Crónica anterior: Gravidez em tempo de pandemia. "Tirem-me o computador da frente, por favor!"


Uma das experiências pelas quais passei nestas semanas foi ter uma teleconsulta com a minha obstetra. Na consulta anterior, a 11 de março, ela informou-me que ia mudar de unidade hospitalar e que iria passar a dar consultas numa clínica (estava a ir a um hospital).

Marquei a consulta para 6 de abril, às 8h20. Sim, logo cedo, para não ter de mexer muito com os meus horários de trabalho. Por essa altura, pouco tinha saído de casa – uma das vezes foi para fazer o teste da glicose – e estava quase em êxtase com a hipótese de voltar a sair e ter uma espécie de rotina: vestir, meter um BB Cream na cara (já sou muito branca e pouco dada a bronzear, agora pareço um fantasma), tomar o pequeno-almoço, etc.

A novidade chegou na semana anterior, a 3 de abril, pelo telefone. Estavam a ligar-me para confirmar e relembrar da consulta e também a confirmar o meu mail pois iam enviar-me o link para a teleconsulta. “Teleconsulta?”, perguntei desiludida. “Sim, neste momento não estamos a fazer consultas presenciais”, responderam-me. Por um lado, era mais seguro e era melhor não sair de casa. Por outro, a réstia de normalidade que poderia ter nesse dia ficou pela intenção.

As consultas são mais o momento dele do que o meu. É aí que se vê coisas. Ele é que está nervoso antes, é quem faz mais perguntas e também é ele que começa logo a disparar informação nos vários grupos de Whatsapp

Da consulta em si nada a registar: mandei as análises que tinha feito, ela passou-me a receita eletrónica, perguntou-me como tinha passado nas últimas semanas e pronto, está feito, adeus até à próxima. Escusado será dizer que não foi a mesma coisa, mas era o que se podia fazer no momento.

Ponto positivo: o meu namorado pode assistir à conversa. Mas… não foi a mesma coisa. Durante muito tempo, a gravidez foi para mim algo abstrato. Lembro-me de, no primeiro trimestre e início do segundo, as pessoas irem perguntando como estavam a correr as coisas, como me sentia. E a verdade é que não tinha nada a dizer. Era tudo muito abstrato.

Tive a chamada gravidez santa, desde o início, sem enjoos, sem mais sono, sem sintomas maiores, sem incómodos, sem desconfortos. A única coisa que notava era falta de apetite, que entretanto normalizou, e algum cansaço a fazer determinados exercícios. De resto tudo na mesma, como antes.

Portanto, quando me perguntavam como me sentia, havia vezes em que não sabia o que responder porque não tinha nada a acrescentar à última vez que me tinham questionado. Depois, aos poucos, começamos a sentir o bebé e percebemos que há mesmo vida ali, que está ali alguém e vamos controlando por aí. Mas no caso do pai, são as consultas que fazem toda a diferença.

Foi graças à primeira consulta que o meu namorado viu o coração do bebé a bater pela primeira vez o que o levou instintivamente a apertar-me logo na mão, mesmo quando o nosso projeto de criança era apenas um ponto cinzento num ecrã preto.

Foi na ecografia do primeiro trimestre que vimos já uma mini-pessoa – tinha 5 cm – nesse mesmo ecrã, o que fez os olhos dele brilharem. Foi às 18 semanas que descobrimos um bebé mexido – quase juro que fez adeus uma das vezes em que se mexeu - “um bebé muito simpático”, nas palavras da obstetra porque foi super colaborativo e revelou-se uma menina.

Foi na ecografia morfológica que tivemos mesmo a confirmação que esperávamos uma menina, se bem que na anterior não tinha deixado grande espaço para dúvidas. E que todas as outras coisas estavam bem.

As consultas são mais o momento dele do que o meu. É aí que se vê coisas. Ele é que está nervoso antes, é quem faz mais perguntas e também é ele que começa logo a disparar informação nos vários grupos de Whatsapp, com os amigos e a família, sem ainda termos sequer saído do consultório. Notava logo o meu telemóvel mais frenético, de tanta notificação que recebia, enquanto trocava palavras com a obstetra.

Portanto, uma teleconsulta tira essa "magia". Ele estava ao meu lado, já concentrado no teletrabalho, a ouvir o que íamos falando, mas sem grandes questões. Passámos mais tempo a falar do que estava a acontecer e da COVID-19 do que propriamente de mim ou da bebé.

A minha obstetra mostrou alguma preocupação com a questão da vacina da Tosse Convulsa, que devia levar a partir das 29 semanas. Expliquei-lhe que tinha contactado o meu Centro de Saúde e que tinha ficado de marcar um dia e uma hora para o fazer. “Se for assim, tudo ok!”, respondeu. “Não a quero muito tempo em salas de espera, sabe-se lá em que condições”, advertiu.

