Um estudo científico pioneiro em Portugal para combater a obesidade infantil demonstrou que nove meses de intervenção em sala de aula serviram para as crianças diminuírem de peso e aumentarem o consumo de fruta ao almoço e jantar na sobremesa.

O estudo, realizado com uma amostra de 464 crianças entre os 6 e os 12 anos de idade - 239 meninas e 225 rapazes – de sete escolas do 1.º Ciclo de Guimarães, concluiu que “globalmente houve uma menor proporção de excesso de peso nas crianças do grupo de intervenção” e passaram a consumir maior quantidade de fruta ao almoço e ao jantar como sobremesa, avançou hoje à Lusa Rafaela Rosário, autora da investigação.

A investigação, intitulada “Obesidade em Crianças - implementação e avaliação de um programa de intervenção na escola”, foi o resultado de uma tese de doutoramento em Estudos da Criança publicada este mês na revista Public Health.

O programa de intervenção na escola fez com que as crianças aumentassem o consumo de produtos hortícolas e tivessem uma maior qualidade alimentar em termos genéricos, particularmente a nível da moderação de sódio e na adequação de produtos hortícolas”, acrescentou Rafaela Rosário, professora da Escola de Enfermagem da Universidade do Minho, e que trabalhou em parceria com as Faculdades de Ciências da Nutrição e Alimentação, Medicina e Desporto, da Universidade do Porto.

O programa obedeceu a duas lógicas. A educação e formação de professores em sessões e ‘workshops’ de formação acreditados pelo Ministério da Educação, pelo Conselho Científico Pedagógico da Formação Contínua, e a intervenção dos professores na sala de aula junto das crianças, abordando os tópicos previamente discutidos.

No programa alimentar foi introduzido o consumo de fruta como sobremesa e registou-se um aumento ao almoço, o que é sinal que a própria escola se envolveu neste processo, mas também ao jantar, um aspeto relevante, porque as crianças foram o motor de mudança no seio familiar e esse aspeto deixou-nos particularmente satisfeitos e com expectativas e com vontade de continuar a estudar este domínio”, contou Rafaela Rosário.

Os professores receberam 12 sessões de treino, cada uma com três horas de duração. A formação consistiu, por exemplo, em dar informações sobre nutrição, alimentação saudável, a importância de beber água e de confecionar cozinhados saudáveis.

Depois das sessões, os professores foram encorajados a desenvolver atividades na sala de aula com base nos tópicos das sessões e os resultados indicam que as crianças passaram a comer mais fruta como sobremesa ao almoço e ao jantar.

“O nosso estudo mostra que um programa de nutrição implementado com o apoio dos professores com formação em nutrição ajudou efetivamente a melhorar o consumo de fruta depois das principais refeições”, lê-se na revista Public Health.

Este trabalho dá sequência a um conjunto de trabalhos resultantes da intervenção de educação alimentar para prevenir a obesidade infantil, que de acordo com o meu melhor conhecimento são os “primeiros e únicos estudos publicados em Portugal a mostrar que podemos travar a obesidade infantil e melhorar a alimentação em escolas portuguesas”, adiantou à Lusa Pedro Moreira, diretor da Faculdade de Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto e orientador do trabalho académico.

Os investigadores pretendem dar continuidade ao estudo debruçando-se agora em crianças com faixas etárias anteriores, porque aos seis anos já se verifica uma prevalência de excesso de peso e obesidade elevada”, avançou à Lusa Rafaela Rosário, referindo que pretende também fazer uma tentativa de contacto com o Ministério da Educação para dar continuidade ao projeto.

O estudo ganhou em junho deste ano e durante o European Obesity Summit em Gotemburgo, (Suécia), o prémio ‘New Investigator Award for Childhood Obesity Research da European Association for the Study of Obesity, um galardão para investigadores com menos de 35 anos.

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