal.

Um dia, quando for mais crescido, iremos contar-lhe a história do momento em que nasceu. Verá as nossas fotos, todos de máscara e irá perceber que nasceu, de facto, numa época especial. Mas que chegou para trazer-nos a tranquilidade e esperança que precisávamos.

Rita Afonso

Coordenação editorial da homepage do SAPO

Ao fim de 53 dias "fechada" em casa com o meu filho de ano e meio, já me considero uma super mulher, uma super mãe.

Nunca gostei de usar estas expressões para me referir às mães deste mundo fora, muito menos aplicá-las a mim própria mas, a verdade, é que este período de confinamento me deu "super poderes" que nunca imaginei ter.

E as outras mães que estão em casa com os filhos há semanas deviam achar o mesmo porque sim, são mesmo super mulheres.

Se antes me queixava de falta de tempo, dos dias cheios e intermináveis, de não conseguir trabalhar em casa enquanto uma criança pequena tentava subir-me para o colo a cada dois minutos e carregava em todas as teclas do meu computador (sim, porque teletrabalho ao fim de semana é a minha realidade há quase 13 anos), hoje sei que aguento isso e muito mais. Uns dias com mais paciência, outros com menos. Custa mas aguento.

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Arquivo pessoal.

Dia a dia, temos conseguido manter uma rotina minimamente estável, com tempo para algumas brincadeiras. Conseguimos seguir uma alimentação variada e saudável.

Temos conseguido manter a casa de pé e, muito importante, tenho conseguido tirar tempo para mim, para recarregar baterias. E esta é só a parte mais importante para qualquer mãe que quer manter a sua sanidade mental nesta quarentena.

Mas conciliar diariamente o trabalho com a educação de um bebé que exige tanta atenção é dose. E ter de cuidar da casa, de pensar nas refeições (porque pensar é, sem dúvida, a parte mais difícil) enquanto "o Panda manda saltar ao pé coxinho" ou o Baby Shark faz "do do do do" o dia inteiro, ter de tratar da roupa... lavar, estender, passar a ferro (raio da roupa que é pior que erva daninha a multiplicar-se)...

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Felizmente divido as tarefas com o pai do meu filho, que também está em teletrabalho, mas enquanto eles (homens) só executam, – e homens, não me levem a mal, mas é mesmo isto que acontece – a cabeça de uma mulher nunca pára. Nunca. Há sempre coisas para fazer.

É preciso admitir que não é fácil. Não é queixume, é mesmo verdade.

E por não ser fácil, há dias em que me vou abaixo e cedo à frustração. Porque está na hora de almoçar e a sopa está por fazer. Porque vejo as tarefas do trabalho a acumular enquanto o meu filho dá voltas e voltas na cama e não quer dormir a sesta. Porque só quer colo enquanto as mensagens no computador se multiplicam e o telefone toca sem parar.

Há dias menos bons, há dias em que só me apetece fugir, confesso, mas também ninguém disse que isto era fácil! A maternidade é mesmo assim, desafiante, ainda mais nesta altura excecional de confinamento.

Curiosamente, este ano, passo o Dia da Mãe em teletrabalho, das 9h às 17h. Vai ser mais um dia igual a outros tantos. Não vou poder dormir até mais tarde, não vai haver celebração especial, não vou ter um almoço diferente, nem aquele lanchinho habitual com as outras mães da minha vida – a minha mãe e a minha irmã.

Mas não me importo porque estes últimos 53 dias têm sido sempre Dias da Mãe, a acompanhar o crescimento e as conquistas do meu filho, que não pára de me surpreender e de me fazer ver que tudo vai ficar bem.

Entre pandemia, confinamento e estado de emergência, chegou o Dia da Mãe. E estes são seus os testemunhos
Arquivo pessoal.

Nota: a escrita deste texto foi interrompida várias vezes, até à sua versão final.

Madalena Carvalho

Gestora de produto e de parcerias do SAPO Lifestyle

Como sobreviver à quarentena com três crianças (8 anos, 6 anos e 12 meses feitos na quarentena) em teletrabalho e com tele-escola (com um pai com muito trabalho e sem tele-ajudas…)?

Se estavam à espera de encontrar a resposta neste artigo podem seguir caminho… Parece impossível, mas ao fim de sei lá eu quantos dias (deixei de contar…) ainda não tenho a resposta. A única coisa que sei é que envolve um multitasking elevado a um patamar até hoje pensado impossível, e aceitar viver no caos e numa montanha russa de emoções constante.

Rapidamente se desenvolve a habilidade de subornar um bebé de um ano a ficar quieto debaixo da mesa onde estamos a fazer uma conf-call com bolachas (sim, daquelas com açúcar que ele não devia ainda nem cheirar…).

Entre pandemia, confinamento e estado de emergência, chegou o Dia da Mãe. E estes são seus os testemunhos
Arquivo pessoal.

Rapidamente percebemos que conseguimos responder a um email entre colheradas de sopa e ficar sem nódoas na roupa (que os tempos não estão para sujar muita roupa).

Rapidamente percebemos que uma criança de 8 anos consegue dominar as tecnologias de comunicação dos dias de hoje num abrir e fechar de olhos e que afinal até é possível ter alguma autonomia na gestão da tele-escola (estou a assumir que quando ele me diz que leu o texto que a professora disse para ler é mesmo verdade… Chamem-me ingénua…).

Aprendemos que ser o filho do meio é tramado: já não é um bébe mas ainda não é crescido para ter tele-escola. E portanto quase tudo vale para que esteja entretido (mesmo que seja fazer do irmão mais novo o seu boneco).

Aprendemos a simplificar. Afinal se não tomarem banho todos os dias não vão morrer.

Aprendemos que mais vale não arrumar o que vai ser desarrumado no segundo a seguir, sem qualquer dó nem piedade.

Acostumamo-nos a vestir roupa sem ser passada e percebemos que comer douradinhos e salchichas afinal não transforma os miúdos em monstros.

Aprendemos a prioritizar o nosso trabalho.

Há momentos em que pensamos: "Eu consigo, tenho isto controlado!", para no minuto a seguir sentirmos que vamos endoidecer, tal é o frenezim com que tudo acontece diante dos nossos olhos, sem o mínimo controlo.

Entre pandemia, confinamento e estado de emergência, chegou o Dia da Mãe. E estes são seus os testemunhos
Arquivo pessoal.

Mas surpreendentemente é exatamente isto que tiro de bom da quarentena: aprender a deixar as coisas fluírem e assistir à vida a acontecer mesmo à frente dos meus olhos. Não há como perder momentos como as primeiras palavras e os primeiros passos do bebé, os primeiros dentes a cair do filho do meio, as conquistas escolares do mais velho e, acima de tudo, uma relação de companheirismo entre irmãos a crescer.

Isso é um privilégio que com certeza não iria ter, se não tivéssemos sido obrigados a ficar fechados em casa, todos juntos, não sei quantos dias (já disse que deixei de contar?!?). E aperceber-me que afinal sou capaz de gerir muito mais do que aquilo que julgava.

Vamos sobreviver e sair todos mais fortes disto. Não tenho dúvidas! Mas que isto é difícil para caraças, é! E por isso, uma salva de palmas para nós!

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