A vacina aconteceu 10 dias depois, a 16 de abril, e foi do mais simples. Mas sem a companhia do pai, porque não fazia sentido estarmos a ir os dois. O meu Médico de Família tinha tratado da marcação, fizeram uma breve triagem à entrada (“teve febre nos últimos dias?”, “está com tosse?”), se não tivesse máscara, forneciam-me uma, tive de desinfetar as mãos antes de entrar para a sala de espera e o segurança retirou a senha da máquina, com a ajuda de um lápis, para não ter de estar a tocar em ecrãs.

Também tive oportunidade de me pesar, coisa que não fazia há um mês e o resultado não foi tão mau quanto eu esperava: um total de 5,5 kg desde o início da gravidez. Tendo em conta a minha tendência para os doces nos últimos dias, com o alto patrocínio da Páscoa, não está a correr nada mal. Vamos ver na próxima…

Fast Forward

Já não sei quantos dias passaram. Vamos arredondar para quase dois meses em casa. A tendência para comer porcarias cresce na mesma medida em que a barriga aumenta e o tempo de confinamento estica.

Os dias são todos iguais: acordar, vestir (eu tomo banho à noite), tomar o pequeno-almoço e começar a trabalhar. Muitas vezes a comer o pequeno-almoço ao mesmo tempo. Os horários para almoçar vão variando, conforme a chegada do boletim da Direção-Geral da Saúde com os números do dia referentes à COVID-19.

Vou ser sincera: este ano não senti que o dia [da Mãe] fosse verdadeiramente meu. Para o ano será diferente, com certeza. Mas obrigada amigos e família pelas surpresas que me reservaram.

No domingo foi o Dia da Mãe. Eu ainda sou aquilo que se pode chamar de uma mãe "under construction". Estou mais para pré-mamã do que para Mãe (com M maiúsculo). Ainda vou aprender tudo sobre esta coisa de ser "Mãe". Olho para as minhas colegas e vejo a sorte que tenho em ter ainda a minha criança "arrumada" e aconchegada na minha barriga. Mesmo que isso implique algumas manobras de contorcionismo da minha parte.

Mas, vivendo este estado de graça, já tive pela primeira vez um pequeno vislumbre da comemoração do Dia da Mãe. Teve o patrocínio do meu namorado que adora prendas: para ele, mas sobretudo, para os outros. É aquela pessoa que pensa com meses de antecedência na minha prenda de aniversário, nas minhas prendas (sim, plural), de Natal e agora, na prenda do Dia da Mãe (na realidade foram duas, a segunda chegou ontem).

Este ano a surpresa chegou pelo correio logo de manhã, na última quinta-feira. Ele ia tendo um colapso nervoso quando percebeu que eu estava a abrir a porta ao carteiro com a "minha" encomenda. Eu, desligada para estas coisas como sou, pensei que era algo que tinha encomendado para si próprio. Decidiu antecipar-se e entregar logo a surpresa nesse mesmo momento, apesar de ter esperado ainda umas horas até eu ter conseguido abrir o embrulho. Vou ser sincera: este ano não senti que o dia fosse verdadeiramente meu. Para o ano será diferente, com certeza. Mas obrigada amigos e família pelas surpresas que me reservaram.

De resto, não cumprimos o hábito que criámos nos últimos anos, de almoçar com as nossas mães: ambas estão a cumprir o seu confinamento, em concelhos diferentes do nosso.

Mas uma coisa que estas semanas me têm ensinado é que não é preciso estar presente fisicamente para se estar presente na vida das pessoas que são importantes para nós.

Todos os anos tenho o hábito de oferecer uma planta à minha mãe. Este ano, mesmo estando distante, não foi exceção. Uma coisa que este período nos trouxe foi perceber que as compras online não são um bicho de sete cabeças e que podemos enviar e mandar vir de tudo um pouco. Por isso, feliz dia mãe! Depois vou querer provar o teu arroz doce (o arroz doce das mães é sempre qualquer coisa).

Deixo-vos duas sugestões de leitura: o testemunho de três mães – tenham especial atenção no primeiro, porque é o relato de um parto nas primeiras semanas de COVID-19 – e uma entrevista a uma enfermeira especialista em saúde materna que aborda alguns temas que interessam a todos aqueles que estão a preparar a chegada de um novo membro da família.


Daniela Costa chegou ao SAPO em agosto de 2013, depois de uma passagem por produtoras de televisão em que fez um pouco de tudo: desde programas para a RTP 2 sobre agricultura, pescas e desenvolvimento rural, programas sobre lusofonia, na RTP África ou programas para a RTP Internacional sobre o melhor que se fazia em Portugal nos anos de crise financeira, entre outros. Entrou na equipa do SAPO Lifestyle, em novembro de 2015, e desde fevereiro de 2017 que assume a função de editora.

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