A história de Ana foi contada à agência Lusa pela educadora Cristina Cunha, a propósito dos 40 anos da Casa da Praia, instituição fundada pelo pioneiro da saúde mental infantil em Portugal, João dos Santos, para apoiar crianças com problemas emocionais que bloqueiam a sua aprendizagem.

A pedido da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, onde residia desde os sete anos com os dois irmãos mais novos, Ana foi observada na Casa da Praia no final do segundo ano de escolaridade, em 2003.

“Era uma menina que não olhava para o adulto, olhava sempre para o chão. Muito fechada, até corporalmente, não comunicava espontaneamente”, lembra Cristina Cunha, educadora no Centro Doutor João dos Santos há 19 anos.

Ana não frequentava qualquer creche ou jardim-de-infância. Em vez disso, deambulava pelas ruas com os irmãos mais novos. O pai estava detido e a mãe não tinha emprego certo.

Uma menina que se via como uma aranha

Ao ingressar na escola, Ana agredia física e verbalmente os colegas e professores. Não conseguia aprender e ficou retida no primeiro ano. Acabou por ser sinalizada pela Comissão de Proteção de Crianças e Jovens, foi retirada à família e acolhida na Santa Casa.

Quando chegou à Casa da Praia apenas respondia “sim, não ou encolhia os ombros” às perguntas que lhe eram feitas, recusava fazer as tarefas, rastejava e escondia-se debaixo das mesas.

“Sempre que eu dizia que ia contar uma história, ela tapava os ouvidos e virava-me as costas”, recorda a educadora.

Também tinha uma relação muito difícil com os colegas e não se identificava com as outras meninas. “Era muito ‘Maria rapaz’ ia jogar à bola, era uma menina de rua”.

“A parte escolar era um caos. Conhecia as letras, mas não serviam para nada porque não tinha consciência fonológica, escrevia o nome mecanicamente”, mas teve a sorte de ter uma professora que a entendeu e que passeava com ela, conta.

Cristina Cunha lembra quando pediu a Ana para fazer o autorretrato. “Fez uma coisa bizarra e disse que ia deitar fora”, mas na Casa da Praia não se deita nada fora.

O desenho ficou guardado e passado um tempo Ana pediu para fazer o seu retrato, que refletiu uma nova imagem de si própria. A estranha aranha que desenhou inicialmente deu lugar a uma menina sorridente.

Também descobriu o prazer da leitura e o sentido da escrita, que utilizou para contar a sua vida. “Hoje é capaz de falar sobre as memórias que tem”, diz Cristina Cunha, contando que Ana tirou o curso de auxiliar de educação e ainda hoje mantém contacto com a Casa da Praia.

O caso de Ana é um dos muitos que há 40 anos chegam à Casa da Praia e que os professores, educadores, psicólogos tentam solucionar através da pedagogia terapêutica, o método preconizado pelo psicanalista e pedagogo João dos Santos.

Os 40 anos da instituição são assinalados na quinta-feira com a realização da conferência "Casa da Praia - 40 anos de Pedagogia Terapêutica" na Fundação Calouste Gulbenkian.

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